Já começam a se fazer sentir os impactos da subida do custo de combustível

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  • Encurralados, transportadores e comerciantes ameaçam agravar preços

O preço dos produtos de primeira necessidade nos principais mercados da capital do país já começam a registar um ligeiro agravamento, efectivamente uma semana depois do anúncio da subida do preço do combustível, na ordem de 05 a 22 por cento, o que poderá implicar a degradação da difícil vida dos moçambicanos, que quando se encontravam a sair da crise da dívida pública foram encontrados em contrapé pela pandemia da Covid-19, que empurrou milhares para o desemprego.

Texto: Paulo Tivane & Duarte Sitoe

A Organização dos Trabalhadores de Moçambicanos – Central Sindical (OTM – CS) considera que, nas condições actuais, a cesta básica ideal para garantir o mínimo na mesa de qualquer família moçambicana está cifrada em 24 mil, contudo o salário mínimo é de 4.691 meticais.

De acordo com a OTM, a cesta básica inclui arroz, farinha de milho, feijão manteiga, amendoim, peixe carapau, vegetais e legumes, pão, óleo vegetal, açúcar amarelo, petróleo de iluminação, sabão bingo, transporte (duas deslocações diárias) e carvão.

O novo salário mínimo nacional não correspondeu às expectativas dos trabalhadores que, mais uma vez, se sentiram marginalizados pelo Governo. Enquanto os moçambicanos digeriam a nova tabela salarial, que aprovou aumentos de 1.5% a 5%, foram surpreendidos com o agravamento do preço de combustíveis, na ordem dos 7% a 22%, o que já está a inflacionar o preço dos bens de primeira necessidade.

Na sessão de Informações do Governo no Parlamento, o ministro da Economia e Finanças de Moçambique, Adriano Maleiane, desdramatizou o que já é motivo de preocupação dos moçambicanos, referindo que o aumento do preço dos produtos petrolíferos ainda está abaixo do que as regras de cálculo prevêem.

“O preço da gasolina podia ser 75 meticais o litro, em vez do aumento para 69 em vigor, caso fosse aplicado o que estava na lei”, disse Maleiane, para depois justificar que o aumento, visa “fazer as coisas de forma gradual até estarmos de novo na fórmula e funcionar como tínhamos combinado, entre Governo e gasolineiras”.

O titular da pasta da Economia e Finanças no Governo de Filipe Jacinto Nyusi explicou ainda que o ajustamento dos preços dos combustíveis vinha sendo adiado devido aos prejuízos que a pandemia da Covid-19 causou na economia nacional.

“Achámos que não devíamos aumentar mais o custo de vida, mas agora já não há como aguentar, senão corríamos o risco de não termos combustível, e tudo estaria parado. Então, foi necessário rever os preços, e mesmo assim tomou-se o cuidado de não repercutir a 100% o que a fórmula diz”, reiterou, sem esclarecer o rumo de futuras atualizações.  

Bancadas parlamentares contestam

As bancadas da oposição, Renamo e MDM, mostraram-se contra o agravamento do preço do combustível, que vai, sobremaneira, sobrecarregar os moçambicanos, visto que o custo de vida também vai subir.

Entretanto, Maleiane adiantou que o Governo, ao invés de subsidiar as gasolineiras, está a privilegiar os transportadores, uma informação, no entanto, não confirmada pela Federação dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO), que já veio a público ameaçar agravar os preços dos transportes de passageiros e de carga para compensar o aumento do custo.

“O apoio chega aos utentes dos transportes, ao invés de beneficiar a todos os que atestam, inclusivamente quem dispensa ajudas. Por outro lado, o princípio é de fortalecer o sector privado e familiar da economia por forma a torná-los mais preparados para enfrentar choques externos”.

Reagindo ao reajuste do preço do combustível, o porta-voz da bancada parlamentar da Renamo, José Manteigas, apelidou de insulto o novo preço do combustível, uma vez que o ajustamento acontece depois do Governo ter anunciado a subida de apenas cinco por cento do salário mínimo nacional.

“Os moçambicanos não merecem viver eternamente debaixo da fome, por conta da má-gestão dos impostos e da coisa pública, que impedem a poupança de recursos. Este aumento veio agravar mais o penoso custo de vida que os moçambicanos suportam, diariamente, num país onde o índice de desemprego é altíssimo e assustador”, disse.

Para o maior partido da oposição em Moçambique, esta decisão vai transformar a vida dos moçambicanos num autêntico pesadelo, pelo facto deste agravamento se reflectir no custo de vida elevado, daí que exige ao governo a encontrar meios para subsidiar os produtos de primeira necessidade e o sector de transporte.

