De dia ficavam escondidos e viviam normalmente durante a noite

DESTAQUE EXCLUSIVO
  • Saiba como era a vida dos terroristas e seus reféns em Mocímboa da Praia
  • Terroristas só mantinham vivo quem lhes fosse útil
  • Insurgentes treinam crianças de 10 anos para serem soldados e utilizavam alguns raptados como escudo.
  • Mulheres raptadas eram obrigadas a casar com insurgentes e não tem liberdade
  • Mocímboa era tratada como capital de uma circunscrição islâmica que chamam de Kambi

É um relato aterrador. Vem de um homem, cuja identidade preferimos omitir por opção, que durante 36 dias esteve nas mãos dos terroristas, depois de ter sido raptado em Palma, numa estância hoteleira onde trabalhava. Foi levado a Mocímboa da Praia onde, juntamente com outros reféns, entre homens, mulheres e crianças diz ter vivido os piores dias de sua vida. Ao Evidências, revela alguns detalhes de como era vida em Mocímboa da Praia, a relação entre os insurgentes e os seus reféns, bem como as leis que funcionavam naquele ponto do país, que durante um ano esteve nas mãos de militantes islâmicos. Conta que as mulheres eram obrigadas a casar com os insurgentes, sem direito a escolha e eram, incluindo crianças menores, usadas como moeda de troca entre os jihadistas. Paralelamente, as crianças maiores de cinco anos frequentavam madrassas, enquanto as mais velhinhas aprendiam a manipular armas e com 10 anos já eram envolvidas em combates. Para escapar a aviões e helicópteros de reconhecimento e aos possíveis bombardeamentos, os insurgentes e seus reféns viviam como vampiros, dormindo de dia e vivendo a sua vida normal durante a noite. Acompanha a seguir alguns depoimentos importantes.

Reginaldo Tchambule, em Cabo Delgado

O Jornal Evidências trás nesta edição, um relato, em primeira pessoa, de um jovem, cujo nome e detalhes de sua identificação preferimos ocultar para a sua segurança, que viveu durante aproximadamente 40 dias em Mocímboa da Praia, depois de ter sido raptado pelos terroristas em Palma, na sequência do ataque de 24 de Março último.

Muhamed Issufo, de seu nome fictício, viveu nas garras dos insurgentes por mais de 36 dias. Conta que quando os insurgentes invadiram Palma, a 24 de Março último, encontrava-se incomodado, razão pela qual não conseguiu fugir com o primeiro grupo que abandonou aquele distrito, logo após a invasão, tendo sido surpreendido pelos malfeitores, que o retiveram e o levaram para uma casa, ainda em Palma, onde mantinham mais de 30 vítimas como reféns.

Aqui, conta a fonte, todos foram submetidos a uma entrevista pelos insurgentes, procurando saber quem eram ele, de onde vinham e o que faziam em Palma. Basicamente, os terroristas queriam ter a certeza de que no grupo de reféns não havia militares e polícias.

“A mim perguntaram se era militar e respondi negativamente. Apesar de ter mostrado documentos da minha profissão e do local onde eu trabalhava (omitimos deliberadamente para proteger a fonte), não acreditavam nas minhas declarações por me acharem um pouco forte”, relata.

Apesar de ninguém ter assumido pertencer ao sector castrense, os terroristas seleccionaram seis jovens de sexo masculino, incluindo a nossa fonte, tendo-os levado até às proximidades de uma vala comum, onde aplicavam as suas penas de morte atiravam os corpos das pessoas que, no seu entender, mereciam a pena de execução.

Com as mãos amaradas atrás, a vítima, que fala muito bem suaíli e árabe, conta que só escapou após imitar um outro jovem que quando chegou a sua vez de ser executado gritou “AllahuAkbar”, uma expressão em árabe que significa “Alá é Grande” ou “Alá é o Maior”. Entretanto, os outros quatro jovens não tiveram a mesma sorte. Foram impiedosamente executados e jogados na vala comum. É o nosso entrevistado passou a ser tradutor, em alguns casos, nas negociações de resgate e algumas vezes foi chamado para ajudar os terroristas sempre que não conseguissem manusear algum carro.

