Patrimónios históricos abandonados na Cidade de Maputo

SOCIEDADE
  • Praça de Touros e Vila Algarve cedem à pressão do tempo

O país celebrou, este ano, 46 anos da independência nacional, um marco que assinala não só a libertação da terra e dos homens, como também a reversão do património para o Estado moçambicano. Desde 1975, a cidade de Maputo, passou por constantes transformações. Aos poucos novos arranha-céus com arquitectura moderna vão ganhando forma, ao mesmo tempo que um vasto património histórico e cultural, herdado do colonialismo, vai cedendo à pressão do tempo. Nesta edição, o Evidências trás as marcas da Praça de Touros e da Vila Algarve, duas ruínas coloniais que estão a degradar-se e os seus espaços hoje são albergues de malfeitores e comerciantes.

Paulo Tivane

Para quem passa pela Av. Acordos de Lusaka ou que esteja próximo à Praça da Paz, chama, de longe, a atenção um enorme elefante branco, já a ceder à pressão do tempo, mas que mantém a sua imponência, enquanto, pessoas aos milhares esfregam-se às suas paredes de onde tiram sustento para si e para as suas famílias.

Trata-se da monumental Praça de Touros, localizada na Cidade de Maputo, no bairro de Malhagalene B, Distrito Municipal, KaMpfumu,  bem em frente a Praça da Paz.

Inaugurada há 66 anos, concretamente a 31 de Agosto de 1955, pelo então presidente de Portugal, Francisco Higino Craveiro Lopes, a Praça de Touros foi construída em homenagem aos portugueses fanáticos de Lourenço Marques e também em homenagem aos matadores de touros.

Daquele recinto, há quem ainda guarde, hoje, na memória, algumas touradas e outros eventos desportivos, mas está longe de ser a sombra do que já foi. Não há um relato fiável de quando é que o mesmo caiu no esquecimento, contudo fontes entrevistadas pelo Evidências garantem que o espaço esteve conservado até bem pouco depois da independência.

Nos dias actuais, o local tem uma imagem diferente da dos anos 50, quando foi construído. O letreiro que havia sido colocado na parte superior da entrada do edifício com a denominação do local está totalmente deteriorado. Os pilares e as bancadas estão degradados, enquanto as paredes e a pintura estão a sofrer alguma corrosão.

Longe da imagem do que já foi, hoje, os acessos e os compartimentos da Praça de Touros são albergue dos sem tecto, consumidores de drogas e malfeitores que se refugiam no local logo depois de perpetrarem assaltos na via pública, sobretudo no período nocturno.

De dia, a área exterior transforma-se num mercado informal, onde é possível comprar um pouco de tudo, para além de funcionarem ali oficinas de reparação e venda de acessórios de viaturas, causando enormes enchentes.

Foi ali onde deu os primeiros passos o primeiro toureiro negro africano

No entanto, nos seus tempos áureos, a história que se podia contar da Praça de Touros é outra. O lugar que hoje é um escombro acolheu espectáculos de corrida de touros, nacionais e internacionais, que consistiam em perseguições de competidores com touros dentro da arena, até que os mesmos ficassem cansados o suficiente para serem segurados pelos cornos e depois serem executados.

Foi naquele local onde foi forjado o primeiro toureiro negro africano por volta de 1960, de nome Ricardo Chibanga, que vivia no bairro de Maxaquene, e que viajou pelo mundo fazendo touradas.

“É um local que tem muita história para contar”, enfatiza Matias Sigauque, um vendedor de acessórios de viaturas no local, residente do bairro Polana Caniço A, que mostrou ter conhecimento sobre o local onde ganha a vida há quase 20 anos.

“Aqui aconteciam espectáculos de corridas de touros. Foi aqui onde surgiu o Ricardo Chipanha, cuja bravura fez com que fosse apelidado pelo colono e pelo mundo fora como ‘El Africano’, ‘o primeiro toureiro negro’ ou o ‘único matador africano’. Em termos gerais, é um local muito significativo na nossa história e tinha que ser preservado”, disse Sigauque, de 56 anos de idade.

Por seu turno, Anselmo Dimande, que diz não ter muita informação sobre o local, lamenta o facto de a praça estar no esquecimento, apesar da sua importância como património histórico e cultural.

“É lamentável ver uma infra-estrutura tão importante como esta votada ao esquecimento. Ouvi várias histórias bonitas sobre este local e acredito que devia ser preservado, para que as gerações futuras possam vir estudar o passado do nosso país”, sugeriu Dimande.

