O julgamento das dívidas ocultas e uma audiência em clara cognição preguiçosa

OPINIÃO

Por: Dionildo Tamele

Vivemos hoje num turbilhão. De todos os lados e por todos os meios recebemos uma avalanche de informações e opiniões. O modo como conduzimos nossas vidas depende do que acreditamos ser verdade e de que verdades adoptamos como legítimas e valiosas. Mas isto tem se tornado muito árduo, nesses tempos da “pós-verdade” e de “factos alternativos”, em que o bom senso é ignorado, os factos são descartados ou manipulados, e a mentira tem sido uma estratégia bem sucedida na política e nos negócios. Números fantasiosos são divulgados, declarações, atitudes e actos são falsamente atribuídos a pessoas públicas. Plataformas como Facebook, Whatsapp favorecem a replicação de boatos e mentiras.

Poucas pessoas se dão ao trabalho de verificar a veracidade das informações antes de disseminá-las na internet. O pensamento crítico e bom senso foram substituídos pelo apertar apressado de uma tecla, um comportamento explicado na teoria da “cognição preguiçosa”, criada pelo psicólogo e prémio nobel Daniel Kahneman, para explicar as atitudes de pessoas com tendência a ignorar factos, dados e eventos que obriguem o cérebro a um esforço adicional.

Aceitar opiniões alheias sem examinar seus méritos significa entregar levianamente nosso destino nas mãos de outras pessoas, sem ao menos conhecer suas qualificações, suas intenções e, especialmente, quais as suas consequências. Como diria um dos mais influentes matemáticos, filósofo, ensaísta, historiador e lógico que viveu no século XX, Bertrand Russel em todos os assuntos, é sempre saudável colocar um ponto de interrogação naquelas coisas que você há muito tempo tem considerado como certas.

É ao rubrico da interrogação, do Bertrand Russel, que nós propomos analisar os últimos acontecimentos, que estão a influenciar a dinâmica política e económica do país, com destaque, para o julgamento do processo de querela número 18/2019-C, que está a decorrer na província de Maputo, no Estabelecimento Penitenciário de Máxima Segurança, vulgo B.O.

O comportamento que se vê hoje na sociedade moçambicana é também explicado pela teoria da agenda setting, formulada pelos alemães Maxwell McComs e Donald Shaw na década de 1970. A hipótese básica desta teoria é que os consumidores de notícias tendem a considerar mais importantes os assuntos que são veiculados com maior destaque na cobertura jornalística. O substrato desta teoria conduz-nos a uma hipótese que na pretérita semana foi ratificada pelos meios de comunicação social moçambicana, nomeadamente, a imprensa escrita, radiofónica, televisiva e as demais tais como as redes sociais, com incidência, para o Facebook, Whatsapp e o Instagram.

Que ilações a sociedade deve tirar deste julgamento e da sua participação na vida política do país? A banalidade e mediocridade da nossa cidadania está a céu aberto, não só em Moçambique, mas em outras partes do universo. Alguns moçambicanos, que são cultores das ciências sociais e humanas, discutem termos jurídicos, políticos, para não esquecer dos mais medíocres que falam da formação dos arguidos, juízes e advogados, em termos de nomes das instituições do ensino superior, como se isso fosse a coisa mais importante.

É coisa para dizer que estamos num país de faz-de-conta, onde desde o mais escolarizado ao menos nutrido na ciência ninguém tem consciência sobre o exercício de cidadania.

Não são os nomes das universidades que formam o corrupto, os actos de corrupção estão enraizados na sociedade moçambicano, desde o período colonial, até aos dias que correm.

Ngoenha no seu livro Samora Machel o Ícone da Primeira República, ilustra de forma clarividente, que não são os lugares que constroem, mas os homens que constroem os lugares no meio de sacrifício. Isso para mostrar que é um debate falso que se pretende criar cunhando certos comportamentos nas instituições de ensino.

Isso só mostra o quão a prática da cidadania no país é medíocre e em constante regressão, mesmo com pessoas formadas. Estamos a colher os frutos de uma educação que está além do desejado, que não consegue contribuir para desenvolvimento e muito menos para formar uma comunidade política, onde os cidadãos conhecem os seus direitos e deveres.

Havendo necessidade de irmos à França para visitarmos Montesquieu, na sua célebre obra o Espírito das Leis, onde mostra claramente a separação dos poderes nomeadamente; o Executivo, Legislativo e o Judicial. E como se comportam. Em Moçambique todos os poderes estão subordinados ao poder político. O que se pode depreender é que o Estado moçambicano é uma monarquia absolutista, que se finge de ser uma democracia.

Esta minha inquietação advém do simples facto de o Presidente da República estar ser mencionado constantemente nesse julgamento, o que mostra que os actos de corrupção estão mais do que nunca institucionalizados. É mais do que imprescindível que o dito empregado do povo se dirija ao seu patrão e justifique aos mais de 30 milhões de habitantes qual foi, na verdade, o seu papel na contratação das dívidas ocultas, sem esquecer de dizer onde começa e termina a sua responsabilidade tanto como ministro da Defesa, assim como na qualidade de coordenador do Comando Operativo, que liderou o processo de contratação das dívidas ocultas.

É preciso salutar que todos os moçambicanos estão a acompanhar o teatro com maior audiência, mas não deixam de esconder a nossa mediocridade, ao focar-se tão-somente em futilidades, por isso não tenho dúvidas de que os moçambicanos precisam encontrar uma forma lúcida de participar nos assuntos do país.

Platão e Aristóteles foram os primeiros pensadores que determinaram o sentido da política enquanto um móbil estritamente humano, de tal forma que Aristóteles (2007: 16) considerava que é da natureza do homem a animalidade política, dado que este por natureza tem a necessidade e disposição para viver em sociedade. E ainda adverte Aristóteles que diferentemente dos outros animais, o que faz do homem um animal verdadeiramente político está no manuseio da palavra

Entretanto, todas as perspectivas aqui colocam em dúvida até ideia da racionalidade do homem, nas primeiras duas semanas deste julgamento não conseguimos ver no seio da sociedade moçambicana – e o que é mais estranho é o facto até pessoas que deveriam elucidar para os leigos nas ciências sociais e humanas não foram capazes de construir – um argumento que pudesse conduzir as massas.

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