“Enquanto não se levar a sério o desporto iremos cobrar dos atletas o que não lhes compete”

DESPORTO
  • Mustafá Hadji aponta falta de planificação e investimento sério na formação
  • “Jovens não esqueçam que a vida desportiva é curta”
  • “Terminei a carreira para cuidar da minha esposa”

Muitos são os jogadores moçambicanos que no auge das suas carreiras recebem salários chorudos, mas que depois de terminarem as suas carreiras vivem em condições deploráveis, dependendo da esmola para sobreviver. Quando ainda tinha pernas para dar seguimento a sua carreira desportiva recheada de títulos, Mustafá Arnaldo Hadji Ismail decidiu pendurar as chuteiras para cuidar da sua esposa, que viria a perder a vida em Setembro de 2019. Com uma lição bem estudada, Hadji abraçou o empreendedorismo, tendo apostado na venda de material desportivo, sendo no presente um grande exemplo para os jogadores mais novos.

Duarte Sitoe

Mustafá Arnaldo Hadji Ismail, ou simplesmente Mustafá Hadji, foi formado no Clube Ferroviário de Nacala, mas foi pela defesa das cores da locomotiva de Pemba que começou a dar nas vistas. Segundo defende Johann Goethe, quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor. Pois é, foi o que aconteceu com Hadji.

Depois de passar por quase todas etapas de formação no Ferroviário de Nacala, para alimentar o sonho de jogar ao mais alto nível no futebol nacional, Mustafá Arnaldo Hadji Ismail ainda com idade de júnior, ou seja, 20 anos, fez as malas e bagagens para Cabo Delgado para defender as cores do Ferroviário de Pemba.

Diz o adágio popular que “quem não corre riscos perde a oportunidade de alcançar o que deseja” e a aventura de Mustafá Hadji em Pemba foi importante para a sua carreira.

“Transferi-me do clube onde tudo começou para Ferroviário de Pemba. Além da distância que me separava da família, passei por dificuldades financeiras. Nos primeiros três meses não tinha direito a salário. Era uma fase probatória, quase me arrependia por ter saído do clube que me pagava por uma aventura, mas, felizmente, tudo acabou entrando nos carris”, lembra.

Depois de brilhar com o verde e branco do Ferroviário de Pemba, “El Macua”, como carinhosamente é tratado nos meandros desportivos, transferiu-se para o Clube dos Desportos de Maxaquene em 2009, clube que representou por duas épocas.

“Foi o culminar de um sonho, primeiro ir a Maputo e, por outro lado, para vestir as cores do Maxaquene, que na altura tinha jogadores que dispensam qualquer tipo de apresentação. O capitão Macamito e Campira eram jogadores que me expiravam e só os via pela televisão, mas passaram a ser meus colegas”, destaca.

“Na LDM cresci como homem e ganhei estabilidade financeira”

Nos tricolores, Hadji chegou, viu e venceu. Em pouco tempo, fixou-se como titular indiscutível no meio-campo daquela histórica formação do futebol moçambicano. Antes de se mudar para a Liga Desportiva Muçulmana de Maputo, hoje Liga Desportiva de Maputo, ou seja, em 2010, Hadji conquistou uma Taça de Moçambique em 2010.

O nosso entrevistado assume que foi no clube presidido por Rafik Sidat que conseguiu crescer como homem, uma vez que além de títulos ganhou estabilidade a nível financeiro.

“Na Liga Desportiva de Maputo foi onde fui feliz profissionalmente e, sobretudo, cresci como homem. Em cinco épocas ganhei tudo que podia ganhar, desde títulos até à minha estabilidade financeira. São momentos que, certamente, vou levar para a vida inteira, pois com a LDM ganhei quatro campeonatos nacionais. As épocas 2013 e 2014 foram marcantes, uma vez que conquistamos dois títulos seguidos”.

Terminado o “conto de fadas” na Liga Desportiva de Maputo, em 2016, com pompa e circunstância, Hadji foi anunciado como reforço do Clube dos Desportos da Costa do Sol. Nos canarinhos teve uma passagem discreta, uma vez que não era indiscutível nas opções do treinador.

Depois duma época em que foi pouco utilizado, Mustafá Hadji decidiu voltar às origens, tendo escolhido o Ferroviário de Nampula como destino. Nos locomotivas da apelidada capital da norte, o médio defensivo que muitas vezes foi adaptado a lateral direito, voltou a jogar com regularidade, tendo, na época seguinte, se transferido para a União Desportiva de Songo.

