Sobre o diálogo que falta em Moçambique

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão 

A reflexão na Sociedade Moçambicana parece caminhar aos saltos. De vez em quando surge uma questão, imediatamente dissecada pelos analistas habituais “cá do burgo” (sempre os mesmos…). São entrevistados com maior ou menor preparação jornalística, os intervenientes políticos relacionados com o tema e alguns cidadãos anónimos. Em regra, os responsáveis respondem que o assunto está em estudo e que se preparam grandes medidas; os não responsáveis assacam culpas a quem de momento parece mais fragilizado ou aparece menos nos media. Passado algum tempo, o assunto morre, sem que surjam grandes mudanças e, sobretudo, sem que se produza pensamento, debate ou doutrina que façam as coisas andar para a frente.

Exemplos recentes ilustram esta situação: o problema e a falta de segurança que existe com os Transportes Colectivos e a maioria dos Chapas a «cairem de podre» e sem condições nenhumas de circularem na via pública; o aborto (afinal em Moçambique está legalizado ou não?); a regionalização, a violência doméstica — que vai de mal a pior! —; o vencimento dos deputados, a corrupção dos políticos (e não só) — veja-se, a propósito, “o festival triste” que estamos a assistir com o Julgamento das Dívidas Ocultas e a (eventual) Candidatura do “amigo” Celso Correia à Presidência da República—; a ladroagem “da fina flor” bem colocada nas empresas pelos “amigos dos amigalhaços”; a Conivência do Governo para com determinadas situações, o caso do actual ministro das Finanças, Adriano Maleiane, envolvido, sabe Deus como, em “habilidades de bastidor”, no “caso” da venda de Títulos da Dívida da EMATUM e também de Eneas Comiche sobre o “falhado”(e fantasiado!) projecto da FULTRAN, portanto são dois casos que ilustram bem «a balbúrdia» em que vivemos.

São alguns exemplos absolutamente ao acaso, aos quais teremos de acrescentar a Mediocridade e a falta de Cultura Geral da maioria dos nossos Profissionais da Comunicação Social; as Urgências Hospitalares e a “roubalheira” praticada pelas Clínicas Privadas de Saúde existentes no nosso país; a Compra de Diplomas Escolares de Curso, que proliferam a coberto do anonimato, sem que os seus responsáveis sejam descobertos; a Protecção Ambiental… e tantos outros exemplos (que poderíamos enumerar sem qualquer ordem de destaque). As questões são afloradas de uma forma episódica, enquanto são notícias urgentes, para depois caírem no esquecimento — e sem que ninguém seja chamado “à pedra” e castigado — até que uma nova aresta cortante apareça a incomodar e o assunto volte às primeiras páginas dos jornais — como tem sido o acaso das Dívidas Ocultas e, mais recentemente, a possível candidatura do “amiguinho” Celso Correia à Presidência da República para “salvar” o nosso Timoneiro Principal da Nação, que agora os Tribunais Europeus reclamam que “prove a sua inocência”…

Aqui chegados, o que pretendo dizer é que falta reflexão sustentada na Sociedade Moçambicana e, mais do que isso, há descrença na sua importância e falta de prática desse mesmo pensar. Até quando, Senhores?!…

Noutra análise complementar, este pessimismo face à cooperação reflexiva leva rapidamente à ideia que, se passarmos a AGIR, o problema fica resolvido — ou pelo menos em grande parte. Sabemos da psicopatologia que muitas situações de risco são provocadas justamente por este agir não reflectido, aquilo a que os técnicos de Saúde Mental designam “por passagens ao acto”. Descortino, infelizmente, alguns sinais desta passagem ao acto na Sociedade Moçambicana. Quando são perseguidos jovens toxicodependentes como se fossem doentes de Peste, na Idade Média, quando pequenas comunidades se unem para espancar até à morte um marginal que foi apanhado a roubar um telemóvel — o caso mais recente ocorreu aqui há meia dúzia de anos na cidade da Beira —; quando as pessoas são mandadas parar pela Polícia de Trânsito por terem cometido qualquer infracção e colocam de seguida “uma notinha de 200 ou de 500 Meticais” dentro dos documentos da Viatura que entrega ao (?) agente da Autoridade; quando precisamos de tratar um documento nos Serviços de Imigração ou do Passaporte ou mesmo do Bilhete de Identidade em qualquer Conservatória do Registo Civil  e temos de pagar “por debaixo da mesa” algum dinheirinho ao «zeloso e simpático» funcionário público, para que possamos adquirir com rapidez o que pretendemos; quando uma pessoa, em trânsito, nas Fronteiras de Ressano Garcia e da Namaacha — ou nos Aeroportos do País, como já aconteceu connosco — é sujeito “à extorsão” pura e simples, por parte dos (?) Agentes Alfandegários, para entrar com a sua bagagem de mão (ou mercadoria) em Moçambique, sem que sejam punidos, há três coisas que eu quero concluir.