“Exigimos ao Governo para encontrar estratégia para subsidiar os produtos de primeira necessidade e o transporte, porque um dos direitos fundamentais da pessoa humana é a alimentação, e o povo paga impostos”, sublinha.

Comer cada vez mais caro em Moçambique

Comer em algumas cidades do país tornou-se uma um exercício com muitas incógnitas. Os maiores centros urbanos registam a cada mês que passa uma subida dos preços dos bens de primeira necessidade. O preço do arroz e outros produtos como o açúcar, óleo de cozinha e sabão, os três últimos, por sinal isentos do pagamento do Imposto do Valor Acrescentado (IVA), tem registado agravamento dos preços.

A subida do preço do combustível já se faz sentir na vida dos moçambicanos. Segundo o que Evidências constatou, em alguns mercados retalhistas, os preços dos produtos de primeira necessidade foram ajustados.

Actualmente, o açúcar castanho, o mais consumido na capital do país, passou de 65 para 70 meticais o quilograma, enquanto a barra de sabão, que antes estava entre os 15 e 17 meticais, agora oscila entre os 22 e 25 meticais.

Com a subida dos preços dos bens tidos como essenciais para a sobrevivência, os cidadãos são obrigados a “apertar o cinto”, uma vez que as despesas básicas chegam a duplicar o salário.

“Quando chegou a vez de ajustar o salário mínimo brindaram-nos com aquela vergonha que vimos. Os produtos continuam a subir. Não é fácil sobreviver perante a este cenário. Tenho que fazer um grande jogo de cintura para gerir o pouco que ganho. O arroz, o óleo, o açúcar e outros produtos estão a subir a cada mês que passa. Só trabalhamos para comer, não há como olhar para outros projectos. A vida está muito difícil”, disse João Massango, de 35 anos, funcionário de uma empresa de segurança privada, para depois acrescentar que “trabalhamos, mas quando chega final do mês são dores de cabeça devido a matemática que temos de fazer para ter o essencial para comer”.

Por outro lado, Florêncio Cumbula, de 44 anos de idade, comerciante no mercado Malanga, não tem dúvidas que quase todos produtos serão reajustados, tendo em conta que são importados e para chegar ao mercado é necessário transporte, que se tornou ainda mais caro desde a última actualização dos preços.

“Temos que ser realistas, não podemos continuar a praticar os mesmos preços. A subida do preço do combustível fez com que o preço dos produtos fosse agravado, onde compramos para revender. Assim sendo, a partir do dia 01 de Novembro vamos ter novos preços”, anunciou.

“Não é fácil viver no meu país,… é complicado viver com a corda no pescoço”

Adérito Machungo

Manuel Uamusse conta que já há muito que vinha fazendo das tripas o coração por causa da Covid-19, mas agora a situação acaba de tomar contornos alarmantes. Teme que nos próximos dias possa ter dificuldade de pôr comida na mesa.

“Agora não comemos o que queremos, comemos o que o dinheiro que temos nos permite comprar. A vida estava difícil, mas depois da eclosão da pandemia do novo coronavírus tornou-se ainda pior. Com o que vendíamos, no passado, conseguíamos fazer um xitique diário que nos rendia um valor suficiente para fazer o rancho no final do mês, contudo, no presente, o dinheiro que podia comprar uma cesta básica limita-se a comprar duas ou três coisas”, Manuel Uamusse.

Por seu turno, Helena Mateus considera que “o Governo sabe que mesmo subindo os preços temos que comprar o arroz e outros produtos. Já não vivemos o que planejamos, fazemos de tudo para sobreviver até onde podemos. No próximo mês não sabemos o que vai subir. Não é fácil viver no meu país, é complicado viver com a corda no pescoço”.

“Estamos a caminho do abismo”, é assim como reage Adérito Machungo, de 26 anos, para quem muitos moçambicanos já tinham a vida dura na sequência da perda do emprego por causa da Covid-19.

Artur Ponja

“Parece que o governo não está nada preocupado com esta realidade que vai alterar prejudicialmente a vida do seu povo, também este governo não nos serve para nada. Eu, por exemplo, trabalho na Cidade da Matola, para lá chegar, tenho que recorrer a três chapas, e a tarifa cobrada é elevada. O que constitui um constrangimento, porque tal dinheiro não tenho, o reajuste salarial não é proporcional para a sociedade e os produtos da primeira necessidade estão caros, por isso urge a necessidade do governo, pelo menos desta vez, procurar estratégias para resolver isso”, concluiu Artur Ponja.