Bilhética Electrónica a passos galopantes de entrar no rol dos projectos falhados

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Em Fevereiro do ano em curso, a Agência Metropolitana de Transporte de Maputo (AMM) deu início a implementação do sistema de Bilhética Electrónica na área do grande Maputo, mas, volvidos dois meses, vários têm sido os relatos de mau funcionamento do mecanismo, situação que inquieta os utentes e os operadores dos transportes filiados às cooperativas que, há dias chegaram a paralisar actividades, reivindicando a retirada dos aparelhos dos autocarros, por conta dos embaraços a que estão sujeitos desde a entrada em funcionamento dos mesmos.

Duarte Sitoe

Em Moçambique, muitos são os projectos que foram implementados para o bem da população, mas os mesmos foram “sol de pouca dura”. Dos projectos falhados, os do ministério da Agricultura, durante vários governos sempre foram os campeões. Actualmente, há uma iniciativa do Ministério dos Transportes e Comunicações, através da Agência Metropolitana de Transporte de Maputo. Trata-se do projecto da Bilhética Electrónica, que, ao que tudo indica, está gradualmente a entrar no rol dos projectos fracassados.

O sistema de Bilhética electrónica, desenhado para os transportes públicos de passageiros, consiste no pagamento do valor das passagens de forma electrónica, utilizando o cartão inteligente FAMBA. Mas o que parecia vir para melhorar o funcionamento do sector, tem inquietado sobremaneira os utentes.

A recorrente falta de sistema nos aparelhos montados nos autocarros, os recorrentes problemas na validação dos pagamentos e actuação dos cobradores deixa o público com nervos à flor da pele.

Na fase piloto do projecto, o sistema foi implementado no corredor seis da Katembe, ligando Anjo Voador a Katembe/Ponte Cais/Ka Elisa/ Incassane/ Chamissava/Inguide Bela Vista e Ponta do Ouro, tendo mais tarde se expandido para as rotas da cidade e província de Maputo.

Nos primeiros dias, a Agência Metropolitana de Maputo declarou que este processo traz inúmeras vantagens para todas as partes, no que respeita ao controlo de gastos e trocos pelos passageiros e para os operadores. Contudo, os utentes revelam que ainda não viram vantagens desde que o sistema em alusão foi instalado.

Carla Zandamela, de 38 anos de idade e residente no bairro da Costa do Sol, confessou ao Evidências que olhava para a Bilhética Electrónica como solução para o encurtamento de rotas nos transportes públicos de passageiros, todavia a iniciativa da Agência Metropolitana de Maputo pariu decepção.

“É inadmissível o que está acontecer. Mandaram-nos fazer cartões, alegando que a partir de Abril quem quisesse viajar de autocarro tinha de ter cartão. Respondemos ao chamado, fizemos os referidos cartões, mas hoje são problemas atrás de problemas. Essas máquinas funcionam quando querem e isso acaba sendo dispendioso para o bolso do cidadão pacato que foi depositar o seu mísero dinheiro a confiar nos autocarros. Esse projecto não está a ser eficaz, é melhor voltarmos para o antigo. Prefiro pagar com as minhas moedas”, disse Carla Zandamela.

Cobradores podem estar a sabotar as máquinas

Por outro lado, Zandamela aponta o dedo aos motoristas e cobradores, uma vez que “com a implementação deste serviço eles sairão sem gorjetas e só podem esperar pelo final do mês, por isso, andam a sabotar os aparelhos”.

Quem promete abandonar o cartão, pelo menos enquanto não se mostrar funcional e eficaz, é Matias Cossa, residente no bairro de Tchumene, arredores do Município da Matola, que chega a apontar o que considera falta de seriedade põe parte dos gestores do projecto.

“Se isto continuar assim terei que abandonar. A implementação de novas tecnologias nos serviços públicos deve sempre trazer melhoria para os utentes, mas esse não é o caso do projecto do Ministério dos Transportes e Comunicações, que através da Agência Metropolitana de Maputo introduziu o cartão Famba”, disse Cossa, para depois observar que a revolução ensaiada pelo Governo ainda não trouxe resultados positivos.

“A mudança sempre será bem-vinda, mas deve trazer melhorias. O cartão Famba em vez de ajudar só veio complicar as nossas vidas. São coisas do nosso país. Não fizeram nenhum trabalho de pesquisa ou de auscultação para se inteirar de que o sistema seria eficaz para o nosso sistema de transporte. Este sistema está a ser um autêntico fiasco. Tenho o cartão há mais de dois meses, mas não passam cinco vezes que usei para viajar. Está sempre fora de serviço e ninguém faz nada para repor”, reclamou.