Quero afirmar, em primeiro lugar, que estão bloqueados os mecanismos de debate e de participação dos cidadãos na resolução dos problemas do País. Em segundo lugar, quero dizer que esse bloqueio leva à descrença generalizada no funcionamento da Instituição e conduz à passagem ao acto que só aparentemente é eficaz. Por último, a ausência de confronto de ideias e de reflexão aprofundada abre caminho a soluções de “iluminados”, eventualmente mais “autoritários”.

A crise de segurança, recentemente designada, constitui, de tudo isto, um bom exemplo. Mais uma vez ouvimos falar do demite ou não do Relatório do Civil e do não Civil. Ao mesmo tempo lançam-se para o ar palavras equívocas, como ordem, segurança, seriedade, protecção dos Cidadãos… O que quer isso dizer?

Se a segurança é voltar a bater nos alunos mal comportados e que não aprendem; prender os jovens que se iniciaram nas drogas; não poder andar a pé tranquilamente pelas ruas da cidade durante o dia; ter de colocar gradeamentos em todas as portas e janelas de casa ou do escritório; não sermos honestos, receber “recados” e ameaças veladas a mando de «capangas» — “vulgos” funcionários subalternos de Organismos Oficiais —, por denunciarmos o que está mal em Moçambique ou simplesmente não poder trazer na mão o seu simples celular; ou “lamber as botas” a quem quer que seja —  digo, desde já, que não quero “essa” segurança. Se calhar a minha “ordem” também não é igual à de um certo professor que conhecemos, que pensa em resolver o problema do insucesso escolar com mais exames e com professores mais severos…

Nesta aproximação, acho que a discussão (ou algum falatório) recente à volta de qualquer que seja o Ministério é pouco importante. O que temos visto é que os ministros, cá entre nós (de vez em quando), também mudam e os problemas permanecem! Para mim, como cidadão e jornalista profissional, interessa discutir que “formação” vai ser dada aos Polícias num Estado (dito) Democrático (mas onde a Democracia e a Liberdade não se discutem); como posso ter a certeza que se um jovem “beber um pouco mais” e for parar a uma Esquadra não é humilhado ou mesmo espancado, sobretudo se for desempregado; como posso confiar nos Concursos Públicos, sem recear que a “máxima” de que «uma mão lava a outra» e a influência e o compadrio de “tal” «gente fina» sejam mais importantes que a prestação ou o “curriculum” do candidato; como posso adquirir a convicção que um ministro, um vice-ministro, um director distrital ou um simples PCA vão decidir  por programa político ou por convicção, e não por pressão do lobby que ele acaba de enviar um “e-mail” ou um FAX sobre o tema, ou que na véspera o convidou para jantar num restaurante badalado.

Para que eu e mais alguns cidadãos nada serenos e desejosos de intervir possamos ter mais confiança no Futuro, é preciso, afinal, estimular a diferença entre moçambicanos, entre governo e oposição, entre ricos e pobres, entre velhos e novos. Só o confronto de opiniões diversas, só a divergência discutida e aprofundada — como defendia o saudoso cronista Machado da Graça nas suas habituais crónicas do SAVANA — ou os Editoriais de Salomão Moyana, publicados no Independente Magazine — tornariam possíveis a síntese e a regularidade de tantos outros fazedores de Opinião Escrita ou Falada — poderiam garantir inquestionavelmente o Futuro do nosso País.

É este, em suma, DIÁLOGO que está a faltar em Moçambique, enquanto a participação da População não se fizer ouvir e continuar silenciosa como tem sido seu apanágio…  Temos de acordar. Urgentemente. Para participar, dialogar e contribuir para que novas mentalidades surjam no Horizonte e possamos todos engrandecer o nosso País. E não me venham dizer que estou a ser reaccionário e conflituoso. Apenas estou a opinar o que penso estar certo.