Corrida pela sucessão: maturidade da Frelimo ameaçada

EDITORIAL

Está a mostrar-se difícil a gestão da sucessão dentro da Frelimo pela actual direcção que, com nervos à flor da pele, vai descobrindo que afinal não tem todos sob controlo, o que constitui um entrave ao ensaio de um terceiro mandato ou de ceder só para figuras com lealdade comprovada, uma matemática que nunca se mostrou exacta em política

 O aparente silêncio que norteou a saída do CC, em obediência às supostas orientações de topo, aquele topo controlado por um alérgico a crítica e obcecado em transmitir imagem de uma Frelimo coesa, não obstante a indiferença dada no discurso de Nampula, que confundia o silêncio dos camaradas com a ingenuidade, propondo um possível terceiro mandato, foi mal-entendido pela direcção da Frelimo, que acreditou ter tudo sob controlo.

Mas há sinais claros que mostram que o silêncio, que até agora continua, é desgaste, na esperança de que findos os três anos em falta, o partido seja revitalizado. Não se trata, contudo, de silêncio de cumplicidade, ou de aceitação da ditadura, mas de aceitação de que o partido está em mãos erradas, de pessoas incapazes de qualquer mudança ou de acolher proposta de mudança, e não resta mais nada a fazer a não ser deixar que terminem, mesmo que isso signifique mais desgaste, embora o pior já tenha sido visto, mas quando chegar a hora, em fórum apropriado, irá prevalecer a tradição do partido: findos dez anos, entregam-se as pastas.

Deixemos de lado as possíveis perseguições! Nesse percurso, em que cada um tenta impor seu grupo, não surpreendem as afirmações de Roque Silva, que, tentando abrandar os ânimos, rasgou publicamente os direitos e liberdades dos membros do cinquentenário, negando-lhes o direito e a liberdade de concorrer.

É o medo a destorcer o raciocínio! A intimidação soou de Mocuba, Província da Zambézia, justamente de onde um ilustre conhecido começou a montar seu Gabinete, foi transmitida pela Televisão de Moçambique (TVM), que conseguiu captar a raiva que acompanhava o discurso direccionado a candidatos voluntários, como se houvesse qualquer erro em ser voluntário. Os jovens que se precipitam em aplaudir, antes de absorver a mensagem, não perceberam que Roque Silva estava a diabolizar um dos direitos nobres de qualquer organização que se inspire em ideias de democracia, ainda que o Glorioso tenha tido problemas em definir sua orientação aquando da sua génese.

“Ninguém tem que começar agora a preparar-se para ser candidato. Essa coisa de ser candidato você não pode ser voluntário. Espera ai, os outros é que vão dizer que você dá para ser candidato. Ninguém deve ser voluntário. Eu quero, eu quero, quem disse que você deve querer? Nós é que devemos querer você… Não é você dizer que eu quero”, gritava aplaudido Roque Silva, numa altura em que se aproximam os congressos das organizações sociais do Partido, nomeadamente da Organização da Juventude Moçambicana (OJM), agendado para Novembro, e da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), marcado para Dezembro.

Mas os alvos do recado de Roque Silva não são os membros que eventualmente tenham manifestado interesse em se candidatar aos órgãos da OJM e OMM, os mais entendidos falam daquele ilustre que foi isolado em Niassa, depois que liderou Zambeze, o segundo maior círculo do país. O discurso está em linha com a marcha em curso para sucessão, que terá o seu ponto mais alto no 12º Congresso agendado para Setembro de 2022, onde deverão ser conhecidos os candidatos da Frelimo para as eleições presidenciais de 2024.

É óbvio que os processos de sucessão na liderança da Frelimo não têm sido de fácil gestão interna, mas isso não deve confundir os direitos e as liberdades do seus membros, muito menos fazer o SG assumir um papel ridículo como aquele, no lugar de incentivar a voluntariedade dos seus membros nos processos eleitorais internos.

Psiu… a proposta de um terceiro mandato não foi um acto voluntário do principal interessado, mas chega ao público através de personalidades que ascenderam cargos de destaque no consulado de Nyusi, preocupadas, no insucesso desse ensaio, em impor um sucessor que garanta a manutenção dos seus privilégios assim que for eleito um candidato.

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