Em Palma permaneceram por cinco dias, antes de seguirem uma viagem de dois dias até Mocímboa, por via de uma estrada terraplanada que era usada por uma empresa de exploração de madeira, pertencente a um famoso empresário do ramo, em Mocímboa da Praia.

A vítima não sabe ao certo quantas pessoas os terroristas raptaram em Palma, mas fala de quatro camiões com estimativamente 30 pessoas cada que chegaram no mesmo dia em Mocímboa.

“Há mais camiões que chegaram dias depois. A maioria transportavam mulheres e crianças”, disse a fonte que viveu 36 dias nas mãos dos terroristas, dos quais 25 em Mocímboa da Praia na altura em que os insurgentes eram a única autoridade naquele ponto do país.

“Quando chegamos a Mocímboa, os insurgentes vieram ter connosco e tentaram nos recrutar. A mim disseram que como motorista não precisaria pegar em armas, só devia transportar-lhes para onde quisessem ir, mas nunca aceitei”, conta.

Como viviam os terroristas e seus reféns em Mocímboa da Praia?

Muhamed Issufo conta que os insurgentes haviam instalado em Mocímboa da Praia uma espécie de capital daquilo que designam de Província Islâmica de Kambi, onde a vida seguia os ditames estritos da sharia islâmica.

Numa reconstituição de como era a vida em Mocímboa da Praia durante o período em que aquela cidade portuária esteve nas mãos dos terroristas, a fonte descreve que os insurgentes viviam em casas previamente identificadas, sendo que durante o dia todos ficavam escondidos dentro das suas casas e saíam para fazer as suas actividades como cozinhar, procurar alimentos, entre outras, apenas de noite.

“Ali não podíamos sair de dia. Cozinhávamos a noite e não podíamos fazer as refeições na mesma casa em que vivíamos. Tínhamos que viver com os ouvidos bem abertos para prestarmos atenção a qualquer ruído de helicópteros, a única coisa que eles temiam muito”, relatou.

Embora fossem reféns, sem mínimas margens de fuga, visto que os terroristas estavam espalhados em todos os cantos, a fonte relata que tinham liberdade de circular na cidade. Por vezes, recebiam autorização para saírem de dia para procurarem comida, basicamente coco para temperar as refeições e peixe para variar a sua dieta, mas deviam estar sempre atentos ao barulho de qualquer aeronave que sobrevoasse o local e, no caso de se ouvir, esconder-se entre os escombros para não serem surpreendidos e serem bombardeados.

“Eles tinham tudo lá. Havia um armazém cheio de comida que eles trouxeram de Palma e de outros sítios onde saqueavam. Os homens que nos controlavam saíam de manhã iam levantar comida e nos davam. Traziam normalmente 10 quilos de arroz, um ou dois caldos e, por vezes, massa de tomate. Quando não havia muita coisa só traziam arroz, que era o único alimento abundante. O caril era frequentemente matapa de nhewe (tseke), matapa de mandioca e folhas de morrinha. Uma e outra vez é que comíamos peixe, quando tínhamos autorização para pescar uns pequenos peixinhos só para sentirmos cheiro. Tudo preparávamos com leite de coco que é bastante abundante em Mocímboa”, relatou a fonte, destacando que durante os 36 dias viveu em condições nunca vividas numa prisão.

Segundo a fonte, o arroz é o único alimento que tinham em abundância porque os insurgentes saíram de Palma, levando consigo cinco camiões com cerca de 500 sacos de arroz e igual número de sacos de farinha de milho.

Com a cidade completamente destruída e sem acesso à corrente eléctrica, a fonte conta que para carregar os telefones e outros equipamentos electrónicos os insurgentes recorriam a geradores, painéis solares e baterias retirados dos bancos e antenas das telefonias móveis.

“Eles, em Mocímboa, tinham tudo. Para carregar os equipamentos usavam geradores daquelas bombas, dos bancos e das antenas. Eles viviam como um sítio normal, o problema é que de dia não se andava nem de moto, nem a pé por causa dos helicópteros”, referiu a fonte.

Questionada sobre a frequência com que os helicópteros passavam, a nossa fonte explicou que “nos primeiros dias depois do ataque a Palma, os helicópteros sempre passavam, faziam alguns sobrevoos de reconhecimento. Os insurgentes tinham muito dos bombardeamentos”, conta a fonte, relatando que enquanto era mantido como refém acompanhou um bombardeamento das Forças de Defesa e Segurança (FDS), na zona do BCI, próximo à rotunda, mas não sabe dizer quantos insurgentes terão sido mortos, porque ele e outros “reclusos” não eram informados de nada.

