Mangrasse reestrutura o Estado Maior General com punhos de ferro e atira: “A insegurança começa em Maputo”

DESTAQUE POLÍTICA
  • Trocou toda guarda pessoal por fuzileiros e anulou algumas acções de antecessores
  • Mangrasse assume fuga de informação dentro das chefias militares
  • Conta com apoio presidencial, mas excessos e desmandos consolidam descontentamento no exército

Os comentários que retratam as primeiras acções do fuzileiro Joaquim Mangrasse, actual chefe do Estado Maior General, que substituiu Eugénio Mussa, falecido em “circunstâncias estranhas” antes de executar o poder, denunciam um desgaste sem precedentes no seio do exército. É que, claramente, com a missão de procura desesperada pelos “chefes” que vazam informações a terroristas, em Cabo Delgado, Mangrasse pode estar a cometer desmandos, que vão desde demissões em bloco nos ramos de exército à anulação de acções dos seus antecessores, como é o caso da recusa de um pelotão de 94 militares seleccionados e treinados para a patente de Capitão. Ele está a mandar dezenas de coronéis à reserva, numa lista que pode exceder nos próximos dias uma centena em todos os ramos das Forças Armadas, acções que são supostamente apoiadas pelo Comandante-Chefe das Forças Armadas de Moçambique, Filipe Nyusi, que supostamente deu carta branca para “desmandos”, à moda Xerife.

Joaquim Mangrasse que chegou ao cargo de Chefe de Estado Maior para assumir uma vacatura deixada por Eugénio Mussa, um homem que teve uma morte estranha apenas 19 dias depois de ter sido empossado, parece ter uma missão clara no exército, que, apesar de ser vista por alguns como oportuna, está a gerar um grande descontentamento.

Depois que o Comandante-Chefe das Forças Armadas, Filipe Nyusi, fez mexidas de oficiais superiores dentro dos três ramos do exército, buscando dar uma nova resposta aos recrudescentes ataques em Cabo Delgado, agora é a vez de o primeiro almirante, Joaquim Mangrasse, prosseguir com “punhos de ferro”, com mexidas de coronéis e dos chefes de repartições.

O Evidências tem estado a acompanhar as mexidas em todos os ramos da Defesa, que, segundo fontes in-side, são motivadas pela desconfiança de traição que existe no seio das Forças de Defesa e Segurança, em que acredita-se que algumas chefias militares podem estar a fornecer informações estratégicas ao inimigo.

Há quem acredita que a morte subida de Eugénio Mussa, que havia prometido quebrar a coluna dorsal do inimigo em 100 dias, terá influenciado Mangrasse a antecipar-se a possíveis estratégias de sobrevivência, num quartel em que a fuga de informação já indiciou existência de inimigos internos, que colaboram com grupos terroristas que semeiam luto no norte de Moçambique.

Para não se colocar a si próprio em perigo e acabar engolido, usou do poder e aval que o Comandante em Chefe lhe conferiu para fazer mexidas. No entanto, a forma dura como impõe algumas decisões está a criar um exército de desmotivados, no meio de desafios que exigem do exército pronta disponibilidade para travar a ameaça que atenta contra a soberania do Estado moçambicano.

Na reunião que antecipou as mexidas em curso, nos três ramos da defesa, nomeadamente Força Aérea, Marinha e Exército, Mangrasse ordenou maior presença de militares nas zonas de conflito, onde é preciso um trabalho redobrado de recolha de dados, ao mesmo tempo que assumia que a existência de traidores internos criava insegurança.

Mangrasse despacha oficiais do Estado Maior General para Cabo Delgado

Ele é citado a afirmar que “vocês estão cheios aqui, fingem que estão a jogar dados quando sabem o que está acontecer em Cabo Delgado. A insegurança começa aqui em Maputo”. Mangrasse defende menos concentração de oficiais no Estado Maior General e maior presença em zonas de Conflito.

O discurso que antecipava as mexidas, anunciava o princípio de múrmuros no seio das Forças Armadas no geral, com isolamento de coronéis com décadas de serviço, cheios de experiência no campo militar, mas com menos percurso académico. Os mesmos viram suas vacaturas serem preenchidas por jovens sem experiência, mas com domínio de caneta.

Entre os exonerados, estão os chefes das repartições das finanças e logística, enquanto noutros casos, como o da polícia militar foram todos exonerados, desde o comandante, o adjunto até o financeiro. Na marinha também houve a mesma limpeza. Aliás, aqui há quem interpreta que todos com quem não se simpatizou foram exonerados, sugerindo uma medida vingativa, do que necessariamente profissional, afinal é de lá onde ele vem.

