A força do indivíduo e a fraqueza das organizações. Cristiano Ronaldo e as dívidas ocultas

OPINIÃO

Luca Bussotti

Alguém poderá dizer que entre o processo que está decorrendo nesses dias em Maputo sobre as dívidas ocultas e a saída de Cristiano Ronaldo da Juventus nas últimas horas do mercado não existe nenhuma semelhança. Em boa verdade, se trata de dois casos distantes como temática, interesse público e implicações. Entretanto, há um elemento comum que pode ser identificado, se vistos sob o ponto de vista de uma simples análise organizacional e comportamental. Ambos dizem respeito à superioridade do indivíduo (e dos seus interesses) relativamente às organizações a que pertenciam e das quais recebiam o necessário para viver. Vamos começar com Cristiano Ronaldo.

A Juventus comprou Ronaldo há três anos, gastando quase 100 milhões de euros. Eram os tempos pré-COVID, e comprar aquele que era considerado como o melhor jogador do mundo parecia uma boa estratégia para alcançar o objectivo desta equipa italiana: ganhar a Champions League. O que, depois, não se tem verificado, apesar dos 101 golos do Ronaldo com a camisola preta e branca. O que importa aqui destacar tem a ver com a maneira como Ronaldo saiu da Juventus. Alguns entre os bem-informados já sabiam das intenções de Ronaldo de sair do clube italiano depois da sua eliminação por mão do Porto da Champions League, em dois jogos em que Ronaldo foi provavelmente o pior da sua equipa. Estamos a falar de Março deste ano… Entretanto, Ronaldo continuou a dizer que queria honrar seu contrato com a Juventus, cujo término estava previsto para o próximo ano. Assim foi ganhando tempo com os Europeus, depois com as suas merecidas férias, e finalmente voltou a treinar com a Juventus, disputando a última meia hora no domingo passado, na primeira partida da Liga italiana deste campeonato. Depois, de repente, seu agente, Jorge Mendes, se precipitou a Turim (a cidade da Juventus), informando a sociedade de que o seu ilustre assistido tinha decidido de ir embora, faltando cinco dias para o fim do mercado dos jogadores (último dia sendo 31 de Agosto). Nesta postura, qualquer opinião se tenha do Ronaldo jogador, é evidente um total desprezo para com uma equipa que cada ano lhe paga 30 milhões de euros e que, por causa da sua tardia decisão, foi obrigada a reinventar sua estratégia para redesenhar um ataque órfão do seu goleador muito em cima da hora.

Mas é preciso considerar também a postura da Juventus: um dos clubes mais prestigiados e titulados da Itália e da Europa, com um estilo inconfundível, que se deixa levar até praticamente o último dia do mercado das incertezas (ou birras) do seu campeão. Uma situação que, em outros tempos, teria sido inimaginável, pois, na Juventus, a causa comum sempre prevaleceu nas questões individuais. Com Ronaldo esta tradição se quebrou, enaltecendo a vontade de um só sujeito, contra os interesses colectivos do clube.

Vamos voar agora para Moçambique e o escândalo das dívidas ocultas. Na primeira semana do processo, os arguidos que fizeram seus depoimentos deixaram transparecer um elemento comum: apesar do projecto de defesa da costa e dos outros territórios, fluviais e lacustres de Moçambique, o que depois sobressaiu foi o interesse individual de todos os envolvidos no maior caso de corrupção contra o Estado que a África recorde. Diante das tentações da Privinvest e das outras sociedades internacionais parceiras das instituições moçambicanas, não houve ninguém que se perguntou o que estava a fazer, e a quem é que estava a roubar aquele montão de dinheiro que devia entrar no seu bolso. Até um deles queixou-se por ter recebido apenas um milhão de dólares…Homens e mulheres, funcionários ministeriais e agentes do SISE, técnicos e políticos, todos estes não tiveram o mínimo receio em delapidar o já mísero património público, em benefício próprio. Assim como a Juventus dos anos 1980 e 1990 nunca teria permitido a um Cristiano Ronaldo de colocar seus interesses pessoais acima dos do clube, da mesma forma Samora Machel (símbolo de um Estado não perfeito, mas um pouco mais ético do que o actual) nunca teria deixado que todo o aparelho do Estado envolvido numa operação séria de tutela e defesa do território nacional – a partir, pelos vistos, dos seus máximos representantes – abdicasse à sua função de servir o povo, preferindo servir-se deste para cuidar de interesses próprios. Em suma, em poucas dezenas de anos algo deu errado, em termos de tutela do interesse público, a todos os níveis…

É neste sentido que existem semelhanças entre dois casos em aparência tão distantes e diversos: as organizações, sejam elas públicas ou privadas, são consideradas como meras alavancas para ganhar fama e dinheiro, desrespeitando quem, na verdade, as alimenta diariamente: no caso da Juventus os seus adeptos, no caso do processo das dívidas ocultas o povo moçambicano. Se esta tendência não parar haverá muitos mais casos como o de Cristiano Ronaldo ou, muito pior, das dívidas ocultas moçambicanas.