Ensaia-se debate à cesariana sobre a sucessão na Frelimo

DESTAQUE POLÍTICA

Arranca este sábado (22) e termina no próximo domingo (23), na cidade da Matola, a primeira sessão do Comité Central do partido Frelimo no presente ciclo de governação, órgão deliberativo mais importante no período entre congressos, onde espera-se, dentre vários temas, a abertura, à cesariana, do debate em torno da sucessão de Filipe Nyusi.

Com o partido aparentemente fragmentado em alas, a Comissão Política da Frelimo agendou finalmente a sessão ordinária do Comité Central para os dias 22 e 23 de Maio corrente, depois de ter sido adiada por duas vezes consecutivas devido a pandemia da Covid-19.

Na verdade, este será o primeiro conclave desde a reeleição de Filipe Nyusi, que chega à reunião mais importante do partido entre Congressos com vários dossiers sensíveis em cima da mesa, mas também assombrado pelos fantasmas da sucessão e aparentemente isolado da ala sulista, com certo apoio do Centro.

No entanto, em termos oficiais, a Comissão Política não agendou o tão esperado debate em torno da sucessão, quando faltam escassos três anos para o fim do presente mandato.

Entre o rol das matérias agendadas consta a análise da situação de segurança no norte e centro do país, o programa do partido para o ano 2021 e o balanço das eleições gerais, legislativas e das assembleias provinciais.

Mesmo assim já há movimentos tendentes a forçar o debate, ainda que à cesariana, em torno da sucessão, numa altura em que o actual Presidente do partido, Filipe Nyusi está politicamente fragilizado por causa da incapacidade em lidar com a situação do terrorismo em Cabo Delgado e dos ataques na zona Centro do país, agarrando-se tão-somente em projectos de desenvolvimento sobretudo no sector da agricultura.

Ainda no que ao terrorismo diz respeito, Filipe Nyusi poderá ser confrontado com questionamentos sobre as actuais opções adoptadas para controlar a insurgência, num contexto em que investidores viram-se forçados a abandonar as operações no terreno devido a insegurança.

A discussão sobre a forma como estão a ser geridos expedientes das sempre presentes dívidas ocultas poderá reacender durante o grande conclave que acontece cinco meses depois de altos executivos da Privinvest terem revelado que, afinal, para além do dinheiro que entrou directamente nas contas do partido, Filipe Nyusi recebeu na sua conta pessoal pouco mais de 1.5 milhões de dólares para apoio a sua campanha eleitoral, para além de outros presentes.

Como se tal não bastasse, isso acontece num período em que, se, por um lado, é indisfarçável o mau ambiente com o seu antecessor, Armando Guebuza, por outro é notável um certo distanciamento de Alberto Chissano, que até o fim do primeiro mandato era tido como um dos dirigentes mais próximos, sendo visto em vários momentos lado a lado com Nyusi, algo que não acontece no presente mandato.

Ciente deste quadro, a ala Nyusi preparou uma estratégia para expurgar os membros que representam potencial ameaça e evitar que assuntos fora da agenda sejam chamados à colação. Como tal, a sessão não terá a participação de convidados, nem mesmo antigos membros da Comissão Política e do secretariado, o que é visto em outros corredores como uma forma de limitar a base de apoio de opositores internos. 

Ademais, nas últimas semanas, as brigadas centrais despachadas para as províncias tinham uma missão clara de apaziguar os ânimos dentro do partido para evitar “barulho” no CC. O mesmo repto dominou as reuniões da OJM, OMM e ACLLN que tiveram lugar ao longo desta semana.