Discriminação positiva estimula inserção da mulher no mercado de emprego

SAÚDE SOCIEDADE

De acordo com dados do último Censo Populacional de 2017, a taxa de dependência em Moçambique é de 99 %, o que significa que uma em cada 100 pessoas é dependente, sendo que as mulheres representam uma fasquia considerável. No meio de desafios para garantir a igualdade do género, a descriminação positiva tem sido a bóia de salvação para muitas mulheres acederem a vagas de emprego. Foi assim com Cíntia Cumbe, de 24 anos, que, após vários anos desempregada, foi encorajada a concorrer quando leu um anúncio que encorajava candidaturas de mulheres e hoje segue o caminho da sua própria independência financeira.

Neila Sitoe

O conceito de discriminação positiva refere-se às medidas destinadas a prevenir ou atenuar mecanismos de discriminação. Permite discutir as políticas públicas que, baseadas em uma igualdade formal ante a lei, têm contribuído para fortalecer as desigualdades reais entre grupos sociais. Essas medidas supõem um tratamento desigual de modo a igualar as oportunidades de grupos desfavorecidos, como quando instituições públicas e privadas incentivam a candidatura de mulheres a certas vagas ou cargos como forma de empoeirá-las.

De acordo com o INE, 2019, a estrutura demográfica do país é bastante jovem, com uma idade mediana de 17 anos de idade e uma esperança média de vida de 54 anos. Metade da população encontra-se em idade activa, e três quintos desta é classificada como economicamente activa e ocupada. Cíntia Cumbe, de 24 anos de idade, faz parte deste grupo, mas tal como o de muitos jovens moçambicanos, o seu caminho foi marcado por muitos percalços.

“Concluí o nível médio do ensino geral em 2014, mas como quase todo o jovem, sonhava em trabalhar para continuar os meus estudos, mas infelizmente não foi como planeei, e como não tinha experiência profissional, nem se quer podia enviar o meu CV, porque muitas vagas exigiam experiência profissional. Decidi, então, concorrer para o Instituto de Ciências de Saúde para fazer o curso de estatísticas de saúde e consegui admitir”, disse.

Cíntia relata que no final do curso foi encaminhada para um estágio numa unidade sanitária, mas para o seu azar não conseguiu afectação, iniciando a partir daí uma incessante busca por vagas de emprego em diversas plataformas. Foi então que numa delas viu uma vaga em que se encorajava a candidatura de mulheres.

“Ter visto que tinham preferência por mulheres deu-me mais força e animo para concorrer, sem esquecer o facto de poder ter minha independência financeira. Felizmente fui admitida para a vaga de inquiridora no INE”, afirmou a fonte acrescentando que passou por todos os processos de selecção e estranhou o facto de terem se candidatado poucas mulheres.

É preciso que as mulheres despertem para a independência financeira

Márcia Gonçalves, de 22 anos de idade, residente no bairro Patrice Lumumba na Cidade de Xai-Xai, província de Gaza, formada em contabilidade, conta que também foi estimulada a concorrer após ver a frase “encoraja-se a candidatura de mulheres”.

“Em 2018 terminei o meu curso e surgiu uma vaga na mesma instituição, onde estava claro que havia preferência por mulheres, mas um dos requisitos para poder concorrer era ter culminado o curso com boas notas. Concorri e após todas as fases de selecção fui apurada”, conta Márcia, destacando que sempre foi seu sonho alcançar independência financeira.

“Há muitas instituições governamentais e não governamentais que encorajam a integração da mulher em varias áreas de trabalho, para poder empoderá-las e fazer com que participem economicamente no país, mas as mulheres devem despertar rumo à independência financeira, porque muitas ainda dormem”, defende.

As mulheres precisam de educação financeira  

Nélio Zunguza, coordenador geral da Associação dos Estudantes Finalistas Universitários de Moçambique (AEFUM) diz que Moçambique, em termos de acesso às oportunidades de emprego para mulheres, tem sido um país notório, mas destaca que grosso das mulheres economicamente activas estão envolvidas em sectores agrícolas e de agro-indústria, necessitando ainda de uma educação financeira para saberem gerir os seus rendimentos.

“As mulheres é que movimentam mais dinheiro, mas devido aos factores socioculturais acabam tendo que deixar os seus maridos gerirem o seu dinheiro, o que faz retardar o seu empoderamento. Mesmo nas zonas rurais é possível notar que são as mulheres que mais se dedicam no cultivo de terras actualmente”, afirmou Zunguza.

Sobre a descriminação positiva no mercado de trabalho, Zunguza destaca a experiência da sua organização, que procura sempre equilibrar o género quando se trata de questões de contratação ou oportunidades para o acesso ao mercado de emprego.

“Por exemplo, actualmente, fazem parte da presidência da coordenação geral 13 pessoas, das quais a maioria são mulheres (7) que dirigem projectos com dinamismo, proactividade e muita criatividade, o que mostra que as mulheres podem, sim, gerir ou coordenar projectos”, frisou.