Nem população, nem Total: Ninguém aceita voltar (agora) à “libertada” Palma

DESTAQUE POLÍTICA SOCIEDADE
  • Insurgentes prometeram voltar a atacar depois do Ide
  • Um corpo decapitado foi encontrado no domingo
  • Só permanece em Palma quem não tem onde ir

Apesar do reforço da presença das Forças de Defesa e Segurança (FDS) na vila-sede de Palma e outros pontos estratégicos, a população, que estava escondida nas matas e noutras regiões vizinhas, só regressou às suas aldeias para recuperar os seus bens e abandonar imediatamente o local, que está transformado numa verdadeira cidade fantasma. Neste momento, muitos estão na aldeia de reassentamento de Quitunda, entregues à própria sorte, dormindo ao relento, alimentando a esperança de que, a qualquer momento, serão evacuados. É que o medo intensificou-se, sobretudo depois de, no Domingo, ter sido encontrado um corpo fresco decapitado no centro da vila, ao mesmo tempo em que circula uma mensagem dos terroristas dando conta que, depois da celebração islâmica do “Ide”, voltarão a martirizar aquela vila. Com pequenas trouxas ou com uma mão à frente e outra atrás, para trás deixam, não apenas sonhos, mas, também, uma vila parcialmente destruída, com casas e estabelecimentos comerciais saqueados.

Nelson Mucandze, em Palma

A Vila de Palma já está completamente nas mãos das Forças de Defesa e Segurança, que mantém um forte contingente a patrulhar cada perímetro. Enquanto isso, o Governo continua a intensificar esforços para convencer a multinacional francesa, Total, e a população a voltar, com a garantia de que já está restabelecida a segurança em Palma, mas há quem continua a abandonar o local, em busca de abrigo em zonas seguras.

Pelas ruas, o que se vê são escombros. O movimento que caracterizava a pacata vila deu lugar a uma grande acalmia. As barracas ao longo das bermas estão destruídas, as casas estão abandonadas e é possível ver cápsulas de balas espalhadas pelas ruas

Para além de saquear comida em mercearias e lojas, os insurgentes, conseguiram entrar em dois bancos, nomeadamente, o BCI e o Millenium Bim. Estima-se, neste último, terem se apoderado de pouco mais de 30 milhões de meticais. O Standard Bank é o único estabelecimento bancário em que não conseguiram saquear dinheiro.

Não há balanço oficial do número de vítimas mortais do ataque, mas acredita-se que os números podem ultrapassar mais de uma centena. Para além dos corpos que foram removidos das ruas da vila-sede, há muita gente que foi brutalmente assassinada nas aldeias.

Por exemplo, na aldeia de Muaha, arredores do distrito, foram encontrados pelo menos 20 corpos crivados de balas, para além de cinco idosos que não apresentavam sinais de violência, pelo que acredita-se que podem ter sido abalados pelo susto.

Os únicos moradores que ainda teimam em permanecer em Palma contam que ainda é possível encontrar corpos pelas matas em elevado estado de decomposição.

Neste momento, as condições de vida são precárias, não há quase nenhum serviço a funcionar, a não ser uma barraquinha, que vende produtos a preços bastante especulados. Um litro de óleo chega a custar 400 meticais, enquanto o quilo de açúcar custa mais de 250 meticais.

No último Domingo foi encontrado um corpo decapitado no meio da vila com sinais de ser uma execução recente. Aliado a isso, circula uma mensagem dando conta que, após o Ide, os insurgentes vão voltar a atacar a vila. Dada a precariedade de vida, aliada ao duplo susto acima descrito, muitos moradores ainda continuam a fazer as malas para deixar Palma.

Os poucos que ainda permanecem e não tem planos de sair, disseram ao Evidências que, se tivessem opções de refúgio, há muito teriam abandonado a região. 

Há quem já não vê futuro em Palma

São maioritariamente famílias que, durante os nove dias de confrontações entre as Forças de Defesa e Segurança e terroristas, estiveram refugiadas nas matas e que no regresso encontram somente escombros daquilo que alguma vez chamaram de “casas”.

Tudo porque os insurgentes, durante a sua sessão de barbárie, incendiaram as casas, deixando milhares de famílias sem ter para onde ir, situação que fez com que se refugiassem na aldeia de reassentamento de Quitunda, a escassos quilómetros do acampamento de Afungi. Há quase três semanas que dormem em condições precárias e alimentam-se mal.

O Evidências teve acesso, no aeródromo de Afungi, ao relato de uma vítima, que, na altura do ataque, encontrava-se acamada a contas com uma malária. Sem forças para fugir, conta que escapou devido a alguma intervenção divina.

Sem emprego e em meio à insegurança, tal como outros, Gaspar Filipe, natural de Manica, que chegou em Palma em 2013, onde havia fixado residência definitiva, não tem outra opção senão abandonar junto com sua esposa. Há mais três dias que tenta, sem sucesso, apanhar um avião de resgate para chegar a Pemba.

“Assim estou a abandonar tudo. Todos estão a abandonar porque há uma ameaça de um novo ataque. Todos nós estamos com medo, porque os insurgentes, quando se retiraram, disseram que depois do Ide (festa muçulmana) vão voltar”, disse a nossa fonte, deixando claro que, apesar da forte presença das Forças de Defesa e Segurança, já não se sentem seguros no local. 

