Pessoas alimentam-se de capim e frutos silvestres devido a fome em Nampula

DESTAQUE EXCLUSIVO

35 pessoas, 25 das quais da mesma família, morreram de fome em Muecate

 

À margem das projecções do crescimento da produção e produtividade no sector da agricultura, atribuídos ao Projecto Sustenta, a população da província de Nampula, uma das contempladas pela fase piloto, está a braços com uma fome severa que já tirou a vida a pelo menos 35 pessoas. Sem bolsas da tão propalada sustentabilidade, neste momento, uma parte significativa da população, em alguns distritos, alimenta-se exclusivamente de capim, tubérculos e frutos silvestres, situação que levou as autoridades de nível provincial a instaurarem um inquérito para apurar o nível de gravidade.

Há cerca de três meses, os moçambicanos ficaram chocados quando uma reportagem brasileira mostrou que no país havia comunidades que se alimentavam de grilos e chima de farelo, devido a falta de alimentos. A onda de indignação, manifestada sobretudo através das redes sociais, grosso modo por pessoas residentes da grande cidade, ignorava por completo as assimetrias regionais e a realidade vivida por famílias pobres sobretudo nas zonas rurais.

Facto é que nalgumas regiões do país há pessoas para as quais o dia nasce e termina sem terem o que colocar na boca, sobretudo devido à seca severa registada nalguns pontos do país.

É o caso de alguns distritos da província de Nampula, onde algumas pessoas só alimentam-se de capim, tubérculos e frutos silvestres e, nos dias que tem disponibilidade de alimentos, não vão para além de uma refeição por dia. Curiosamente, Nampula foi, a par da Zambézia, a província que acolheu a fase piloto do Sustenta, onde foram anunciados resultados faustosos nos 10 distritos, no que tange à produção de comida.

No entanto, só no último mês, por exemplo, 35 famílias, 25 das quais da mesma família, morreram, no distrito de Muecate, na província de Nampula, devido à fome, facto aliado ao consumo de capim, tubérculos e frutos silvestres, alguns dos quais com toxinas prejudiciais à saúde.

O facto foi revelado pelas autoridades daquele distrito a contas com graves problemas de insegurança alimentar, durante a reunião do Conselho Técnico Provincial de Segurança Alimentar, órgão dirigido pelo Secretário de Estado, Mety Gondola.

“O que nós vamos fazer dentro de dias é dar a conhecer, com dados mais aturados, o que é que, de facto, estará por detrás desta situação e, naturalmente, veremos que medidas é que iremos tomar de imediato”, disse Mety Gondola, destacando que já foi criada uma comissão para trabalhar nos distritos mais afectados pela fome.

“Temos que reconhecer que o problema existe e não podemos esperar ter os resultados do inquérito para podermos fazer intervenções pontuais”, acrescentou o representante do Estado na província, com um ar de surpresa, dando a entender que não conhece a realidade em que vive a população da sua circunscrição administrativa.

Administradora passou mal após provar a comida numa das comunidades

Em Nacala Velha, mais de três mil pessoas, correspondentes a 600 famílias, tem apenas uma refeição por dia e alimentam-se do que tiverem disponível, muitas vezes frutos tirados da floresta e não certificados para o consumo. A fome naquele ponto do país é tanta, que algumas comunidades chegam a alimentar-se de frutos do canhú.

“A população sobrevive graças a alguns frutos que nós também não conhecemos. Estamos a falar de um tipo de capim que é tirado da mata, pila-se e faz-se a papa para ser consumida”, destacou Abdul Remane Sulemane, administrador do distrito de Nacala Velha, citado pela Televisão de Moçambique.

Já a administradora de Nacarroa, Joaquina Charles, caracteriza a situação que se vive naquele ponto do país como sendo um autêntico pesadelo. A  crise de alimentos leva a população a recorrer a meios alternativos para matar a fome.

Aliás, Joaquina Charles chegou a passar mal após ingerir alguns alimentos desconhecidos numa das comunidades que recentemente visitou, no quadro da governação.

“Estive numa comunidade, serviram uma alimentação depois da visita e fui aperceber-me mais tarde que, afinal de contas, se tratava de chima de farelo, porque depois tive problemas de saúde. Fui numa outra comunidade verifiquei que há famílias que se alimentam só de tubérculos”, destacou a administradora de Nacarroa, escancarando o drama da fome.

No entanto, a crise alimentar severa que se regista naquele ponto do país pode ter a ver, em parte, com a queda irregular das chuvas nalguns pontos daquela província, onde a população depende exclusivamente da prática da agricultura.

Curiosamente, alguns destes distritos foram abrangidos pela fase piloto do programa Sustenta e, ao que tudo indica, a meta de redução da insegurança alimentar por via deste projecto está a falhar.