Cleophas Habiyareme diz que Kigali quer motivos para perseguir e atacar opositores de Kagame

DESTAQUE POLÍTICA SOCIEDADE
  • Ao associar o terrorismo aos refugiados em Moçambique
  • TV estatal já está a promover nova lista de cidadãos ruandeses para o abate
  • “Se existe um ruandês ligado ao terrorismo só pode pertencer ao regime de Kigali”

Em 1998, Moçambique reconheceu e concedeu o estatuto de refugiados à então incipiente comunidade ruandesa, no entanto, nos últimos anos o Estado moçambicano tem falhado na sua protecção, permitindo que os seus membros sejam constantemente perseguidos e assassinados por supostos esquadrões da morte do regime de Kigali. Ao Evidências, o Presidente da Associação dos Refugiados Ruandeses em Moçambique, Cleophas Habiyareme, apelou às autoridades governamentais moçambicanas para que não caiam nas invenções do regime de Paul Kagame, que diz que alguns emigrantes ruandeses no país são financiadores da insurgência armada em Cabo Delgado. Se por um lado Habiyame considera que o Executivo e a comunidade internacional devem melhorar o apoio aquela comunidade, por outro denuncia que há uma televisão dos serviços de inteligência do Ruandesa que foi criada com veículo para denegrir, atacar e matar os opositores do braço direito do Presidente da República, Filipe Nyusi.

Duarte Sitoe

Volvidos quase dois meses depois do assassinato de Revocat Karemagingo, empresário e chefe da Comissão de Patrimônio dos Refugiados Ruandeses em Moçambique, as autoridades moçambicanas ainda não se pronunciaram e, tal como das outras vezes, não há nenhum sinal de alguma investigação para o esclarecimento.

A morte de Revocat Karemangingo fez, mais uma vez, soar alarmes sobre a perseguição que os ruandeses têm sido alvo desde o início do ano em curso, em que foram relatados três incidentes num espaço de menos de três meses, dentre os quais o desaparecimento do jornalista Cassien e o rapto por mais de 24 horas do secretário-geral da associação dos ruandeses e seu filho, por agentes da PRM.

Cleophas Habiyareme denuncia que as ameaças e perseguições contra a comunidade ruandesa continuam, perante olhar impávido das autoridades de Maputo, que nada fazem para o esclarecimento dos casos.

“Ainda continuamos aguardando informações sobre o assassinato de Revocat Karemagingo. Os ruandeses estão desesperados porque a perseguição não está a parar e isso começou em Maio com a captura de um emigrante ruandês na Ilha de Inhaca. No meio disso, houve tentativa de sequestro do nosso secretário-geral. No dia 13 houve o assassinato do refugiado ruandês. A situação continua na mesma e nada está feito para a comunidade ter uma vida normal. O medo tomou conta de nós, todos os dias dormimos sem certeza do que será de nós no dia seguinte”, declarou Habiyarene, para depois acrescentar que com a chegada das tropas ruandesas ao teatro operacional norte as perseguições alçaram um nível jamais visto.

“Com a chegada das tropas ruandesas o clima de perseguição aumentou. Os últimos acontecimentos foram registados com as tropas já em Moçambique. Aumentou igualmente o clima de terror na comunidade ruandesa”, denunciou.

Acordos entre Nyusi e Kagame a troco de sangue e cabeças ruandesas?

Na opinião do presidente, as Associação dos Refugiados Ruandeses em Moçambique, os acordos que foram assinados pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, e o seu homólogo ruandês, Paul Kagame, não podem, de forma alguma, ser uma carta branca para os esquadrões da morte de Kigali perseguirem e caçarem os seus opositores na pérola índico.

“Os acordos bilaterais assinados entre os dois presidentes não podiam preocupar a comunidade ruandesa em Moçambique, uma vez que os países africanos assim como dos quatro cantos do mundo devem ter boas relações. Saudamos o acordo assinado para lutar contra o terrorismo, mas isso não pode ser usado como desculpa para perseguições e assassinatos contra os opositores de uma parte. É bom Moçambique e Ruanda terem boas relações diplomáticas, mas isso não pode permitir que os ruandeses sejam perseguidos de qualquer maneira. Moçambique deve respeitar a convenção de Genebra que assinou sobre a protecção dos refugiados no mundo inteiro”, observou.

