ExxonMobil sem data de retorno e com DFI pendente

ECONOMIA
  • Principal projecto da área 4 ainda em banho-maria

O presidente da ExxonMobil Corporation, Liam Mallon, esteve semana passada em Maputo com objectivo de “reafirmar o compromisso da empresa em Moçambique e do desenvolvimento do projecto (em terra) na Área 4”. No entanto, apesar do interesse reafirmado, a multinacional continua sem previsão para Decisão Final de Investimento (DFI) para o maior e principal projecto da área 4 da Bacia do Rovuma, e avança alguns aspectos por serem ultrapassados antes do seu retorno. À semelhança de Mallon, o administrador delegado da Eni, Claudio Descalzi, esteve, recentemente, com o Presidente da República, Filipe Nyusi, para discutir o ponto da situação do Projecto Coral Sul FLNG.

Nelson Mucandze

Nesta quinta-feira, Mallon esteve reunido com o Presidente da República, Filipe Nyusi, com quem discutiu avanços relacionados com os projectos que lidera na Área 4 da Bacia do Rovuma. Foi depois desse encontro que garantiu em declarações à imprensa que o interesse da multinacional no Projecto de Gás Natural Liquefeito mantém-se intacto, e anunciou estarem em curso estudos para reduzir o nível de emissão do dióxido de carbono e avaliação das condições para o seu retorno.

“O principal objectivo deste encontro era de reafirmar o compromisso da ExxonMobil em Moçambique do desenvolvimento do projecto na Área 4. Foi uma conversa produtiva sobre as condições necessárias para alcançarmos mais progressos”, detalhou Mallon.

Adiante, o gestor da multinacional afirmou que “falamos igualmente dos avanços já conseguidos mesmo diante das limitações da pandemia da Covid -19 e impostas pela conjuntura que se fez sentir nos últimos anos”.

Além da Covid-19, as questões de segurança constituem um entrave para o retorno da ExxonMobil, uma limitação que se junta a outros factores, como a revisão do Projecto que deve agora acautelar o uso de tecnologias que capturam o carbono, uma imposição da agenda internacional inserida na luta contra as mudanças climáticas. É que apesar de reconhecer certos avanços em Cabo Delgado, Mallon evoca outros aspectos por serem ultrapassados antes do seu retorno: “Penso que muitos avanços foram alcançados durante todo o processo, no entanto, há ainda muito a ser feito no que se refere ao projecto. Temos programas em avaliação, junto do Governo, tanto na área 1 bem como na Área 4, por isso continuaremos a monitorar a situação de perto”.

O ministro de Energia e Recursos Minerais, Max Tonela, detalhou que a multinacional vai trabalhar com vista a alcançar os objectivos de reduzir os custos do projecto, adoptar tecnologia para captação de Carbono e também a formação de sinergias com os parceiros da área 1 (Consórcio liderado pela Total), com o objectivo de tirar maiores benefícios e só depois disso será coordenado um calendário para a implementação do projecto.

Tonela garante que estas medidas vão “permitir simultaneamente uma redução de custos e tornar o projeto mais competitivo e alinhado com compromissos internacionais de que o país é signatário”.

Na área 4 da Bacia do Rovuma, do projecto em terra, a Exxon Mobil lidera o consórcio que inclui a Eni, a China National Petroleum, a Kogas, a portuguesa Galp e a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos, e desde 2018 tem os contratos de venda de gás assinados com os clientes estrangeiros, tendo recebido, em 2019, a ‘luz verde’ do Governo moçambicano.

À margem do compromisso reiterado, aquela multinacional tem vindo a adiar de forma repetitiva a tomada de Decisão Final de Investimento. Em março do ano em curso, a mesma teria adiado pela terceira vez, o que terá levantado a questão da prioridade que este tem dado ao Projecto de Gás Natural Liquefeito de Cabo Delgado.

Este projecto, com DFI pendente, tem custos semelhantes que o projecto da Área 1, liderado pela Total, cujo investimento em curso é tido como o maior em África, avaliado entre 23 a 25 mil milhões de dólares.

Parte da Área 4 da Bacia do Rovuma inicia produção em 2022

Além de Mallon, quem também esteve reunido com o Presidente da República é o administrador delegado da Eni, Claudio Descalzi, que apresentou o ponto de situação do Projeto Coral Sul da FLGN, que decorre também na Área a 4 da Bacia de Rovuma, mas em offshore (mar).

A Eni lidera este projecto através de Mozambique Rovuma Venture (MRV), uma “joint venture” onde estão a ExxonMobil e CNODC, com 70% de interesse participativo, a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos E.P. (ENH), com 10%, a Galp Energia Rovuma B.V. com 10% e a KOGAS Moçambique Ltd., com 10%.

