A sedentarização dos movimentos sociais urbanos

OPINIÃO

Por: Luca Bussotti

No século passado, principalmente no contexto ocidental, os movimentos sociais tinham características muito bem definidas: a sua base social era constituída por indivíduos pertencentes à classe operária e suas reivindicações assentavam em aspectos materiais, tais como o aumento dos salários ou a diminuição do horário de trabalho. Além disso, geralmente tais movimentos estavam ligados a uma ideologia esquerdista, ancorada em sindicatos e, por vezes, partidos políticos de matriz marxista.

Na Europa e nos Estados Unidos, tais movimentos iniciaram a misturarem-se com outros, nomeadamente de tipo estudantil, a partir do Maio Francês de 1968, e, em seguida, na década de 1980, quase que desapareceram. Foram então membros da classe média e alta que tomaram a dianteira de movimentos sociais mais globais e menos ligados às exigências materiais. Paulatinamente, os sindicatos esqueceram-se das classes trabalhadoras mais baixas, com empregos precários e incapazes de se organizarem em movimentos complexos…O resultado foi a desafeição das lutas e das reivindicações, e o aparecimento de novas simbologias e ideologias, geralmente da extrema-direita, como visível hoje na Europa e nas Américas.

Tal transformação dos movimentos sociais, a nível internacional, foi observada e redefinida por Jurgen Hambermas, que introduziu a definição de Novos Movimentos Sociais. Suas lutas se concentram na extensão dos direitos humanos a “minorias”, por exemplo as de tipo sexual, como os LGBT, ou étnicas, tais como os afro-americanos ou os afro-brasileiros, e em formas mais directas e inclusivas de democracia, com a valorização da dimensão do local e do comunitarismo. Muitas experiências, nos últimos anos, foram registadas a este propósito no continente europeu e americano, ao passo que, em África, parece estar a assistir-se a uma situação relativamente diferente.

Aqui, os movimentos sociais que conseguem alcançar os resultados melhores são os que estão embasados no campo. Exemplos concretos podem ser retirados da experiência da África do Sul, de Moçambique, da Namíbia, da Guiné-Bissau e de muitos outros países, de frequente coordenados por grandes movimentos sociais internacionais, tais como La Via Campesina. E suas características são claras: envolvimento das classes sociais mais baixas nas reivindicações, lutas pelo direito à terra, privilegiando, portanto, a dimensão materialista, uma ideologia genericamente anti-capitalista e solidária.

Foi assim que, por exemplo, em Moçambique a campanha do “Não ao ProSavana” conseguiu vencer uma luta que parecia perdida, obrigando o governo a fechar o programa, apesar do envolvimento de parceiros institucionais, tais como Brasil e Japão. E foi assim que, na África do Sul, a cavalheiro entre os anos Noventa do século passado e a primeira década do actual o Landless People’s Movement conseguiu um espaço significativo de manobra, com resultados também importantes.

O que está a acontecer no meio urbano é história diferente. O caso de Moçambique é elucidativo neste sentido. Depois das grandes manifestações de protesto de 2008 e 2010 em Maputo e na Matola, e depois da última grande mobilização popular organizada por Alice Mabote e a Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, em 2013, contra os raptos e a guerra entre o governo e a Renamo, com a participação do rapper Azagaia, o cenário tem mudado por completo. E novos movimentos sociais formaram-se também em Moçambique, no meio urbano, com uma característica bem visível: face à aumentada capacidade de controlo das cidades por parte do poder central (o que não aconteceu no meio rural), os movimentos sociais urbanos se retiraram da rua, ficando principalmente nas redes sociais e adquirindo uma dimensão em prevalência individual.

É com essa dimensão que, hoje, temos de lidar: ruas desertas e redes sociais entupidas, com personalidades de renome e de elevado potencial académico (ver os vários Nuvunga, Ngoenha, Regina Charumar, além de rappers engajados e outros e outras activistas) tentando dar suas contribuições para melhorar a reflexão colectiva em volta de questões geralmente ligadas ao âmbito post-materialista, tais como meio ambiente, direitos humanos, democracia, ética pública. Tal mudança, em Moçambique, assim como em grande parte da África subsaariana, está provavelmente ligada ao tipo de espaço político que um governo cada vez mais autoritário deixou: as ruas não devem ser mais palco de manifestações, forçando, portanto, os críticos do regime a encontrar outras formas de expressar suas opiniões. Uma clara demonstração disso é que, quando o CDD de Nuvunga tentou organizar uma marcha contra os aumentos salariais dos funcionários parlamentares, ainda este ano, os 50-100 estudantes que protagonizaram a manifestação (de rua) em Maputo, foram dispersados pela polícia…Mas as críticas contra tais medidas, assim como o acompanhamento constante do processo contra os arguidos das dívidas ocultas continuam incessantes, mas sem demonstrações de “indignados” que, em outras latitudes (Itália dos anos Noventa com “Mãos Limpas” ou a Espanha mais de recente) encheram as ruas das respectivas capitais.

Trata-se, em suma, de um processo, provavelmente forçado, de sedentarização dos movimentos sociais urbanos, paralelo à sua individualização e ao seu uso quase que exclusivo das redes sociais (ou, por vezes, da media tradicional). Um cenário, este, diferente daquilo que está a ocorrer no campo, onde as lutas trazem configurações típicas de uma sociedade mais preocupada com o “primum vivere” (como diriam os latinos) e, provavelmente por isso, menos individualizadas, menos informatizadas e mais atentas a ocuparem espaços físicos.

Uma vez que o objectivo último de qualquer movimento social é a mudança, fica difícil prever se estes novos movimentos de activistas sociais urbanos terão o poder de levar a alguma transformação: que, seja dito aqui de forma clara, não implica necessariamente (assim como não exclui) uma mudança política no país, mas sim uma consciência diferente e mais madura de olhar para aquilo que acontece na esfera pública, a vários níveis.