Quando uns estavam a ir ele estava a voltar: Gerson Massango o menino que trocou o futebol português pelo Moçambola

DESPORTO

Depois de muitas épocas a jogar em Portugal, em 2013, Gerson Estevão Massango muda-se, de malas e bagagens, para Moçambique. Chegou como um mero desconhecido, mas em pouco tempo tornou-se num dos melhores centrais a actuar em Moçambique. Dono de um excelente jogo aéreo e um autêntico terror para os avançados nos duelos individuais, Gerson, actual jogador do Ferroviário de Nampula fala do seu percurso na modalidade das massas.

Texto: Duarte Sitoe

São raros os casos em que um clube moçambicano contrata um jogador que actua no futebol do velho continente, mas o Costa do Sol teve a ousadia de ir buscar um moçambicano que actuava no terceiro escalão do futebol português.

Ao Evidências, Gerson, conhecido nos meandros desportivos por Barbudo, disse que sonhava em um dia vestir a camisola dos Mambas e que nunca teve a intenção de trocar o futebol luso pelo moçambicano.

Chego ao Costa do Sol através do mister Nelson, que procurava, na altura, um central. Tinha uns olheiros em Portugal que eram amigos dele e foram ver uns jogos meus e gostaram do que viram. Sempre tive a intenção de fazer parte da selecção nacional e poder defender as cores do meu país mesmo estando a jogar em Portugal e sendo capitão de equipa. Foram muitas as épocas em que fiz parte do plantel, mas não era suficiente para ter visibilidade, uma vez que estava na terceira divisão nacional. Hoje em dia as coisas mudaram e há maior visibilidade”.

Olhando para o cenário actual, o defesa que trocou o Desportivo de Maputo pelo Ferroviário de Nampula observa que, em 2013, o futebol moçambicano não tinha os problemas que enfrenta no presente.

“Cada vez tem sido difícil ser uma liga estável, então a situação da Covid-19 veio piorar a situação. Se não melhorarmos, sinto pena dos mais novos que estão a aparecer e querem dar o salto para outros campeonatos de maior expressão a nível mundial”.

O futebol é uma modalidade universal, contudo, há ligeira diferença no que respeita aos campeonatos disputados na “mãe” África e na Europa. Quando ingressou no Costa do Sol, Gerson deparou-se com uma realidade diferente da que estava acostumado, tendo sentido algumas dificuldades no que respeita ao clima.

“O futebol europeu está a um passo largo da nossa realidade. Até em pormenores. Como a organização de um calendário futebolístico e, claro, sem entrar na rotina administrativa ou outras coisas similares. Não foi fácil adaptar-me ao clima. Acho que até hoje não estou habituado ao calor. Jogar num clima de 30 graus não é o mesmo que jogar numa temperatura de 20 graus. Os campos não são iguais a um campo da liga, Songo, o antigo sintético de Quelimane, etc. A maneira como se vive o futebol é diferente”.

No futebol moçambicano, o Barbudo chegou, viu e brilhou. Tendo feito ao lado de Dário Khan uma autêntica muralha na equipa orientada por Nelson Santos. Massango considera que a fidelidade aos seus princípios contribuiu para o sucesso imediato na pérola do Índico.

“Acreditar que mesmo nas dificuldades podemos ultrapassar cada obstáculo com trabalho é um dos princípios da vida. Uma coisa boa naquele ano é que apanhei um dos melhores grupos de trabalho. Os meus colegas eram excelentes. Dário Kahn transmitiu-me muita confiança, recebeu-me de peito aberto e era um senhor em campo, muito agressivo, mas sempre com consciência intacta”, elogiou.

A estreia com a camisola dos Mambas

Naquela que foi a primeira época nos relvados moçambicanos, Gerson esteve perto de se sagrar campeão nacional, mas mesmo com as exibições vistosas, o Costa do Sol terminou o Moçambola na segunda posição.

“Estivemos próximos do título. Acho que faltou sermos mais competentes em alguns jogos. Se não conseguimos ser campeões é porque falhamos em algum momento. Só é campeão quem consegue ultrapassar todos os obstáculos e nós nesse capítulo tivemos momentos que fizemos vénia em vez de nos impormos como equipa que estava à procura de sucesso no fim do campeonato”.

As exibições do Barbudo não passavam despercebidas. João Chissano, que na altura desempenhava a função de seleccionador nacional ficou encantado com as exibições de Gerson e abriu as portas para que o futebolista pudesse cumprir o sonho de vestir a camisola dos Mambas.

