Total compra terminais oceânicas e o negócio do retalho da BP

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A multinacional francesa Total, que lidera o projecto Mozambique LNG, em Cabo Delgado, efectivou, em Janeiro passado, a compra dos investimentos da British Petrolium (BP), a segunda empresa britânica do ramo de combustíveis a desinvestir em Moçambique num prazo de um ano, depois da Wentworth. Efectivada a compra, que foi tratada com maior sigilo, a Total, que também tem seu histórico na distribuição de combustíveis, ensaia igualmente a aquisição da joint venture Petromoc-Sasol.

A empresa, que já controla o gás em Cabo Delgado, com investimentos históricos em Moçambique, está também em busca do maior controlo de retalho de combustíveis no País. Num acto que decorreu longe de olhos curiosos, a francesa Total fechou o negócio da aquisição da estratégica Samcol, uma joint venture 50-50 entre ela e a BP, que geria as terminais oceânicas em Maputo, Beira e Nacala.

A Samcol foi criada pelas duas empresas, a Total e BP, para gerir a recensão dos combustíveis. Além de vender os seus 50 por cento das terminais estratégicas, a BP vendeu o negócio de retalho, ou seja, a rede de distribuição de combustíveis, e veio também a sair do C&I comércio.

Neste momento, a BP em Moçambique ficou apenas com aviação. Há quem especule que o negócio de aviação, o menos lucrativo de todos investimentos da BP, serve apenas para manter a sua licença em Moçambique.

À luz do contracto entre as partes, os trabalhadores foram também para o novo dono dos investimentos da BP, com garantia de apenas um ano de trabalho, e findo este período, a sua continuidade, do resto, dependerá da boa vontade da Total.

O Evidências mostrou que a intenção da BP sair de Moçambique parece não ser recente, apenas agudizou-se depois que os gigantescos de gás encabeçaram o projecto do norte de Moçambique.

Nos últimos anos, a BP vendeu todos os retalhos dos diversos países de África à PUMA e concentrou suas atenções em Moçambique, onde, contrariando a sua política de contínuo investimento, deixou de investir nas suas atividades e sondou as oportunidades no ramo de gás.

Era a nova forma de se portar de uma empresa que durante um século manteve-se firme e, até em períodos de guerra civil, investia mesmo quando via os seus camiões destruídos.  

Curiosamente, a BP nos últimos cincos anos, juntou-se com a Total para controlo das terminais oceânicas, a principal chave do seu negócio, que abastecia o lucrativo mercado da Interland.

A BP retrocede na rede de distribuição, mas continua de olho no gás. No entanto, por razões que ninguém conhece, aquela empresa não mais avançou com investimento directo. No lugar de entrar diretamente, fez um contrato de compra do gás da ENI durante 25 anos.

O Evidências apurou que a Total, para além de controlar as operações de exploração de gás natural, está a em vias de aumentar a sua presença na rede de retalho, podendo dentro deste ano fechar a compra da joint venture Petromoc-Sasol.

Recorde-se que a Sasol enfrenta uma crise devido a uma dívida avaliada em mais de 138 mil milhões de randes, que obrigaram a petroquímica sul-africana a apresentar, no ano passado, uma proposta de venda de activos e algumas acções em vários países, incluindo Moçambique. Ao que tudo indica, a rede de distribuição de combustíveis pode ser a primeira vítima.

BP e Total evitam responder sobre o negócio

O Evidências tentou, sem sucesso, compreender os contornos do negócio, cujos montantes e outros detalhes, os dois operadores preferem manter no segredo dos deuses. A BP recusa-se a dar esclarecimento, alegando que, à luz do acordo, tal compete à Total, enquanto a multinacional francesa adoptou a táctica de ping-pong.

“Qualquer questão tem de ser contactada a Total. Não é qualquer desconforto, foi assim que foi coordenado, que a Total é que irá coordenar com os órgãos de comunicação social”, foi com estas palavras que recusou prestar qualquer esclarecimento o representante da BP em Moçambique, Martinho Guambe, quando convidado a pôr em pratos limpos os contornos da venda e partilhar os valores envolvidos.

Contactada, a Total a francesa aconselhou-nos a mandar as questões por escrito. As questões foram enviadas há quase duas semanas e até ao fecho da presente edição não havia nenhuma resposta.

Na insistência, descobrimos que o e-mail foi partilhado entre dois profissionais do Gabinete de Comunicação e Imagem, que no entanto, não deram seguimento, limitando-se a trocar acusações sobre quem o devia ter feito. Fomos orientados para mandar num outro e-mail, porém nada de novo foi feito, em tempo útil.

Da Total, dentre várias questões, o Evidências quer saber quanto custaram os activos da BP e quanto foi embolsado pelo Estado em impostos, bem como apurar as ambições da multinacional para o sector do retalho.

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