Comportamento dos cobradores inquieta utentes

Quem se viu lesado com a entrada em vigor da Bilhética Electrónica são os motoristas e cobradores. Na opinião de alguns utentes, eles vandalizam o aparelho para forçar um abandono deste sistema de forma a continuarem a desviar parte do dinheiro da receita.

Pascoal Simbine, de 51 anos de idade e funcionário de uma empresa de segurança privada, usa o transporte colectivo de passageiro por ser mais vantajoso em relação ao semi-colectivo, mas nos últimos dias viu as coisas mudarem drasticamente.

“O transporte colectivo (público ou privado) de passageiros sempre teve os seus problemas, mas mesmo com isso conseguíamos ir trabalhar e voltar à casa. Agora tudo mudou com a implementação do cartão Famba. Mandaram-nos depositar dinheiro, mas sempre não há sistema e os cobradores são confusos. Eles não assumem a culpa pelos aparelhos que não funcionam, interessa a eles o dinheiro apenas. Já presenciei casos de passageiros que não tinham o valor do transporte, e que se viram, por isso, obrigados a ir até ao terminal como castigo”, lamentou.

A mesma indignação sente Judite Anselmo, de 42 anos de idade, que confessa que recebeu com agrado a ideia de se depositar o dinheiro do transporte, uma vez que não conseguia geri-lo por trinta dias, mas tudo foi debalde, pois o projecto da Agência Metropolitana de Maputo defraudou as suas expectativas.

“Há sempre guerra entre os passageiros e cobradores. Os utentes apoiam-se no facto dos aparelhos montados nos machibombos estarem fora de serviço para não pagar a tarifa. Há quem faz porque depositou o valor que usa mensalmente e outros aproveitam o facto para estarem isentos do pagamento”, revelou.

A fonte lamenta que a propaganda governamental tenha propalado que só teria direito de entrar no autocarro quem tivesse o cartão, evitando, assim, o manuseio do “dinheiro vivo” nos autocarros para, mais tarde fracassar diametralmente.

“Os cobradores são confusos e não estão para diálogo, o que para eles interessa é o dinheiro, mas esquecem que há quem disse que seria obrigatório apanhar transporte mediante a apresentação do cartão Famba. O Ministério dos Transportes e Comunicações devia assumir que este projecto é um fracasso tal com outros que se reduziram a nada. É frustrante o que está acontecer nos transportes públicos”.

Transportadores paralisam actividades em protesto contra o cartão FAMBA

No dia 03 do mês em curso, os transportadores colectivos e semi-colectivos decidiram paralisar as suas actividades como forma de protesto para o reajuste da actual tarifa, mas também para reivindicar a autorização para o aumento do número de passageiros a carregar por viagem.

Se, por um lado, os semi-colectivos querem ver a tarifa agravada, uma vez que defendem que acumulam prejuízos avultados, devido às medidas que impõem um número limite de passageiros por fila, por outro, os colectivos estão contra a introdução da Bilhética Electrónica, vulgo Famba, por estar a comprometer as suas receitas.

Alex Joel, cobrador da rota Baixa/Primeiro de Maio, disse ao Evidências que os donos dos autocarros estão contra a introdução da Bilhética Electrónica por considerarem que não tem vantagens.

“Não é por não gostar de coisas novas. Esse sistema já nos provou que não é eficiente. No carro em que trabalho os aparelhos estão sempre fora do serviço e isso cria-nos problemas com os passageiros que foram aliciados a aderir ao serviço. Os nossos patrões querem a receita em numerário e é o que está a acontecer no presente”.

Para evitar mais uma peregrinação da população para as suas zonas de origem, a vice – ministra dos Transportes e Comunicações, Manuela Rebelo viu-se obrigada a abandonar o conforto do seu gabinete para negociar com os transportadores, tendo pedido aos mesmos para que retomassem o trabalho.

“Nós temos de sentar com as vossas chefias e com o município para encontrarmos uma solução. São boas propostas que vamos levar connosco, porque não podemos ouvir as vossas preocupações, sem termos também algumas sugestões”, destacou a dirigente.

Reconhecendo o crónico problema do sector dos transportes na capital moçambicana, Rebelo revelou que o Executivo tem “intenção de adquirir novos meios de transporte, mas julgo que o grande problema gira em torno da manutenção das viaturas. Se nós tivermos como repor todos os autocarros avariados, poderíamos resolver uma parte do problema. Os municípios de Maputo e Matola têm cerca de noventa autocarros avariados”.

O Evidências tentou sem sucesso ouvir a direcção da Agência Metropolitana de Maputo. Contactado várias vezes por telefone, o Gestor da Bilhética Electrónica, José Nhavotso, mostrou indisponibilidade para agendar uma entrevista.