Filipe Nyusi leva o troféu de campeão de restrições de liberdades

EVIDENCIANDO OPINIÃO

Antes mesmo de este território ser fundado como nação, no tempo em que a brutalidade colonial imperava, os filhos desta terra gozavam de certos direitos, dentre os quais o de manifestarem livremente as suas angústias, dissabores, descontentamentos e de saírem à rua para exigir seus direitos.

Os manuais de história não deixam mentir. Em pleno auge da brutalidade humana, os filhos desta terra tiveram liberdade suficiente para se manifestar. Entre as memórias, buscamos as greves dos ferroviários em Lourenço Marques, em 1917 e 1920, as dos estivadores em Agosto de 1933, também conhecida como greve dos Quinhentos, só para ilustrar alguns exemplos de uma história de luta.

Como se pode ver, embora o regime fosse bastante repreensivo, era possível, de forma organizada, grupos de moçambicanos, unidos por uma causa, manifestarem o seu desagrado em relação ao que não ia bem, algo que nos dias que correm, apesar dos 46 anos de independência e de se ter fundado um Estado que se diz democrático, tornou-se uma raridade.

O nível de repressão das liberdades tornou-se abismal, sobretudo nos últimos 10 anos, período que coincide com os dois últimos anos de governação de Armando Guebuza, marcados pela ascensão do G40, e os dois mandatos de Filipe Nyusi, que poderá sair do poder em 2024 como detentor do recorde de líder da repreensão de liberdades. Foi neste período em que se regrediu ao nível dos tempos em que o consenso era buscado ao sabor das chibatadas e açoitamento, ou mesmo com o poder da pólvora. Aliás, neste período, o país saiu de uma democracia falhada para um país autoritário.

Desde que assumiu o poder que o regime da Frelimo intensificou o nível de policiamento do pensamento e a intolerância com quem pensa de forma contrária atingiu níveis assustadores, fazendo emergir os chamados esquadrões da morte, cuja primeira vítima, Gilles Cistac, caiu antes mesmo de Filipe Nyusi completar 100 dias no poder.

A partir daí, seguiram-se várias outras vítimas dos esquadrões da morte que, quando não matam, fazem questão de deixar o alvo coxo ou mesmo transformar o seu corpo numa quadra de treino de basebol. Em tão pouco tempo, os esquadrões da morte, que, afinal fazem parte da elite da Polícia da República de Moçambique, concretamente do Grupo de Operações Especiais, como ficou provado após a morte de Anastácio Matavele, fizeram várias vítimas, entre políticos, académicos, activistas sociais, comentadores e jornalistas que alguma vez ousaram pensar diferente, num país onde a ilusão de democracia e liberdade nos é vendida todos os dias em discursos políticos.

As instituições do Estado de defesa e segurança fazem questão de mostrar que os ideais da democracia, Estado de direito e respeito por liberdades cabem só nos papéis e na Constituição. A violência e a repreensão policiais são de tal forma alarmantes que basta apenas se convocar uma pequena manifestação, para, no dia seguinte, as ruas das principais cidades estarem inundadas de blindados e agentes humanos e animais.

Sim, cães humanos e animais prontos para devorar quem quer que seja. Em oito anos no poder, contam-se mais de meia dezena de manifestações e passeatas pacíficas que foram violentamente reprimidas. A mais recente é a de um grupo de estudantes universitários que foram cercados e seviciados de várias formas, quando tentavam exercer um direito que é constitucionalmente assistido.

Mesmo no regime de Armando Guebuza, conhecido pela sua rigidez, as liberdades de manifestação e expressão nunca foram tão postas em causa assim. Há memória de várias manifestações, algumas das quais duraram mais de um dia, que originaram mudanças profundas no rumo do país. Quem não se lembra da greve de 1 e 2 de Setembro de 2010, quando os moçambicanos, quais vândalos e marginais, saíram às ruas e colocaram um basta à insensibilidade do Governo de então. Foi no mesmo regime que os moçambicanos voltaram a inundar as ruas das principais cidades do país para dizerem um NÃO vigoroso à aprovação de regalias absurdas para os deputados e governantes, enquanto o povo come capim para sobreviver, forçando Guebuza a devolver o projecto de lei de mordomias dos deputados à casa do povo para alguns mínimos ajustes.

Hoje, esse tipo de manifestações é debelado ainda na esquina do quarteirão, onde o dia nasce enquanto estão estacionadas bactérias militares que tanto dão falta em Cabo Delgado no combate aos insurgentes, criados e alimentados pelas desigualdades que as políticas do Governo criaram. Os jovens que hoje combatem lado a lado com os insurgentes são aqueles que não lhes foi dada nenhuma outra alternativa, outros podem ser pais de famílias recrutadas em distritos como Muecate, que vencidos pela impotência de não poderem dar mais que capim aos seus filhos, aceitaram se aliciar por malfeitores para destruir este país.

Enquanto o país se afunda e os rankings internacionais confirmam o nosso lugar asqueroso no concerto das nações, os meninos bonitos e miúdos de recados fazem questão de escovar ferozmente o nosso Presidente da República, como que a mostrar-lhe o caminho para o mato, para o qual todos nós merecemos ser arrastados.

Na semana passada, enquanto as alas da Frelimo estavam entretidas em reuniões clandestinas, paralelas às reuniões dos Comités Provinciais de preparação da magna reunião do Comité Central, onde estão a ser maquinadas estratégias da sucessão de Filipe Nyusi, a partir do conforto de um improdutivo elefante branco lá para as bandas de Maluana, onde foi acomodado, um conhecido cata-vento urdiu aquilo que pode ser o sentimento de um certo grupo que tanto se dedicou a escovar Filipe Nyusi e que teme perder relevância após a sua saída.

Sugere aquele respeitado físico nuclear, cuja obra mais se evidencia pela boca do que com experimentos científicos relevantes, que a lei é dinâmica e dá carta-branca para Filipe Nyusi, querendo fazer umas mexidas mecânicas para candidatar-se a um terceiro mandato como Presidente da República.

Na verdade, não lhe estamos a levar a sério, até porque há muito que este perdera algum pingo de pudor. Queremos, sim, denunciar um ensaio de uma agenda e uma estratégia de distracção que se quer impor aos moçambicanos, para nos desviar do real foco do debate que se quer num país que é empurrado para o mato, dia pós dia.