“Estava muito confortável na vereação”

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Em entrevista ao Jornal Evidências, Albano Carige, o homem que ascende à edilidade da Beira por força da lei, mostra domínio dos planos de Daviz Simango para Beira e compromete-se a dar continuidade, mas quanto à carreira política, à semelhança do seu Secretário-geral, não mostra grandes ambições, limitando-se a confiar seu futuro ao partido. “Esta decisão é exclusivamente do partido, porque as acções que se impõem à nossa actuação de decidir candidaturas de qualquer cargo interno apoiam-se no cumprimento dos estatutos”, afirma Carige, sublinhando que estava muito confortável como vereador para área de Construção e Urbanização, mas a lei obrigou-o a assumir os destinos da Beira.

Jossias Sixpence, Beira

O Presidente Daviz Simango deixou um grande legado na Beira. Há uma série de infra-estruturas e projectos sociais ainda inacabados, como pretende conduzir esses planos daqui em diante?

De princípio é importante que os munícipes saibam que essa nova função não vem de uma eleição, mas sim da força de circunstância, em virtude da morte do edil. E em termos da equipe, manifesto eleitoral e o plano de actividades, está tudo desenhado.

Vamos prosseguir como consta do plano, dar foco à protecção costeira, a reabilitação de valas de drenagem, continuar a servir o munícipe e sensibilizar este a respeitar o saneamento básico, e aprofundar o diálogo com diferentes extractos sociais.

Vem do sector da construção e urbanização, um dos mais complexos. Como pensa em acabar com conflitos de terra e em resolver o problema de degradação das vias de acesso?

Praticamente já demos algum passo e levo uma grande vantagem porque há muitos anos que estou lá. Demos passo na digitalização do cadastro e, praticamente, a probabilidade do de um espaço digitalizado ser atribuído à outra pessoa é muito escassa, porque basta entrar no sistema informático é possível clarificar que a parcela X já foi atribuída a outra pessoa com a respectiva data da atribuição.

E como pretende inverter o cenário sobre vias de acesso?

Já temos um plano em curso. Ainda este mês, vamos pavimentar a estrada de raiz, que parte da avenida 24 de Julho e dá acesso à praça dos professores e ao café Nicola. Está também previsto, para breve, o arranque das obras de estradas de vias adjacentes do mercado do Maquinino e a pavimentação da rua de Manganhe, para garantir o descongestionamento, nas horas de ponta, de todos que saem do Macurungo para a baixa. Outro desafio à vista é a criação de condições de descongestionamento da saída da cidade para Manga ou Inhamizua, pavimentando a rua do Algarve que dá acesso à fábrica de refeições até a Praça da Paz.

O desafio das vias de acesso se estende para reabilitação da rua que dá acesso à ponte da Manga. O projecto já está finalizado e seu custo é de 100 milhões de meticais. Até então estamos à procura de financiamento para a sua materialização.

E como o município pretende inverter o cenário actual de congestionamento de camiões para ter acesso a zona portuária?

Este projecto está numa fase avançada e, inicialmente, estava orçado em 400 milhões de dólares. Neste momento voltamos a solicitar a CONSULTEC, a empresa que elaborou e está a fazer a consultoria deste grande projecto, para revisitar e estudar a probabilidade da materialização do projecto com custos mais reduzidos, e foram realizados vários encontros, na altura, entre o presidente Daviz Simango e empresários Beirenses, que se predispuseram para ajudar a procurar financiamentos.

Projecto das 25 mil casas para descongestionar a Beira

A cidade da Beira está abaixo do nível do mar e as famílias continuam a construir em zonas propensas a inundações e sem fazer os devidos aterros, alguma solução à vista?

Estamos a trabalhar com nosso parceiro que é a GICA e já identificamos várias zonas de risco, onde não se pode voltar a construir, e também identificamos zonas seguras, em caso de qualquer situação que resultar de mudanças climáticas ou desastres naturais.