Vila Algarve: a memória da opressão da PIDE a sucumbir ao tempo

Engana-se quem pensa que a falta de preservação do património histórico e cultural só termina na Praça de Touro. Outro local não menos importante na história da luta contra o regime colonial português em Moçambique que está a sucumbir à pressão do tempo devido a falta de cuidados é a Vila Algarve.

O imponente edifício construído em 1934, localiza-se no bairro Central, na esquina entre as Av. Mártires da Machava e Av. Ahmed Sekou Touré, na Cidade de Maputo. Na era colonial funcionava como sede da Polícia Internacional de Defesa de Estado (PIDE) onde, segundo reza a história, tiveram lugar interrogações, torturas a nacionalistas moçambicanos que lutavam pela libertação do país, foram detidos no local o arista plástico Malangatana Valente Ngwenya e o poeta José Craveirinha, entre outras figuras importantes na luta contra dominação colonial.

Atualmente, a Vila Algarve está completamente degradada e tornou-se albergue dos moradores de rua e dos consumidores de drogas. O cheiro nauseabundo da urina e fezes denuncia, de longe, o estado de abandono do local, localizado curiosamente num dos bairros nobres da cidade de Maputo.

“Este local é nauseabundo. Não sei por que razão o município não dá outro destino a este lugar que dá um mau aspecto ao centro da cidade”, afirmou Johane Magaia, um munícipe interpelado pela nossa equipa de reportagem em frente da Vila Algarve.

Zacarias Novela, de 62 anos de idade, residente num dos edifícios a escassos metros da Vila Algarve, é um dos poucos interpelados pelo Evidências que conhece a história do local. Este lamentou o facto de o governo não direccionar qualquer tipo requalificação dada a sua história na luta contra a dominação colonial,

“Neste local foram detidos, oprimidos e executados pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) alguns daqueles que lutavam pela libertação deste país. Só para dar um exemplo, Malangatana e José Craveirinha foram detidos e oprimidos aqui e tantas outras pessoas. Alguns instrumentos usados para opressão e tortura estão dispersos no país, mas o edifício em si contém traços que ainda podem ser reaproveitados. É um local que conserva alguma memória da dominação colonial e da nossa resistência como moçambicanos, mas o governo não se importa em imortalizar esse local para que sirva de um contador de histórias para as novas gerações”, lamentou Novela.

Em 2008 foi anunciado que o local passaria a funcionar como sede da Ordem dos Advogados de Moçambique, tendo sido retirados de forma compulsiva todos que habitavam no local. Após essa actividade emergiu, no local, um murro de vedação, não tendo observado outra requalificação ao longo dos anos.

No ano de 2009, Armando Guebuza, Presidente da República em exercício na altura afirmou, no decurso de um dos debates III Sessão Comité Central, que o local viria a ser transformado num Museu de resistência colonial.

Esta posição viria a ser novamente vincada, em 2015, por Eusébio Lambo, então ministro dos Combatentes, que afirmou que a Vila Algarve seria requalificada e transformada em Museu, devido ao seu papel na luta contra a dominação colonial.

“Este local deve ser preservado e requalificado para que sirva de ensinamento e inspiração para as presentes e futuras gerações”, afirmou Lambo. No entanto, desde então o edifício ainda não foi qualificado e voltou a ser albergue de malfeitores.

Município de Maputo trancado em copas

O Evidências contactou o Município do Maputo, através do director do Gabinete de Comunicação e Imagem, Mussa Momade, tendo prometido encaminhar-nos ao pelouro e á pessoa responsável pela manutenção dos locais históricos e monumentos da urbe. Contudo, ao longo de três semanas foi contando várias versões e, hoje, nem sequer atende as nossas chamadas.

No caso da Praça de Touros, o Evidências sabe que o município prometeu, no ano passado, durante uma visita do secretário de Estado de Desportos, Carlos Gilberto Mendes ao empreendimento, requalificar aquele imponente monumento, mas de lá para cá nem água vai, nem água vem.

Na ocasião, o vereador de Educação e Desporto no município de Maputo, Edmundo Ribeiro garantiu a jornalistas que haveria um trabalho conjunto com a Secretaria de Estado de Desportos, para transformar aquele parque em um recinto desportivo e atractivo para os munícipes da Cidade de Maputo.