O significado do Coronavírus nas relações internacionais

OPINIÃO

Por: Luca Bussotti

No início da pandemia, sobretudo na Europa, muitos observadores entendiam que o Coronavírus teria levado a uma inversão de tendência quanto ao difuso espírito egoísta e interesseiro que tem caracterizado as relações interpessoais e internacionais ao longo dos últimos séculos, e, sobretudo, depois do fim da colonização. Ideias não corroboradas por evidências, mas apenas pelo optimismo da esperança, sem chamar em causa o pessimismo da razão.

Pontualmente, passada a fase completamente emergencial, quando a medicina parecia não ter nenhuma arma contra a nova pandemia, os egoísmos voltaram e as relações internacionais entre estados sofreram uma aceleração, mais do que uma transformação, de tendências que já eram evidentes antes da eclosão desta nova doença. Tal aceleração assenta em alguns dos princípios fundamentais da teoria estadocêntrica que, salvo raras excepções, nas últimas décadas sempre prevaleceu, se comparada com a teoria multicêntrica: o que move as relações internacionais é cada Estado, no seu interesse particular, a partir dos mais fortes e influentes, deixando às organizações multilaterais, tais como a ONU, União Europeia e SADC um papel secundário.

Apesar da retórica política, e de profusões de solidariedade para com os países com maiores dificuldades em limitar o impacto do Coronavírus entre as suas populações, como os africanos e latino-americanos, a única forma de multilateralismo identificável acerca das políticas para combater o Coronavírus tem sido a dos países europeus, concentrados em acumular doses de vacinas para as suas populações (ideia legítima), deixando porém que o mecanismo da COVAX resultasse em larga medida ineficaz, por falta de meios concretos para traduzir na prática as intenções solidaristas expressas em várias circunstâncias por parte dos próprios países europeus.

A situação mostra um quadro claro, que toca duas vertentes: em primeiro lugar, os números dos vacinados. Segundo o Our World in Data, no continente africano, além de faltar dados (parcial ou totalmente) de alguns países (Líbia, Burkina Faso, Madagáscar, por exemplo), o único que conseguiu uma percentagem de vacinação razoável é Marrocos (cerca de 32%), seguido pela Tunísia (12%), enquanto na África subsaariana o país com maior incidência de vacinação é o Zimbabué (pouco mais de 8%). Moçambique está muito atrasado nesta campanha, com apenas 1,6% da sua população vacinada. Se formos a ver o quadro europeu, as coisas mudam radicalmente: salvo alguns países balcânicos e da Europa Oriental, todos os outros têm uma percentagem de mínimo 40% da sua população vacinada, com pontas em países como Irlanda, Portugal e Espanha, já acima de 60%. A população europeia que recebeu pelo menos uma dose é de 72,4%, segundo fontes de Bruxelas.

Segundo: é preciso analisar o tipo de vacinas utilizadas. Na Europa, depois de uma primeira onda de vacinação com base no Astrazeneca, agora se privilegia a vacina da Pfizer, Moderna e, em parte, Janssen da Johnson & Johnson. Outras vacinas que têm encontrado aceitação, mas apenas em alguns Estados, são a russa Sputnik e a chinesa Sinopharm ou a brasileira Coronavac. O problema, nesse caso, é de dupla natureza: por um lado, ele tem a ver com a eficácia efectiva das vacinas aplicadas, que variam, garantindo uma cobertura diferenciada e, portanto, aumentando ou diminuindo a probabilidade de contrair a doença; por outro, com a aceitação de certas vacinas por parte de vários Estados europeus. Por exemplo, a Sputnik e a Sinopharm, geralmente (embora admitidas pela OMS) não são reconhecidas por parte de certos Estados europeus, de forma que a mobilidade de indivíduos para estes países é nula, não podendo estes entrarem no espaço europeu. Um problema, este, que se poderia resolver, pelo menos em casos individuais, através de um simples teste serológico, que permite verificar o grau de anticorpos desenvolvidos depois de tomar a vacina, independentemente do tipo de vacina recebido.

As decisões unilaterais por parte dos diversos Estados não só ignoram as indicações da OMS quanto às vacinas admissíveis como seguras, mas pouco contribuem ao mecanismo da COVAX. A este propósito, vale a pena recordar que inteiras áreas do planeta, como, hoje, o subcontinente indiano e alguns países latino-americanos, além de toda a África, denunciam um défice enorme de vacinas contra o Coronavírus, e que a COVAX não está a conseguir satisfazer a demanda enorme proveniente desses territórios com renda média e baixa. Se as nações do G7 e o grupo Team Europe da União Europeia compartilhassem apenas 20% das doses de vacina na sua posse, 153 milhões de doses (segundo dados da UNICEF) poderiam ser doados aos países com maiores dificuldades na campanha de vacinação, entre os quis Moçambique.

O vacino-nacionalismo, porém, está impedindo que o mecanismo da COVAX consiga redistribuir equitativamente as doses de vacina, o que está a trazer duas consequências: acima de tudo, a pandemia vai continuar a espalhar-se para todo o mundo e, em segundo lugar, países centrais, acima de tudo os europeus, continuarão a se iludir de se defenderem da pandemia erguendo cada vez mais barreiras, usando a situação vacinal como justificação para fazer dos seus territórios novas fortalezas. Uma perspectiva míope, além de profundamente injusta.