Testes da COVID-19 vendidos a 1.500 meticais nos hospitais públicos

DESTAQUE SAÚDE

A denúncia é do Observatório do Cidadão para Saúde (OCS) e resulta de uma investigação feita em três hospitais de referência da cidade de Maputo, nomeadamente Hospital Central de Maputo (HCM), a maior unidade hospitalar do país, Hospital Geral de Mavalane, assim como o Hospital Geral José Macamo.

De acordo com aquela organização, os testes de diagnóstico do novo coronavírus encontram-se ilegalmente à venda a valores que variam de 1.000 meticais à 1.500 meticais e o esquema fraudulento envolve funcionários e técnicos de saúde das unidades sanitárias onde o OCS se deslocou para fazer a pesquisa, depois de receber uma denúncia.

“Eu havia estado em  dois hospitais, nomeadamente, José Macamo e do Chamanculo para fazer teste, mas diziam sempre não ter testes. Eu precisava saber do meu estado e um técnico de saúde manifestou interesse em fazer o teste, mas devia pagar 1.500 meticais. Eu não tinha esse valor. Negociei e paguei 2.000 meticais para mim e para minha esposa”, contou uma fonte ao OCS.

A organização não governamental constatou, em Janeiro último, que pelo uma dezena de pessoas fazem os testes diariamente, recorrendo à esquemas de fraude, uma prática que pode ter iniciado nos meses anteriores e se tenham intensificado devido a actual conjuntura marcada pelo aumento de contaminações e do crescente número de óbitos ocorridos desde Janeiro decorrentes da COVID-19.

Esse cenário, suscita um aumento na procura pelo teste por parte da população que, no entanto, não encontra uma resposta favorável no Sistema Nacional de Saúde. Pessoas que tiveram contacto com casos positivos, não conseguem fazer testes de rastreio da COVID-19.

Os testes da COVID-19  no sistema privado custam entre 3800 a 5.000,00 meticais – um valor elevado e insuportável para uma grande maioria de cidadãos moçambicanos que vivem com o salário mínimo.

A falta de testes, a escolha de quem, dentre os pacientes, devia fazer teste, e, naturalmente, a segregação dos mais graves em relação aos não graves, pode ter propiciado o surgimento deste esquema de venda de testes da COVID-19, que envolve pelo menos três funcionários em cada unidade sanitária.

Durante o trabalho foi também possível constatar que existe outra forma de venda de testes. Sucede que os profissionais de saúde têm o privilégio de fazer testes a si assim como os seus familiares. Então muitos funcionários incluem  desconhecidos (não familiares) a fazer teste em troca de dinheiro.

Numa das unidades sanitárias o OCS constatou este tipo de esquemas e inclusive procurou fazer usando este modelo, mas sem sucesso porque não tínhamos tempo para fazer o teste antes do fecho da pesquisa.

Com base nesta pesquisa, o OCS apela as entidades competentes a criarem um modelo mais eficaz de controlo de testes, tanto dos membros dos familiares dos profissionais da saúde, assim como da venda de testes que envolve todo tipo de funcionários, desde a base até ao topo. Sendo que o sistema público pelo menos no grande Maputo não tem mais de uma dezenas de centros de recolha de amostras para testagem de COVID19 não faz muito sentido que os poucos serviços existentes estejam a mostrar-se ineficientes para satisfazer a demanda do público.

A venda de testes prejudica a milhares de cidadãos que não têm condições de fazer teste porque estão desprovidos de meios financeiros para pagar quer no privado quer no público onde esta prática ilegal floresce a olhos vistos.