Era necessário hastear a bravura dos novos aliados

EDITORIAL

Um pouco tarde, mas porque era necessário hastear a bravura dos novos aliados, legitimar a “escolha certa” e mostrar o que se pode fazer enquanto a SADC gagueja descoordenada, o Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança, Filipe Nyusi, veio finalmente ao público partilhar os desenvolvimentos que anunciam uma nova abordagem no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, uma abordagem que estimula o Presidente da República, que, muitas vezes, preferiu fazer-se passar por surdo e mudo, a falar aos moçambicanos sobre o que realmente está a acontecer na província mais cara e mais sangrenta de Moçambique, neste momento. Mais cara porque é lá onde está a riqueza somada em mais de USD 60 mil milhões, num só poço, e a razão de ser mais sangrenta ninguém precisa explicar.

Nas entrelinhas, foi explícita a mensagem de que aqueles nossos amigos cúmplices, com certa experiência no combate ao terrorismo, mas extremamente incapazes e baixos para edificação de um Estado democrático, vieram reforçar o vigor das nossas FDS que já estão a somar conquistas com a recuperação de zonas pertencentes aos terroristas, como é o caso de Ouasse, um ponto estratégico para a recuperação de Mocímboa da Praia, mas também para viabilizar as investidas contra o inimigo noutros distritos.

Ficou ainda na comunicação à Nação a mensagem de que não devemos nada por sermos ajudados, afinal, é “uma acção de solidariedade com o país, que não deve ser vista com qualquer receio por parte dos moçambicanos”. Muito claro, mas fica por se explicar o porquê de adiarmos tantas ofertas se nada perdemos!

Ainda nas entrelinhas, entende-se que, o destacado é um excerto que tenta desconstruir aquela narrativa de que a intervenção de Ruanda é um acordo triangular, onde a França banca as despesas de Ruanda, Moçambique abre as portas do terreno e a futura fartura do gás compense a boa vontade dos franceses que não podem sujar as mãos em terras negras. Ainda tenta dissimular a ideia de que há cabeças de inimigos de Kagamé como moeda de troca nesta operação.

Esta narrativa triunfalista, num momento em que SADC chega a conta-gotas, depois de muita hesitação de Maputo, reforça a ideia de um possível sucesso a curto prazo, sem qualquer intervenção regional, cuja entrada em Cabo Delgado só foi possível por insistência e não por vontade do Governo, tendo até havido figuras próximas do poder político que ridicularizaram o poder bélico da SADC.

E como que evidenciando a força do grande amigo, ditador, o discurso presidencial fala de sucessos que anunciam uma nova abordagem, enquanto a SADC vai se mobilizando para entrar em cena, quando Ruanda colocou o inimigo a correr.

Fora desse retrato operacional, o discurso do Presidente da República à Nação, no último domingo, 25 de Julho de 2021, descuidou-se de partilhar o plano de assistência humanitária, que apesar de ser uma reclamação pontual, com disparidades entre os grandes fundos anunciados e a qualidade de vida dos assistidos.

Os números partilhados sobre o drama humanitário ilustram a grandeza da ameaça, mas é preciso que se saiba do que está sendo feito dessas pessoas que estão por detrás desses números, um plano que coloque a par as organizações humanitárias que reclamam falta de acessos a mais seis distritos que acolhem deslocados, mas que ninguém consegue assistir devido a dificuldade de acesso que só pode ser garantido pelo Executivo. Enquanto não se vence a luta, cá deste lado só nos resta desejar bravura aos filhos mais queridos desta pátria que deixaram o conforto das suas casas, despediram-se dos pais, filhos e esposas e foram abraçar a incerteza para lutar por esta pátria, ainda que desconheçam as reais causas e quem realmente lucra com o sangue de milhares de pessoas. Um daqueles sacrifícios pela pátria que realmente não tem preço. O resto é conversa para o boi dormir.

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