O papel da juventude moçambicana deve ser agora e não amanhã!

OPINIÃO

Por: Dionildo Tamele

O presente artigo procura expor, de formar clara e objectiva, o estatuto da juventude na sua contribuição para o desenvolvimento do país em vários domínios como a educação, a política, a religião, a sociedade, economia, cultural numa dimensão local para não dizer tradicional. Buscar-se-á indagar a percepção da juventude moçambicana desde o período em que Moçambique era província ultramarina de Portugal até o período actual, para depois conceber-se que resultados o contributo da juventude produziu?

Ninguém tem dúvida da importância das políticas de consciencialização da juventude, para que Moçambique fosse uma nação soberana política e economicamente, mesmo que isso na tenha passado de mera utopia. Mas antes desta trajectória vamos fazer uma breve análise da situação dos países africanos de expressão portuguesa.

Se partirmos da perspectiva segundo a qual a juventude em qualquer parte do mundo desempenha um papel de capital importância na resolução dos problemas, esta deve estar consciente dos problemas que marcam a sua geração tal como aconteceu em vários países como na Grécia antiga aquando da instalação do governo dos 30 homens, que era corruptor; na França, no período da governação do Luís XIV, onde o esbanjamento da coisa pública estava ao serviço de uma pequena elite; no Egipto onde se assistiu ao sofrimento dos hebreus e judeus; na América, no período colonial incluindo o próprio velho continente em geral e Moçambique, em particular.

A juventude destes países estava consciente do seu papel e do contributo que deveria dar primeiro na sua família, povoação, comunidade, província, país, continente, e no mundo na resolução dos problemas que marcam a sua geração.

Assim, é mais do que legítimo questionarmos o contributo que a juventude moçambicana, tem dado na resolução dos problemas reais do país, tais como as dívidas ocultas, que vão ser julgadas já no dia 23 de Agosto, a Violência Armada em Cabo Delgado, que já se prolonga há 4 anos, embora nos últimos dias se observe um triunfalismo protagonizado, não por forças internas, mas por militares ruandeses.

Como acima mencionamos, na França um grupo de jovens intelectuais tais como Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Diderot, contribuíram de forma significativa para uma revolução dos problemas imperantes, desde a corrupção que as elites políticas e religiosas faziam. É importante perceber que a ciência desempenhou um papel fundamental na lógica de libertar o povo da escravatura existente na época.

Não resta a dúvida que, embora muitos moçambicanos continuem sem acesso ao ensino superior e a algumas formações técnico profissionais, ao mesmo tempo que as universidades e algumas instituições de ensino superior vão alargando seu raio de actuação no país, os poucos moçambicanos, que têm o privilégio de estar nestas formações, têm o dever de servir de ponta pé para a socialização de outros jovens menos escolarizados, para a sua consciencialização política, como meio de participação da sua cidadania.

Incluindo jovens que estão dentro de algumas organizações da sociedade civil, organizações políticas, religiosas e os apáticos a qualquer organização, porque todos são moçambicanos. Mas, antes tudo, é preciso relembrar que a juventude, desde os tempos remotos, foi chamada a dar o seu contributo diante das vicissitudes da sua época.

Importa referir a formalização do 12 de Agosto, como dia internacional da Juventude, criado através da resolução 54/120, por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1999, como consequência da Conferência Mundial dos Ministros Responsáveis pelos jovens, em Portugal na sua capital Lisboa. Como se sabe, o maior móbil desta data é focar na educação e consciencialização dos jovens sobre a responsabilidade que assumem como representantes do futuro do planeta.

Sublinhe-se a importância da juventude na sociedade desde os tempos remotos, na altura em que, Sócrates, um dos maiores pensadores do mundo de todos tempos, o filósofo grego, foi acusado de corromper a juventude, quando ajudava a juventude a ganhar a consciência dos problemas da sua época.

Não constituí novidade que Platão e Aristóteles são produto de trabalho de Sócrates, tendo, estes dois, dado contributo na resolução dos problemas da corrupção. Estas figuras deram um exemplo de suma importância não só na Grécia como no mundo, sendo até referência no combate a actos de corrupção na história humanidade. Aqui constata-se um papel de relevo desta juventude.

A breve trecho vamos dar um mero passeio para Egipto onde encontra-se um grande jovem chamado Moisés que guiou o seu povo para libertação depois de 400 anos da escravatura, mas aqui o mais importante está relacionado com a consciencialização desta opressão por parte dos jovens hebreus e judeus.

No continente africano, durante a praga da opressão, desde o século XIV até século XX, o papel da juventude não foi alheio, como podemos constatar a proeminência, no século XX, de figuras como Eduardo Mondlane, Nelson Mandela, Kwume Nkruma, Patrício Lumumba, Julius Nyerere, Léopoldo Senghor, Cheick Anta Diop, Steve Biko e Desmond Tutu, em busca da liberdade.