Se por um lado o Governo mostrou, mais uma vez, que não tem estratégias para estancar a onda dos raptos, de modo geral, nas principais cidades moçambicanas. Por outro, tem optado pelo silêncio sobre os supostos esquadrões da morte que entraram em Moçambique para caçar os opositores do regime de Kigali.

Ao Evidências, Cleophas Habiyareme avançou que ideia de associar a comunidade ruandesa em Moçambique aos grupos armados que tem semeado luto e terror em Cabo Delgado não tem fundamentos, tendo igualmente instado ao Executivo para não se deixar desviar por pessoas que procuram manchar os refugiados ruandeses no mundo.

“O Governo de Moçambique não pode simplesmente aceitar as informações que são trazidas pelo regime de Kigali. Deve primeiro investigar para apurar a verdade. Como presidente, digo que não há nenhum refugiado que está ligado ao terrorismo. Sempre defendemos que existem ruandeses que foram enviados pelo regime e se registaram como refugiados, mas na verdade não eram refugiados. Eles chegavam e eram registados como refugiados e de três em três meses voltavam para dar informações ao regime, mas isso era contra a convenção de Genebra. Hoje, tem alguns nomes dessas pessoas que estão entre os militares que estão no teatro das operações em Cabo Delgado. Eram espiões que vinham a Moçambique espiar ruandeses”.

“Kigali televisão que é usado como veículo operativo para caçar opositores”

De acordo com o presidente da Associação dos Refugiados Ruandeses em Moçambique, o regime de Kigali criou uma televisão que é usada como um veículo operativo para caçar os opositores de Paul Kagame que se encontram nos quatros cantos do mundo. A fonte declara que a estação televisiva apontou em primeira mão que Revocat era opositor do regime de Kigali, um pouco antes de ser crivado de balas.

“Há uma televisão que se diz que é privada. O nome é Ruanda Watch, um canal que se pode seguir no YouTube, mas o canal não é privado, é estatal. É um canal que está a ser usado pela secreta do regime de Kigali. Quando há uma pessoa que o regime de Kigali quer que seja assassinada aquela televisão estatal começa a atacar. O exemplo concreto sucedeu-se em Junho, quando no dia 29 esse canal acusou Revocat como opositor do regime de Kigali, mas ele era refugiado tanto como outros, e depois de ser considerado opositor, estranhamente no dia 13 de Setembro, foi alvejado mortalmente”, relatou.

Depois de Revocat, no dia 01 de Novembro corrente, ainda de acordo com a fonte, a estação televisiva voltou a abrir um capítulo no que concerne às perseguições contra os opositores da governação de Paul Kagame, ao incluir Nhamushua Alex na lista das pessoas que financiam os grupos armados que semeiam terror em Cabo Delgado.

“No dia 01 de Novembro o canal acusou outro refugiado ruandês chamado Nhamashua Alex, descendente do general Kaulu Nhamashua, que está refugiado na África do Sul. Essa ligação que a televisão tenta mostrar não existe, porque Alex chegou a Moçambique em 2003 e começou a trabalhar como comerciante com o irmão, e em 2010 assumiu os seus próprios negócios, tendo igualmente contratos com empresas moçambicanas como a Coca – Cola, Cervejas de Moçambique, Socimpex. Por seu turno, Kaulu pertencia ao regime de Kigali, não faz sentido isso que tentam veicular no presente. Estão a mentir para depois amanhã aparecer nos jornais que foi baleado um apoiante do terrorismo”.

“Namasha Alex está a ser acusado de ser um dos financiadores dos grupos armados que aterrorizam Cabo Delgado. Isso não é verdade. As autoridades moçambicanas têm a capacidade de verificar a proveniência dos fundos dos negócios de Alex, uma vez que trabalha com vários bancos em Moçambique. Nós temos medo, porque quando esse canal começa a diabolizar uma pessoa a mesma acaba baleada”, acrescentou.

