Roubo de telemóveis, bolsas, perucas e acessórios de viaturas: Polícia está a perder a guerra na Cidade de Maputo

SOCIEDADE
  • Assaltantes fazem-se passar por estudantes ou trabalhadores
  • Apesar de ter reforçado o efectivo policial, os agentes nunca estão presentes e nunca esclarecem os crimes que acontecem na capital do país

Depois das eleições de 2019, Eneias Comiche regressou à presidência do Conselho Municipal da Cidade de Maputo (CMCM) com a garantia de transformar a capital moçambicana numa cidade próspera, bela, limpa, segura e solidária. Entretanto, apesar dos esforços para mudar a imagem da cidade das acácias, a insegurança continua a inquietar os munícipes desta urbe. Os roubos de bens nas residências e na via pública estão a ganhar contornos alarmantes. Entre os bens mais procurados pelos “marginais” na via pública, que se aproveitam da aglomeração e agitação das pessoas que buscam o transporte ou mesmo que estejam a circular, constam telemóveis, bolsas, acessórios de viaturas e até “perucas” que se tornaram a verdadeira “paixão” do grosso modo das mulheres de todas idades. As autoridades policiais dizem estar a trabalhar, mas reconhecem que estão a perder a guerra diante dos meliantes, embora conheçam os bairros onde vivem e se escondem, bem como as praças onde mais actuam.

Texto: Duarte Sitoe e Paulo Tivane

De acordo com dados do informe da Procuradora-geral da República, apresentado este ano, em 2020 houve registo de 34224 crimes gerais contra a propriedade em todo o país, dentre os quais 5628 foram furtos simples, 15247 furtos qualificados, 6314 roubos simples e 2400 roubos qualificados. Grande parte desses incidentes foram reportados ao nível das cidades e Maputo está entre os pontos do país onde se registam mais casos.

Embora a calada da noite seja geralmente reconhecida como perigosa, sobretudo no interior dos bairros periféricos, nalguns pontos sobretudo no centro da cidade de Maputo é mais perigoso circular de dia, devido à acção de bandos de malfeitores que se dedicam ao furto de bens sob olhar impávido das autoridades.

As paragens, as avenidas mais movimentadas da baixa da cidade de Maputo, incluindo a praça dos trabalhadores, as ruas adjacentes ao mercado Estrela, a zona da praça 21 de Outubro, no Alto Maé, o bairro da Malanga, os mercados e terminais rodoviários de Xipamanine, Xiquelene e Zimpeto são considerados os pontos mais críticos onde os malfeitores actuam em plena luz do dia, furtando bens e chegando mesmo a abordar e ameaçar as vítimas, antes de tirarem os bens que acharem valiosos.

Telefones, bolsas, carteiras, pastas e até perucas tem sido os bens mais procurados pelos malfeitores para posteriormente abastecerem o mercado negro.

Regra geral, os bandos identificam as vítimas, seguem-nas milimetricamente disfarçados entre a multidão e na melhor oportunidade tiram o bem sorrateiramente, às vezes sem que estas se apercebam. Entretanto, os mais ousados chegam a abordar a vítima exigindo o bem sob ameaça de agressão. Tudo acontece muito rápido.

A hora da ponta, em que muitos estão cansados e estão desesperados para tomarem transporte de regresso a casa é o tempo mais propenso para o furto de bens, pois os malfeitores disfarçam-se entre os passageiros, fingindo ser angariadores de passageiros, vulgarmente conhecidos por “modjeiros”.

Os roubos acontecem quando o motorista e o cobrador vão admitindo as ligações e vão fazendo entrevistas, para seleccionar os passageiros de curtas viagens, aumentando mais o tempo de espera para quem não tem condições para ligações.

Perdi quase tudo numa fracção de segundos

Passava das 15 horas, Joana Chirindza aguardava pelo transporte, depois de mais jornada laboral. Mostrava um semblante carregado e cara de poucos amigos quando foi interpelada pela nossa equipa de reportagem. Na primeira tentativa, Chirindza não atendeu à nossa investida, uma vez que pensava que se tratava dos marginais que andam bem vestidos para subtraírem bens alheios.