“A equipa do Costa do Sol estava a fazer um grande trabalho. Fizemos um bom campeonato e praticávamos um futebol agradável e isso provavelmente chamou a tenção dos seleccionadores. Penso que me exibia em grande plano e por via disso fui chamado para cumprir um dos meus sonhos, que era defender a bandeira do meu país. Na altura foi tudo muito rápido e foi recorrente naquele ano”.

Entretanto, a aventura no combinado nacional durou pouco tempo. Depois da saída de João Chissano, Gerson deixou de ser opção. Questionei-me onde estaria a falhar. O que podia melhorar e trabalhei para voltar a ser opção. Mas não me debruço sobre essa situação. Nem tudo na vida é como desejamos, existem momentos altos e baixos. Quando estamos num bom momento temos que saber tirar partido e trabalhar para manter no mesmo”, remata.

Gerson na Liga Desportiva de Maputo

Diz o adágio popular que “as pessoas passam e as instituições ficam” e foi o que aconteceu com Gerson Estevão Massango. Depois de terminar o contrato que o ligava ao Costa do Sol, o Barbudo seguiu para a Liga Desportiva de Maputo, uma vez que não recebeu convite para permanecer no ninho do canário.

“Passei três anos bastante bons ao serviço do Costa do Sol. Fui duas vezes vice – campeão nacional, conquistei uma Taça de Moçambique e ainda ganhei provas a nível da Cidade de Maputo. Simplesmente o clube já tinha outras ideias para o futuro. Já não contavam com os meus serviços, mesmo depois de uma boa época. Os clubes ficam e os jogadores passam, esta foi sempre a minha mentalidade. Quando estou num clube serei a alma daquele clube, mas no momento em que o clube não quiser mais o meu serviço seremos amigos na mesma”.

Depois do Costa do Sol, seguiu-se a Liga Desportiva de Maputo e logo na primeira época, Gerson conseguiu ser vice-campeão, por sinal pela terceira vez desde que ingressou no futebol moçambicano, mas, como os atletas passam e os clubes ficam, depois de três épocas transferiu-se para o Desportivo de Maputo, tendo chegado a ser um dos pilares da equipa orientada por Rogério Mariani. No entanto, depois acabou recebendo convite para os locomotivas da capital do norte.

Actualmente com 33 anos de idade, Gerson não vislumbra o final da carreira, ainda quer desfrutar da modalidade das massas. “Penso que 33 anos não são uma idade para deixar de jogar, por isso, não diria que este é meu último ano. Quero jogar mais. Há quem diga que um jogador chega ao seu máximo quando chega à casa dos 30, uma vez que traz consigo uma bagagem rica, mas no presente a vida está a nos fazer tomar decisões que talvez nunca sonhamos, mas que sabíamos que um dia chegariam”.

“Foi doloroso ver um colega partir”

O futebol é uma modalidade feita de alegria e tristezas. Gerson já experimentou os dois momentos desde que iniciou a carreira. Guarda nostalgicamente todos os momentos, mas há um que o vai marcar para eternidade.

“Presenciei algo que não desejo a ninguém em campo. Ver um colega a partir em pleno jogo é uma das coisas que me ficará mesmo para sempre. É sempre positivo quando fazemos o que gostamos de fazer e jogar futebol é uma delas. Há coisas que não se trocam por qualquer preço, a alegria do balneário, as subidas de divisão, conquistas e, sobretudo, as amizades para toda vida”.

Desde que se iniciou no futebol teve despiques com muitos avançados, mas no panorama futebolístico nacional declara que Eva Nga, camaronês que fez do Moçambola trampolim para se transferir para o futebol sul-africano, é um jogador que desgasta um defesa.

“Tive a oportunidade de jogar com Isac como adversário e como colega, acho que é um jogador inteligente. Luís Miquissone, actualemente no Simba da Tanzania, é um jogador chato. O jogador que desgasta uma defesa é o Eva Nga. Não é moçambicano mas partilhou o nosso campeonato. É um jogador que fadiga qualquer defesa”, concluiu.

De referir que antes de chegar ao futebol moçambicano, em Portugal Gerson defendeu as cores do Frielas, Malveira, Charneca, Tourizense e Futebol Benfica, sendo que no último logrou o feito de ser campeão da terceira divisão nacional.