Um solitário do século xx

OPINIÃO

(Para a Águeda Adler, com amizade)

Por Afonso Almeida Brandão

Tenho andado a ler, ultimamente, alguns mentores das mais variadas escolas do pensamento moderno. Num pequeno inventário que posso aqui fazer acerca do que retiro, é que existe um manancial e uma confusão de saberes bastante generalizados.

O Leitor com boa vontade, receptivo, fica perplexo com tantas ilações contraditórias. A investigação sobre o mundo, erudita, imaginativa ou auto-didacta, queima etapas para esbarrar numa muralha de aço. Para onde vamos?

Alguns reportam-se ao ciclo obrigatório dos impérios: ascensão, declínio e queda. Segundo eles, é um processo repetitivo, uma realidade histórica que se relaciona com a exaustão e o excesso dos dominadores, e também com as sementes da insurreição que se desenvolvem paralelamente e os afrontam; outros angustiam-se com a perda de valores que consideram fundamentais e acham que os saltos em frente, não calculando todos os efeitos nefastos envolvidos nessa aventura incansável, empobrecem o espírito do homem; outros mantêm uma esperança firme na alteração sistemática que está a empreender-se, à base de novas regras, e que é uma demonstração de liberdade e um sintoma de abertura ao universo das grandes descobertas. Como já está a ser.

Todos são mais ou menos tenazes e hábeis nas suas exposições, manuseiam com o maior à vontade (embora quase sempre apenas resumindo) clássicos do “mundo pensado do homem e para o homem”, fazem sínteses e enxertos às vezes algo estranhos, procurando apresentar a quem os lê uma estrada aberta na continuação dos caminhos pedregosos onde tudo começou e avançou. É uma explosão de propostas.

Do que leio e do que deduzo (e do que a minha observação constata), o meu estado de dúvida (que alguns consideram o reino da sabedoria, seria bom que fosse: assim estaria certo nessa dúvida) não vai diminuindo.

Tenho reiteradamente defendido a ideia, em conversas soltas, que a mundialização das actividades e das relações será o novo lugar do homem, uma praça inaugural de todas as permutas e fusões. Virá com o tempo, mas arrastando incompreensões, alguns tormentos, várias insanidades.

Também obedeço, nessas mesmas conversas (ou em artigos que publiquei nos últimos anos), a uma premissa: a tentação dos impérios, de acordo com a crónica geral, é a de se manterem e, se possível, alargarem-se. Até a corda partir. Deste modo, parecem repetir o ciclo biológico do próprio homem: nascimento, vida e morte.

Chamemos-lhe a tirania do ciclo ou da natureza. Não se foge a ela, embora todos os impérios, como todos os homens se cumpram com mais ao menos saúde, maior ou menor coragem, mais ou menos inimigos, capacidade de gerir circunstâncias e a influência (não muito citada) do acaso. Tudo o que está para trás (conquistas, transformações, estabilidades e insurreições) é o retrato, bem ou mal retocado, que deixamos aos nossos herdeiros para que meditem nas rugas, nos cansaços e na patina do pensamento e da acção.

É a voz dos antepassados – para alguma coisa deve servir. Tantas passagens de testemunho são percurso feito. Claro que prevalece a incógnita, a verdade total não tem moradia, sejam quais forem as mezinhas, as vacinas, a documentação ou os Gurus. E no que respeita ainda á incógnita, se ela fosse um valor, os nossos herdeiros (não sei é em que geração) vão ser todos ricos de corpo e de alma. O velho sonho utopista da fraternidade, mesmo citado a sorrir, não pode morrer. E não esquecer, também: “ter” não é muito, “ser” é bastante.

Hoje fico por aqui. O tema é vastíssimo e o espaço acabou. Tentarei, nos próximos textos, orientar-me na montanha dos conhecimentos e das intuições, para não me perder, ou para me perder menos. E convido o Leitor para esta viagem em mares tão difíceis. Mas tudo é abordável. Cinco ou dez minutos são bem gastos numa vontade mútua de esclarecimento.

BREVE NOTA

Um dos escritores que referimos é Emil Cioran (1911.1995), personagem que aparece de vez em quando nas minhas palavras. Não muito. De qualquer modo, significativo do interesse que me desperta e que originou a presente crónica que ora publicamos.