Depois de uma breve apresentação, a fonte aceitou falar à nossa reportagem. Joana Chirindza contou ao Evidências que, por duas vezes, foi assaltada na cidade de Maputo, sendo que na primeira foi ameaçada com uma catana, antes de lhe tiraram a bolsa.

 “Quando me lembro de como aconteceu até vontade de chorar não me falta. Perdi quase tudo numa fracção de segundos. Como sou empregada doméstica, os meus patrões pagam-me em numerário e para o meu azar acabava de receber. Fui assaltada perante o olhar impávido dos cidadãos que estavam ao meu lado. Chorei como se de uma criança se tratasse e foi quando os assaltantes foram embora que me vieram assistir”, contou Chirindza, com uma voz rouca.

 A outra vez que sofreu assalto, conta, foi na paragem Laurentina, quando lutava para apanhar o autocarro para seguir para Nkhobe.

“Depois daquele dia, deixei de apanhar autocarro, na Guerra Popular, e passei para Laurentina. Éramos um grupo de três. Queríamos nos proteger em caso de tentativa de assalto. Desde que adoptamos a estrategia de andarmos em grupo, nenhum dos integrantes foi vítima de assalto com recurso a armas brancas (catanas e facas). Contudo, infelizmente, na minha nova paragem já me roubaram carteira e telemóvel, quando lutava para apanhar transporte”, acrescentou, para depois acrescentar que já presenciou casos em que pessoas foram arrancadas perucas e telefones dentro do carro em movimento, actos recorrentes na Baixa, Malanga e Junta.

Engane-se quem pensa que os assaltantes que semeiam terror nas principais artérias da cidade de Maputo só furtam bens de mulheres. Mário Machuza, de 42 anos de idade, quando, nas primeiras horas do dia 24 Abril, tranquilamente, se fazia para mais uma jornada laboral, foi interpelado por sete jovens e, num instante, perdeu o computador, telemóveis e documentos.

“Tentei resistir, mas um deles disse: pensa na tua esposa e seus filhos e logo colaborei. Foi um duro golpe para as minhas aspirações. Depois do sucedido, fiquei atônito. E para a minha sorte num dos bolsos restavam-me duas moedas de 10 meticais. Apanhei um autocarro e voltei a casa, depois de fazer uma participação na esquadra mais próxima, na esperança de que podia recuperar os telemóveis, uma vez que os comprei na loja. A polícia disse que ia entrar em contacto assim que tiver novidades, mas debalde até hoje não fui contactado”.

Ladrões disfarçam-se de estudantes ou trabalhadores

Caminhar em algumas zonas da Cidade de Maputo seja de dia ou de noite é questão de coragem. No presente, já não se pode identificar que é um simples cidadão ou malfeitor. Irene Moisés, de 21 anos de idade, disse ao Evidências que foi assaltada há alguns meses por um jovem que se disfarçou de estudante.

“O jovem desceu comigo na paragem. Seguimos o mesmo caminho e começamos a conversar. Quando chegamos numa zona sem movimento, apertou-me o pescoço e disse-me para lhe dar tudo o que tinha. Não tinha outra opção senão entregar o telemóvel e a peruca. Na verdade pensava que era estudante do Instituto Técnico de Moçambique, mas era um malfeitor.  No dia seguinte, fui à esquadra participar o caso e disse quem me havia assaltado era estudante do ITM. Durante três dias fomos àquela instituição para ver se encontrávamos o sujeito, mas pelas informações que tivemos no local nem todos que andavam com as camisetas do ITM são estudantes”, denunciou.

A par das paragens ao longo das avenidas mais movimentadas da baixa da cidade de Maputo, das ruas adjacentes ao mercado Estrela, da zona da praça 21 de Outubro no Alto Maé e do bairro da Malanga, os mercados e terminais rodoviários de Xipamanine, Praça dos Combatentes (Xiquelene) e Zimpeto são outros pontos onde os malfeitores tem agido ao seu belo prazer.

No Zimpeto, por exemplo, os furtos e assaltos são feitos de forma aprimorada. Disfarçados em utentes, vestidos de facto e gravata, os assaltantes desfilam de forma invejável diante dos olhos de curiosos que nem sequer imaginam que podem ser as próximas vítimas.