O Governo já tinha avançado que, em meados do próximo ano (2022), da produção de gás natural no projecto conhecido como Coral Sul FLNG, venha contribuir para a arrecadação de receitas para o Estado.

Dos três projectos de Rovuma, este é o mais avançado e de menor dimensão implementado pelas concessionárias da Área 4 da Bacia do Rovuma, e consiste numa plataforma flutuante que vai captar e processar o gás para exportação directamente no mar.

Neste momento, a construção da plataforma flutuante, pela Samsung, na República da Coreia do Sul, está numa fase adiantada, prevendo-se que esteja nas águas territoriais moçambicanas ainda este ano ou princípios do próximo.

O Instituto Nacional de Petróleo (INP) anunciou que a plataforma flutuante para produção e liquefação de gás natural, em mar, parte este Novembro da Coreia do Sul, onde está a ser fabricada. O INP escreveu no seu site que uma equipa da instituição deslocou-se, recentemente, à Ilha de Geoje, Coreia do Sul, onde acompanhou in loco parte dos trabalhos finais de comissionamento em terra da plataforma Flutuante Coral Sul – FLNG, que antecedem o seu reboco para Moçambique. A missão da equipa era a pré-inspecção, com enfoque para os aspectos de medição fiscal de Gás Natural Liquefeito (GNL) e de Condensado, bem como aspectos relacionados com a segurança da infra-estrutura, incluindo das pessoas que estarão envolvidas nas operações.

Na nota do INP, lê-se que “os dados mais recentes apontam que o projecto de construção daquela que será a primeira e mais complexa plataforma flutuante de liquefação de gás natural em águas moçambicanas, e a primeira no mundo em águas profundas, está em cerca de 95% de execução, prevendo-se a sua saída da Coreia do Sul para meados de Novembro do ano em curso”.

O investimento para este projecto é de cerca de sete biliões de dólares norte-americanos, prevendo-se a geração de lucros directos na ordem de 39,1 biliões de dólares, dos quais cerca de 19,3 biliões para o Estado moçambicano durante 25 anos.

A Decisão Final de Investimento foi anunciada em Junho de 2017 e a campanha de perfuração dos 6 furos que irão corporizar o projecto iniciou em Setembro de 2019.

No entanto, devido à eclosão da pandemia da covid-19 e em consequência das medidas impostas para conter a propagação da doença, as concessionárias solicitaram ao Executivo a reprogramação das actividades de perfuração e conclusão da montagem dos sistemas de produção de gás para 2021.

A 14 de Janeiro de 2020 foi lançado o casco da plataforma flutuante de LNG, que consistiu na saída da infra-estrutura em construção da doca seca para o cais, e em Maio iniciou a montagem do primeiro módulo de superfície do casco da plataforma.

Moçambique aprovou três projectos para exploração de gás natural ao largo da costa de Cabo Delgado, norte do país. Dos dois projectos de maior dimensão que vão canalizar o combustível do fundo do mar para a terra, exportando-o em estado líquido, para além dos consórcios da Área 4 (Exxon Mobil e Eni), destaca-se o liderado pela Total (consórcio da Área 1), e arranca em 2026, data recentemente revista.

Um terceiro projeto mais avançado e de menor dimensão conta também com grande participação do consórcio da Área 4 (Exxon Mobil), e consiste numa plataforma flutuante que vai captar e processar o gás para exportação directamente no mar, com arranque marcado para 2022.

A plataforma flutuante deverá produzir 3,4 milhões de toneladas por ano (mtpa) de gás natural liquefeito, a Área 1 aponta para 13,12 mtpa e o plano em terra da Área 4 prevê 15 mtpa.

Total com perspectivas exactas

O projecto liderado pela Total, considerado o maior investimento privado em África, é o segundo projecto mais avançado que se encontra em fase acelerado, mas que se viu paralisado devido o recrudescimento das acções terroristas em Palma (Cabo Delgado), que ameaçaram de perto as suas instalações em Afungi.

Sobre as perspectivas de produção, na sua última comunicação, a Total informou que prevê o início para 2026. A previsão anterior apontava para 2024, mas a ocupação terrorista da vila de Palma, nas imediações das obras do projeto, no final de março, levou à suspensão do empreendimento.

Na altura, a empresa apontou para um ano de paralisação, regressando quando estivesse garantida a segurança. Já o Governo, nas palavras de Adriano Maleiane, ministro da Economia e Finanças, a retoma das actividades pode ocorrer antes do previsto.

Depois da retoma da actividade, até aqui prevista para 2022, deverão começar as principais obras de construção civil e de instalação de tecnologias, sendo que o primeiro carregamento de gás por via marítima, abrindo portas às receitas do projeto, está agora previsto pela própria petrolífera para 2026.