“Terminei a carreira para cuidar da minha esposa”

Naquele clube da província de Tete, Mustafá Hadji conquistou o quinto anel de campeão nacional. No entanto, na época seguinte, quando ainda tinha pernas para continuar a brilhar nos relvados nacionais, o jogador natural de Nampula, aos 30 anos de idade, decidiu pendurar as botas para cuidar da esposa.

“Queria ficar perto da minha amada esposa, que viria perder a vida em Setembro de 2019. Com início da doença da minha esposa, em 2018, senti-me obrigado a ficar perto da minha família. Não foi por falta de oportunidades que terminei a carreira, mas contou muito a vontade de estar perto da família e também já nessa altura tinha mais de 10 anos de total entrega como profissional”, sentencia “El Macua”.

Terminou a peripécia como jogador de futebol, mas a vida ligada ao desporto estava a começar. Para sobreviver Mustafá Hadji, que tem nível básico de escolaridade e que sonha em formar-se em gestão desportiva, aventurou-se no mundo do negócio e criou uma empresa especializada na venda de material desportivo, M5 ProSports.

“Essa ideia surgiu com ajuda de alguns amigos que os considero irmãos, que a vida me proporcionou, deram me algumas ideias de como andar com os meus próprios pés fora dos campos e daí abri o meu próprio negócio. A M5 ProSports é uma empresa especializada em venda e fornecimento de todo tipo de material a diversos clubes do nosso país”.

Mesmo aposentado, Hadji ainda tem uma forte ligação com o futebol, uma vez que a modalidade das massas faz parte da vida do jogador, que, ao longo da sua carreira, envergou as camisolas do Ferroviário de Nacala, Ferroviário de Pemba, Maxaquene, Liga Desportiva de Maputo, Costa do Sol, União Desportiva de Songo e Ferroviário de Nampula.

“Clubes grandes deviam aprender com a ABB”

Muitos são os jogadores que, num passado recente, brilhavam nos grandes palcos do futebol nacional, que hoje passam necessidades e dependem da ajuda de terceiros para sobreviver. Mustafá Arnaldo Hadji Ismail conseguiu contornar essa triste realidade e hoje insta os jogadores que ainda estão no activo para não estarem apenas com os olhos fixos no presente.

“Muitos jogadores ficam presos no presente e quando se apercebem de que devem mudar já fica tarde e a solução é pedir ajuda. Ficamos a pensar: ‘eu tenho nome e não posso fazer algo X e tal’, esquecemos que a carreira de jogador de futebol profissional tem prazo. Os jogadores devem interiorizar que podem fazer algo que ajude a manter a família estável no fim de carreira, enquanto joga aos finais de semana com amigos”, disse El Macua deixando um apelo aos futebolistas que ainda estão no activo para que “se foquem na sua carreira, mas não esqueçam que a vida desportiva é curta. Apesar de o nosso futebol não atravessar um bom momento, é bem possível economizar algum para o amanhã. É preciso investir em algo que seja rentável amanhã”.

A Associação Black Bulls, que hoje lidera confortavelmente o Campeonato Nacional de Futebol, trouxe uma nova forma de ser e estar no futebol moçambicano. Na opinião do nosso entrevistado, os clubes nacionais deviam seguir o exemplo dos “Touros”, que em pouco tempo conseguiram uma inédita qualificação e estão a impor-se no Moçambola.

“A Black Bulls tem um projecto invejável, dá para notar isso. Os clubes ditos grandes deveriam aprender com isso. No passado, tivemos a Liga Desportiva, que em menos tempo teve quase todos os títulos possíveis, mas os outros dirigentes dos outros clubes, ao invés de fazer melhor que a Liga, só se limitaram a ir em programas televisivos para criticar o projecto. Hoje onde anda o Maxaquene, o GDM e o Matchedje? Como está o Textáfrica e a quantos anda o Têxtil de Púnguè? São emblemas que crescemos a ouvir falar da sua grandeza, mas que hoje não passam de uma história para se contar”, frisou.

Indo mais longe, Hadji declara que não se pode construir uma boa casa ignorando a fundação, uma vez que o grosso dos clubes moçambicanos está apenas preocupado com os resultados imediatos.

“Precisamos de apostar na formação e num bom projecto que vise a melhoria do nosso futebol. Enquanto não se levar a sério o desporto nacional, irão cobrar dos profissionais o que não lhes compete. Tivemos um passado recente com a nossa selecção nacional de futsal, foi para um torneio na Tailândia e não trouxe bons resultados. Muitos fizeram o que melhor sabemos em Moçambique: criticar os fazedores da modalidade, esquecendo que os mesmos tiveram quase um ano e meio sem nenhuma competição. O mesmo digo em relação ao nosso campeonato nacional. Como será realizado no próximo ano se a segunda divisão não está a acontecer? Qual é o plano da Liga Moçambicana?”, questionou.