Mulheres servem como escravas sexuais e crianças dos 10 anos são soldados

Para ter acesso à água potável, a fonte conta que recorriam aos tanques da Cadeia de Mocímboa da Praia, enquanto os serviços de saúde eram garantidos pelos insurgentes, num hospital improvisado nas instalações da transportadora Nagi Investimento. Havia também uma moageira de milho, um pequeno comércio que só funcionava durante a noite, entre outros serviços.

Muhamad Issufo explica que os insurgentes, após perpetrar saques de dinheiro, alimentos e outros bens e raptos de mulheres, chegados a Mocímboa da Praia dividiam estes recursos entre si.

“Eles dividiam entre si as mulheres e as crianças. Normalmente as mulheres mais velhas viviam de um lado e os homens do outro, sem nenhum contacto, enquanto as mulheres jovens e as crianças menores de cinco anos viviam com os terroristas. Os reféns, mesmo que fossem casados, não tinham direito de nenhum contacto com as mulheres”, relata.

“Eles dividiam-se as mulheres jovens. Você encontrava uma pessoa com três ou quatro mulheres, que cuidavam de crianças menores de cinco anos, como seus filhos. Eles escolhiam as mulheres e levavam as suas casas sem que estas tivessem direito a alguma escolha”, relata a fonte.

Segundo detalha, no local os insurgentes impunham à risca o cumprimento das leis islâmicas radicais e as mulheres eram oprimidas. Tinham pouco poder de escolha e eram proibidas de circular sem “Niqab”, a veste que cobre o corpo todo, inclusive o rosto, deixando apenas os olhos de fora, ou “Burqa”, que é o tipo de véu com maior cobertura, que tapa também os olhos com uma tela.

Os homens que não sejam seus maridos, na desmantelada província islâmica de Kambi (Mocímboa da Praia), não tinham nenhum direito de se dirigirem às mulheres.

“Lá era normal os terroristas venderem entre si motorizadas, mulheres e crianças que serviam como esposas ou trabalhavam como empregadas nas suas casas”, relatou.

Segundo ele, as crianças do sexo masculino, com mais de cinco anos, eram separadas e colocadas juntos do quartel, onde, para além de receber aulas de alcorão, aprendiam a manusear armas de fogo.

“Eles usam crianças para combater. Era normal ver crianças de 10 anos empunhando armas de fogo”, conta um dos poucos sobreviventes.

Bonamade Machude Omar e outros líderes insurgentes viviam em Mocímboa da Praia

O líder dos terroristas, Bonamade Machude Omar, um dos mais procurados pelas autoridades moçambicanas e estrangeiras, incluindo os Estados Unidos da América, vivia em Mocímboa da Praia, de onde coordenava as acções das restantes bases dos insurgentes.

“Aquele é que é o general dos terroristas, a sua palavra é uma ordem. Foi ele quem comandou a invasão em Palma. Vi-o pela primeira vez em Palma, antes de partirmos para Mocímboa e voltei a vê-lo novamente em Mocímboa numa casa que fui levado para lavar roupa, cheia de armas de fogo novas”, relata a testemunha ocular.

Como chefe máximo, conta a fonte, Bonamade Omar tinha várias esposas e não ocupava uma única casa, para ocultar qualquer pista. “Ele tinha várias esposas, incluindo brancas que ele tinha liberdade de escolher”.

Em Outubro do ano passado, o Presidente da República, Filipe Nyusi chegou a declarar que as Forças de Defesa e Segurança haviam abatido a liderança dos terroristas e se suspeitava que nessa leva estava Bonamade Omar, entretanto a fonte e outros concidadãos com quem foi liberto pelos terroristas colaboraram com as autoridades para o esclarecimento de que ainda estava vivo.

A nossa fonte, segundo apurou o Evidências, era uma espécie de Governador e líder militar cumulativamente, em Mocímboa da Praia, orientava as reuniões com os militantes à calada da noite, que, geralmente, aconteciam na zona do BCI, próximo à rotunda.