Como parte de solução, existe o projecto iniciado das 25 mil casas, que inclui serviços básicos como aterros, sistema de saneamento, arruamento de três hectares, que constitui uma zona piloto para garantir a criação de condições de habitações resilientes, com condições ambientais e outras condições adequadas.

Em algum momento teve de intervir em alguns conflitos de terra, o que lhe faz não ser bem visto por alguns. Está ciente disso? Perante essa e outras situações como pretende unir toda família Beirense como fazia o Daviz Simango?

– Isso não pode afectar negativamente por uma razão simples. Lembremo-nos que, quando começamos com a governação no ano 2003, a urbe estava assolada pelo fecalismo a céu aberto e havia cólera na urbe. Quando começamos com trabalho de retirada de munícipes que ergueram as suas infra-estruturas nas bermas das valas de drenagem houve resistência de algumas famílias, mas, depois de várias acções de sensibilização destes, foram entendendo que a nossa intenção era para garantir a segurança e criação de melhores condições.

Por iniciativa própria, foram se aproximando à edilidade e demos o seguimento necessário. Por isso, qualquer desconforto que haver, o tempo ditará o contrário, porque a nossa intenção é de servir o munícipe e oferecer serviços de muita qualidade para que a nossa cidade continue a crescer como umas das cidades atractivas e de preferência turística.

“Pode ter havido pressão, mas minha indicação resulta da lei”

Dias antes da sua indicação definitiva houve barulho de insatisfação sobre a sua indicação como edil. Perante esta situação chegou a se sentir pressionado?

– Não senti nenhuma pressão, pude saber, através de alguns órgãos de comunicação social, e os rumores podem ter acontecido algures. É normal que cada cidadão manifeste a sua opinião de forma livre e independente, mas isso (minha indicação) não é resultado da minha vontade, mas por incumbência da lei, resultante do actual pacote eleitoral sobre a eleição de cabeça de lista, que engloba a substituição em caso de incapacidade, morte ou qualquer motivo que não permitir a continuidade de presidir a autarquia.

E confesso que estava muito confortável na vereação de construção, urbanização e infra-estruturas porque já tenho o plano de acção de diferentes momentos para intervenção imediata. Razão pela qual temos os projectos a serem implantados e as inundações na cidade da Beira passaram para história devido à preparação de técnicos para pronta intervenção e várias respostas em diversas áreas da vereação.

O mandato já vai quase a meio, pensa em candidatar-se em 2023?

– Esta decisão é exclusivamente do partido, porque as candidaturas de qualquer cargo interno apoiam-se no cumprimento dos estatutos e, para casos desses, as reuniões magnas do partido tomam as decisões e a eleição é feita de forma democrática, tanto eu ou qualquer outro membro terá que cumprir decisões tomadas pelos órgãos do partido e emanadas nos estatutos.

Com o novo cargo, tornou-se um dos homens mais importantes do MDM e elegível para a sucessão no partido. Vai avançar com a candidatura para concorrer à presidência do partido?

– No partido existem muitos quadros competentes e elegíveis para este cargo, e estarei a ser egoísta caso eu aceite, por isso eu deixaria esta oportunidade para os outros quadros concorrerem.

Há uma percepção de que o MDM foi sempre gerido numa base familiar e que provavelmente o sucessor possa ser da família Simango. Partilha da mesma visão?

Eu já pude dar resposta a esta questão em muitas oportunidades de entrevistas que dei. Na altura de implantação do partido, fui membro da Comissão Política Nacional e fui implantar o partido em Cabo Delgado. Do resultado do trabalho que fomos fazendo, foi possível eleger membros de Assembleia Municipal de Mueda e faço a seguinte questão: será que Simango tem algum vínculo de familiaridade com Mueda? Acho que não, por isso que achamos que o propalador destas informações tem objectivos obscuros de atrapalhar a visão, objectivo e linha do partido.

Estaria disposto a resignar o cargo, caso o partido te pedisse?

No partido MDM não existe vontade própria, mas sim decisões tomadas em sede de debate democrático para decidir o destino e eleger quadros para cargos que se pretendem ocupar. Mas no caso do actual cargo, dependeu da força da lei como fiz referência anteriormente.