O jovem Abel Henriques Daúde, é outra vítima do terrorismo que tenta deixar o local. Conta que saiu de casa no dia 24 de Março e foi ficar na aldeia de reassentamento de Quitunda, onde dormia nos bancos do salão de basquetebol.

 “Vivi uma vida estranha que nem eu esperava. Comíamos mandioca, como obter aquela comida era um problema. A nossa casa foi queimada e tudo o que tínhamos lá foi queimado.  Só foi hoje (12 de Abril) que conseguimos carro para nos levar para o aeródromo para apanhar avioneta para Pemba e vamos para casa de um familiar. Lá tem militares mas as pessoas saíram porque não é seguro, preferem ir a Pemba”, conta o jovem.

“Quando chegaram os insurgentes, estávamos em casa, o meu pai estava a lavar e eu a almoçar. Eram volta das 14 horas e, de repente, comecei a ver um movimento estranho lá fora. Vi pessoas a correrem com bagagens de um lado para o outro, tentei perguntar o que se passava e me disseram que já entraram. Voltei, tapei aquela comida e procurei me organizar e quando queria fechar a porta estava a passar Mahindra lá fora e saímos sem levar nada”, lembrou.

 

Há oportunismo e pilhagem do pouco que resta do comércio

Depois das FDS recuperarem Palma, algumas pessoas que haviam se refugiado nas redondezas, voltaram à vila e assaltaram barracas e quiosques locais em busca do que comer. Na verdade, segundo uma fonte no local, apenas encontraram aquilo que escapou ao fogo e gula dos insurgentes.

Questionamos se os militares não teriam estado também entre os saqueadores e o nosso entrevistado respondeu de uma forma enigmática: “Eu aí tenho medo de falar, porque já parece eu estou a… outro dia vi um vizinho com muitas coisas, perguntei-lhe onde é que as apanhou e ele disse que aproveitou logo depois que um grupo de militares saqueou barracas. Estão a perceber, nem? … mas desculpa”, contou a fonte, um trabalhador da empresa SS Construções, desesperado por ter perdido emprego.

Refira-se que, após deixarem Palma, segundo conta ao Evidências, o agente da polícia,  Aliasse Sumali, os insurgentes foram vistos em Olumbe, onde não atacaram a ninguém, apenas iam “buscar” sal, provavelmente para abastecerem algumas das suas bases. Entretanto, a sua presença criou uma grande agitação no seio da população.

“O Governo está aqui em Palma com cada uma das famílias” – Ana Coanae

Neste momento, há centenas de pessoas que continuam na entrada do acampamento da Total, onde aguardam por carros para chegarem ao aeródromo para seguirem viagem para Pemba. O Evidências apurou que, antes de entrarem ao acampamento, as pessoas passam por uma rigorosa triagem, tendo em conta o risco de os insurgentes se infiltrarem entre os deslocados.

Esta segunda-feira, uma brigada do Governo esteve em Palma, onde confortou as vítimas e destacou o inquestionável trabalho das Forças de Defesa e Segurança, com vista a repor a tranquilidade na região.

“Uma mensagem de condolências para as famílias que perderam os seus ente queridos e dizer que o Governo de Moçambique está aqui em Palma com cada uma das famílias. Vamos continuar a apoiar Palma, apoiar as famílias para que retornem. Encontramos uma imagem de destruição das infra-estruturas públicas e privadas, naturalmente um cenário desolador que mostra claramente que estamos diante de um inimigo desalmado”, disse a ministra da Administração Estatal e Função Pública e membro da task force, nomeada recentemente pelo Presidente da República para assistência à região.

“As FDS estão presentes, fizeram de tudo para que Palma voltasse à tranquilidade. Encontramos também este cenário de regresso à normalidade. Sinais de bravura das nossas forças de defesa e segurança, encontramos famílias que já estão nas suas casas e as outras a retornarem. Conversamos mesmo em Pemba com alguns acolhidos no centro transitório de Pemba, quisemos saber qual seria a sua vontade, quais as condições que tinham e disseram que estavam a ter assistência alimentar e foram criadas condições sanitárias”, assegurou Comoana.

Na ocasião, assegurou que o Governo está a avançar com um plano de acção específico para Palma, que contempla acções imediatas viradas mais para a assistência humanitária, com destaque para alimentação, abrigo e condições sanitárias básicas, entre outras.

“O plano contempla também acções que tem a ver com o desenvolvimento, viradas para o apoio à área da agricultura, à área pesqueira e outras de natureza financeira, incluindo actividades específicas para jovens. Este plano é integrado na criação de ADIN, que vai servir para orientar toda a intervenção para que a vida em Palma paulatinamente volte ao normal. É um exercício muito grande, inclui a mobilização de recursos quer do ponto de vista humano, quer do ponto de vista económico, mas estamos a contemplar todos estes elementos incluindo a reconstrução. Estamos a equacionar tudo. Actualmente, as FDS são o pilar muito importante e estão a fazer a sua parte, mas só se justifica a sua presença quando nós, como população, equacionarmos a nossa presença. Não faria sentido reerguer as infra-estruturas Públicas ou Privadas se não haver este sinal de que a população quer retornar a Palma. Todos de mãos dadas temos que trabalhar no sentido de retornar a Palma”, conclui Comoana, num discurso realístico e ponderado.