Ruandeses preocupados com o silêncio ensurdecedor da comunidade internacional

Indo mais longe, Cleophas Habiyareme considera que o regime de Kigali acusa os refugiados ruandeses como financiadores dos grupos armados como álibi para perseguir e matar os seus opositores em Moçambique e no mundo.

“Estão a exagerar redondamente ao ligar a comunidade ruandesa ao terrorismo na província de Cabo Delgado. O terrorismo existe no mundo inteiro, não é um indivíduo qualquer que vai apoiar sem interesses. As pessoas que estão ligadas ao terrorismo têm organizações fortes. Nós somos refugiados e estamos a fazer os nossos negócios. Quando o regime de Kigali começa a associar o terrorismo aos refugiados em Moçambique só quer motivos para perseguir e atacar aqueles que são seus opositores”, sustenta.

O presidente da Associação dos Refugiados Ruandeses em Moçambique pede a reacção da comunidade internacional que permanece calada face aos assassinatos e sequestros de dissidentes e jornalistas ruandeses.

“Estão mais de cinco mil pessoas desesperadas que não sabem o que será deles amanhã. Para mim isso é uma catástrofe humanitária. Não se pode ficar indiferente quando cinco mil pessoas estão em perigo. Todo mundo sabe que os estamos a viver é verdade. Devem reagir para parar com esta onda de perseguição. Temos várias organizações em Moçambique que nos apoiam, sem deixar de mencionar a imprensa que tem feito o seu papel. Vai chegar um momento que a comunidade internacional vai perceber o seu dever e prestar assistência aos refugiados e o Governo também vai se posicionar para proteger as comunidades”, augurou.

Em todo o mundo, os imigrantes e refugiados olham para as embaixadas dos seus países de origem com um porto seguro. Contudo, Cleophas Habiyareme denuncia que o consulado do Ruanda em Maputo é que organiza todas as perseguições contra os refugiados ruandeses.

“O actual embaixador do Ruanda em Moçambique foi expulso na África do Sul por causa do comportamento de perseguir os refugiados. Acredito cegamente nisso, que existem esquadrões da morte cuja missão é perseguir e matar refugiados ruandeses. Queremos que haja uma investigação séria para apurar o que verdadeiramente está a acontecer em Cabo Delgado. Quem está por detrás das perseguições e assassinatos é o regime de Kagame”, acusou.

“Moçambique deve garantir a segurança e protecção dos refugiados”

Comparando a governação de Filipe Nyusi, Armando Emílio Guebuza e Joaquim Chissano, o responsável lembra nostalgicamente que nos reinados de Chissano e Guebuza os ruandeses viviam tranquilamente, o que, de certa forma, já não acontece desde que Filipe Nyusi decidiu entrelaçar a amizade com Paul Kagame.

“Quando os refugiados chegaram a Moçambique foram bem-recebidos. O ambiente foi sempre bom. Vivíamos em paz com os moçambicanos. As coisas começaram a mudar neste ano de 2021. Não posso dizer que no tempo de Guebuza não havia perseguições, mas não era tão flagrante quanto agora. Em 2011, Kigali pediu à comunidade internacional para que retirasse o estatuto de refugiado a todos os ruandeses, mas nós reagimos dizendo que aquilo que nos fez refugiados ainda continua e começa a querer enganar o Governo de Moçambique. Se existe um ruandês ligado ao terrorismo só pode pertencer ao regime de Kigali, denuncia.

O Alto Comissariado das Nações Unidas, por sua vez, apenas tem se limitado em emitir comunicados quando há notícias de perseguição e assassinatos dos refugiados ruandeses.  Cleophas Habiyareme entende que cada país é soberano e isso limita o raio de acção daquela organização das Nações Unidas. Nos próximos dias, o ruandês espera que haja mudanças.

“O Governo tem de assumir o seu papel de proteger os refugiados. Temos que igualmente ver o espaço de actuação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Precisamos saber onde termina e onde começa o papel do Governo. Corremos o risco de dizer que a ACNUR não está a fazer nada, enquanto está a fazer o seu trabalho. A ACNUR opera num país e esse país é soberano. No último incidente fez um comunicado para repudiar o que aconteceu no dia 13 de Setembro”, concluiu.