Não há dúvida que estas figuras foram jovens cientes das vicissitudes do seu tempo, e que, por causa disso, envidaram esforços de modo a dar resposta aos desafios da sua geração.

E os resultados são as independências, a construção das primeiras instituições do ensino superior, e a formação dos Estados africanos que hoje verificamos. Apesar das críticas que algumas destas figuras tem sofrido, ou podem vir a merecer, não se pode deixar de elogiar o seu trabalho.

Em particular, nos países falantes de língua portuguesa como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guine Bissau, São Tomé e Príncipe, onde pontificam figuras Eduardo Mondlane, Marcelino dos Santos, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, que deram o seu contributo nos processos de libertação dos seus países do jugo colonial português. Trata-se, na verdade de figuras que, nos nossos dias, são tomadas como grandes referências nas instituições de ensino superior, na vida política activa, literatura, no desporto entre outras áreas.

Por outro lado, encontramos outros jovens, que, de forma inusitada, desempenharam um papel espectacular na cultura, política, desporto, economia, imprensa tanto, escrita como radiofónica, cujo seu maior contributo era, de facto, libertar a sua geração do jugo colonial, através de diversas manifestações e reivindicações.

Trata-se de figuras como Armado Guebuza, Joaquim Chissano, Rui Nogar, Rui de Noronha, irmãos Albasine, Noémia de Sousa, Malangatana, Eduardo Mondlane, Marcelino dos Santos, José Craverinha.

Estes moçambicanos naquela altura sabiam de facto quais eram as preocupações que apoquentavam a sua geração. É por causa da sua consciência que conseguiram, com muito trabalho, deixar o legado de ver um país liberto do jugo colonial, onde hoje podemos ver jovens, nas escolas primárias, secundárias, profissionais e do ensino superior estudando a nossa história, geografia; valorizando da nossa música, poesia, desporto, dança, língua, política, o que penso que seja o orgulho para todos nós.

É verdade que muitas destas figuras, hoje, estão associadas a actos de corrupção desde a morte de Carlos Cardoso, Siba-Siba Macuácua, dívidas ocultas, mal tal não pode, maneira alguma, desvalorizar o seu contributo.

Depois das duas gerações mencionadas é preciso falar desta nova geração de jovens que na minha óptica é muito ociosa e apática aos seus desafios. Foi numa cerimónia de graduação que o antigo reitor da Universidade Eduardo Mondlane, padre Filipe Couto disse que esta nova geração era a geração de viragem, as características desta geração é a falta da consciência do seu papel na sociedade e do legado que os mesmos vão deixar para as próximas gerações.

Pode se afirmar que esta juventude é caracterizada por pautar por uma vida de facilidade, onde a palavra de ordem é bolada. Se, antes, esta palavra constituía vergonha mencionar no meio dos jovens, hoje constitui um slogan de convivência social, sendo que o enriquecimento ilícito é parte integrante da nossa camada social.

Mesmo no meio de tanta ociosidade pode verificar-se uma crítica feita por estes jovens para as elites políticas moçambicanas não no sentido da resolução dos problemas mas querer serem parte integrante deste processo.

Um dado de suma importância está associado ao facto de esta nova geração ter tido a oportunidade de cursar o ensino superior sem precisar de ir para fora do país, o que lhe permite conhecer o seu país de forma concreta e não teórica. O que devia permitir que os mesmos fossem capazes de dar um contributo mais significativo do conhecimento da realidade do país.

Em Moçambique quando comemoramos o dia da juventude, o que nos vem na memória, presumo, são figuras como Mondlane, Machel, Urias Simago, Josina Machel, Marcelino dos Santos, que, no meio de tantas difuculdade, deram o seu contributo para o país e eternizando os seus nomes na memória colectiva. Lembramo-nos também de figuras que se situam nos finais do século XX e princípios do século XXI, que, com grande astúcia, deixaram suas marcas na luta contra actos de corrupção. Refiro-me a nomes como o do economista Siba Siba Macuacua e o jornalista Carlos Cardoso.

Acho que estas figuras deveriam servir de grande inspiração nos desafios que esta nova geração enfrenta. Mas, como disse, a juventude quer alcançar uma vida fácil e não se preocupa em dar o seu contributo para o país.

A pergunta que paira é de saber qual o nosso maior papel e legado da juventude no desenvolvimento do país para a presente e futuras gerações.

Não podemos continuar a buscar as nossas referências fora do país, se aqui mesmo podemos encontrar. É preciso substituir Machel, Mondlane, Simango, Craveirinha, com novos nomes que vão dar o contributo, onde as novas gerações vão ter orgulho. Porque eu entendo que ser moçambicano é ser homem e mulher que está na linha da frente. Como esta se dizer que a história é feita por vencedores esta geração tem a obrigação de ser parte integrante da epopeia da história do país.

A nossa juventude é chamada hoje para contribuir no momento histórico, tendo em conta que o seu contributo ser julgado pelas novas gerações.