A morte de um marginal útil à democracia sem ideias

DESTAQUE EDITORIAL

A sociedade continua dividida quanto à morte de Nyongo. É que ninguém deve legitimar a vida de um marginal (?) que, de armas em punho, viu no ataque às pessoas indefesas uma das formas de se fazer ouvir. Dezenas de inocentes morreram graças às suas ordens, e hoje a sua causa foi enterrada, e o politicamente correcto empurra-nos a discutir, não as motivações que o levaram a residir nas matas, mas o alvo das suas balas; a olhar para os meios cruéis usados e nunca questionar a sua causa; as lojas saqueadas, mas não o que leva um pai a abandonar o conforto da sua família em defesa de marginalizados.

Por outro lado, é insultuoso que alguém pense que em Moçambique é possível se fazer ouvir sem constituir ameaça à Frelimo. E as únicas formas de colocar a Frelimo em sentido é apontando arma ou negar lhe dinheiro. Jean Boustani pagou USD 10 milhões quando queria que a Frelimo o vendesse o país. Os doadores cortaram o orçamento do Estado quando queriam o julgamento das dívidas ocultas, mas Nyongo tinha apenas armas, quando queria um DDR que não atendesse apenas as ambições políticas de Filipe Nyusi e Ossufo Momade. E nós que não temos dinheiro e não podemos escolher não pagar impostos não temos opções para cobrar estradas de qualidade, portagens que ignoram qualquer engenharia que orienta suas construções e atendem a agenda de um governo predador, um preço justo de combustível, um transporte público digno, um serviço de saúde aceitável e um governo que privilegia mais competência no lugar de nepotismo.

Sem armas de Nyongo e nem dinheiro dos doadores, ninguém deve sonhar com o fim dos raptos, com uma garantia de segurança, ninguém deve pedir um atendimento digno nas instituições públicas, onde já nem importam as armas de Nyongo e nem os dólares do ocidente, mas o verde de refresco.

Nessa causa, como sempre o fizeram os políticos, Nyongo cometeu o pecado de falhar os seus alvos, um pecado que se reflecte nos bipartidários que monopolizam a nossa paz e liberdade e roubam-nos o direito de sonharmos ser moçambicanos realizados em qualquer dos domínios da vida, como o empresarial e o político, sem cartão de qualquer partido, e nem o aval da Frelimo.

Nyongo falhou o seu alvo, a culpa foi sempre da Renamo e Frelimo. Quando ele foi atacar as pessoas indefesas, herdou isso da Renamo, aquela Renamo que foi ensinada pela própria Frelimo que é impossível uma política que se limite a debater ideias, a vender seus projectos políticos, sem o barulho das armas-garante.

Com a morte de Nyongo, que veio denunciar de novo a farsa política, com grupos a procurar politizar tudo em busca de qualquer protagonismo naquela morte, que morra também aquele Moçambique sem agenda, sem rumo, onde os raptos afugentam os empresários e a corrupção o profissional.

Tombou um soldado marginal útil à democracia sem ideias e nem debate, que a única coisa que soube fazer foi ganhar respeito e não renunciou a dignidade. Vale mais essa dignidade de luxo, do que a inércia. Mas ele falhou quando fez dos indefesos a sua arma de canhão, que chegue o dia em que os políticos possam escolher o próprio campo de batalha sem sacrificar inocentes.

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