À margem das várias interpretações, há quem vai para casa pela idade e por ter excedido o tempo do serviço.Os exonerados foram mandados esperar novas ordens em casa. No entanto, segundo apurou o Evidências, tais ordens serão de ficar efectivamente em casa. Um dado curioso, é que as repartições de logística nos três ramos passam a ser controladas por mulheres, indiciando desconfiança de que pode ter havido indisciplina na gestão do dinheiro da guerra.

Mangrasse desconhece perto 100 militares treinados na era Lázaro Henriques

Em meados do ano passado 2020, o então Chefe do Estado – Maior General, o general do exército, Lázaro Henriques mandou um total de 94 oficiais do exército ao curso de formação para serem promovidos à patente de Capitão. Deste total de militares submetidos a este curso intensivo por um período de nove meses, longe de tudo e de todos, dois perderam a vida. Um não aguentou a intensidade dos treinos, enquanto outro morreu por negligência da corporação que fez maus cálculos de um morteiro, que viria a causar explosão onde não foi previsto, matando um e ferindo outro membro que ficou com rosto desfigurado.

Vencidos os incidentes dos treinos, retornaram ao Estado Maior General, já chefiado por Mangrasse que, de forma arrogante afirmou que desconhecia a ordem desse treinamento, rasgando desta forma a ordem do seu antecessor.

O então chefe do Estado Maior General, Lázaro Henriques foi substituído pelo Mussa, que veio a perder a vida em circunstâncias estranhas. “Tudo isso aconteceu quando estávamos nessa formação. E quando voltamos da formação, que durou nove meses, Mangrasse diz que não nos conhece. E desse grupo apenas ficaram a capitão”, afirma uma fonte, que sentiu de perto o sacrifício recusado por Mangrasse.

“E a questão que se coloca é por quê levaram perto de 100 pessoas quando só queriam 21 pessoas para levar homens para zonas de conflito. Tudo ficou parado. E agora vão mandar outros militares para a mesma formação, se existe espaço para a patente de Capitão porque não promover o grupo formado”, questiona um militar, que aclara que este treinamento faz parte de um programa regular que já existia antes.

Os 21 seleccionados foram promovidos para levar homens (companhias) para Cabo Delgado ou zona Centro, sugerindo um rompimento de algumas medidas de Lázaro Henriques.

Fuzileiros velam pela segurança da Mangrasse

Ainda no rol das acções em curso, Mangrasse, primeiro fuzileiro a comandar todos os ramos de Defesa, quebrando a narrativa de que o posto mais alto de um almirante é comandar as forças de Marinha de Guerra, dispensou a guarda pessoal indicada para garantir sua segurança e para o efeito foi buscar três fuzileiros.

Enquanto isolava alguns “velhos”, chamava para junto de si jovens com caneta, porém sem experiência e colocou toda logística sob controlo de mulheres, rompendo com a tradição das Forças de Defesa e Segurança, o que agudizou o descontentamento de alguns velhos, que sempre controlaram a logística e estabeleceram negócios, sobretudo em tempos de guerra.

Joaquim Mangrasse, um homem de Niassa, foi comandante no ramo da marinha e em 2015 passou a chefiar a Casa Militar. Foi indicado para o Estado Maior General, em substituição de Eugénio Mussa, falecido três semanas depois de ser indicado para o cargo, vítima de doença como terá sido anunciado, quando no seio militar especula-se um assassinato depois que se inteirou e descobriu o suposto “segredo de Cabo Delgado”. Diferentemente de Mangrasse, Mussa não tinha tido a oportunidade de executar nada, muito menos escolher a sua guarda.

No acto de empossamento, Nyusi deu a Mangrasse carta branca para este conferir maior dinâmica às forças de Defesa e Segurança (FDS), no contexto dos desafios que o país enfrenta nos domínios da defesa e segurança, nomeadamente o terrorismo em Cabo Delgado e os focos de guerrilha no centro do País.

Mangrasse fez “curso de promoção a oficial general” no Instituto de estudos Superiores Militares em Lisboa, Portugal.  Na tese sobre “Segurança Cooperativa no Índico Ocidental: O papel da Marinha de Guerra de Moçambique”, expôs as fragilidades da costa moçambicana, identificando suas ameaças e impactos para região.

Foi em 2012. Na tese de 63 páginas, destacou o quão a pirataria, pesca ilegal, o tráfego de pessoas, narcóticos e outras ameaças marítimas têm causado consequências graves no desenvolvimento económico da região, defendendo “uma abordagem cooperativa, por forma a contribuir para a segurança marítima”.