Suzana Cossa, de 24 anos, residente em Santa Isabel, um dos bairros de expansão em Marracuene, é estudante na Universidade Técnica de Moçambique (UDM) e é obrigada a escalar o terminal do Zimpeto para fazer “ligações” na ida e volta da faculdade.

“Há quatro meses, fui roubada telemóveis e perucas. No referido dia, veio diante de mim um senhor de facto, bem engravatado, fazendo-se passar por quem queria apanhar chapa e conversou comigo. Longe de pensar que era uma simples estratégia para analisar a insegurança dos meus bens por perto, logo que se apareceu o chapa deixou-me ir adiante da disputa e quando já estava à boca do autocarro arrancou-me a bolsa e fugiu. Na bolsa tinha telemóveis e perucas”, lamentou a jovem.

Apesar de estar a escassos metros, polícia nunca esclarece

De um tempo a esta parte, foi redobrada a presença de agentes da polícia nos pontos onde sempre foram reportados estes tipos de assaltos, contudo a sua preponderância é quase nula. Reina a percepção de que os casos que acontecem na via pública nunca são esclarecidos, apesar de a corporação dispor de meios que possibilitam o rastreio de dispositivos electrónicos como telemóveis.

Suzana Cossa conta que depois do sucedido “fui fazer uma ocorrência na esquadra do Estádio Nacional de Zimpeto, na expectativa de recuperar os bens, mas volvidos quatro meses ainda não fui contactada”.

Curiosamente, no Zimpeto onde viu os seus bens extraviados há um posto da polícia municipal, que parece estar mais a colaborar com malfeitores em vez de combatê-los. É que todos que trabalham naquele terminal conhecem os malfeitores, só não denunciam por medo de represálias.

É o caso de Gaspar Xavier que já assistiu muita gente a chorar de desespero. “Conheço quase todos os malfeitores desta praça, mas, por vezes, aparecem outros. Já vi muita gente a ser roubada, mas não podia fazer nada por temer represálias. Mesmo com o Posto Policial, os criminosos continuam a desgraçar as pessoas. Se quiseres, senhor jornalista, podes ir até ao rio Malauze para ver a quantidade de bolsas e bilhetes de identidade que foram deixados ali. É a nossa triste realidade, a polícia não consegue estancar esse mal e quem sofre com isso é a população”, lamentou.

Por essa razão, todos os nossos entrevistados disseram não verem utilidade alguma de todo o aparato policial que desfila nas ruas da capital do país.

PRM promete trabalhar para estancar a onda de criminalidade

Contactado pelo Evidências, o porta-voz da PRM ao nível da cidade de Maputo, Lionel Muchina, destacou que a polícia está a trabalhar no sentido de prevenir a ocorrência de roubos e assaltos na via publica e têm dado prioridade à colocação agentes no terreno, essencialmente nas horas de maior movimentação de pessoas para prevenir que os actos criminais aconteçam.

Muchina entende que a ocorrência de vários assaltos na Baixa da Cidade é devido à existência de alguns locais de alojamento e refúgios que os malfeitores possuem, como é o caso de prédios abandonados na Baixa da Cidade, existência de matas, escombros e cabanas no bairro de Maxaquene onde os malfeitores se alojam depois da prática dos assaltos.

Com vista a estancar a onda de assaltos, Muchina garante que PRM tem se feito presente de forma rotineira nos albergues dos malfeitores, onde, de forma compulsiva, tem destruído as hospedagens e retira todos os indivíduos que se encontram presentes. O Porta-Voz usou o fluxo populacional e extensão da Cidade Maputo para justificar a quase nula actuação da polícia face à onda de assaltos.

“O que vai suceder naturalmente é que a Cidade de Maputo é muito extensa e tem maior fluxo de pessoas se comparamos com outras cidades capitais, dai que pode não ser muito fácil termos uma abrangência cem por cento nos locais. Não será possível a cada 100 metros termos um agente para controlar a cidade, por isso enquanto uma patrulha móvel se desdobra para um ponto é provável a ocorrência de actos criminais como roubo e assaltos por onde as patrulhas já passaram”, justificou

Para Muchina este trabalho deve ser feito em colaboração com outras instituições da administração da justiça, porque não cabe só à polícia fazer as detecções, cabe aos outros darem seguimento de forma muito séria para que os malfeitores não voltem à via pública e cometam novamente as infracções.