O regresso da escrita

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão

Muitos diziam que o homem ia perder o hábito da leitura e da escrita, substituídas pela oralidade dos audiovisuais. Os formatos digitais vieram inverter todos os raciocínios.

Quando, neste Outono, estiver sentado na praia ou numa esplanada de um restaurante à beira-mar, a devorar finalmente o policial que andou a desejar durante todo o ano, dedique alguns minutos a pensar no que seria o Mundo sem nada para ler. Há anos, pensava-se que a leitura estava condenada e que, no fundo, tudo nos chegaria de outras formas. Durante anos, pensou-se que isto estava certo. Nós, que trabalhamos nos jornais, trememos com a perspectiva de os jornalistas serem um dia apenas cabeças falantes da Televisão.

A Imprensa conseguiu, entretanto, encontrar formas de aumentar a sua eficácia de comunicação. Os produtos dirigidos a segmentos de Mercado aumentaram, e com eles aumentou o número global de leitores. Quando uma nova Revista ou Jornal surge em Moçambique e me perguntam se não existem já títulos demais, a minha resposta é invariavelmente a mesma: desde que tenham coisas a dizer e encontrem o seu público, terão razão de existir.

Os números de mercado têm confirmado esta teoria e os exemplos mais recentes de segmentarização merecem ser seguidos com atenção — quer pelos leitores, quer pelos especialistas e profissionais.

Um dos fenómenos mais interessantes dos últimos anos foi o gosto pela escrita e pela leitura que o surgimento de um meio integralmente digital proporcionou. Escrever cartas estava fora de moda, as conversas telefónicas substituíam o velho mundo das prosas.

De repente, surgiu a Internet e eis que o diálogo oral passa a existir menos e a relação epistolar volta a ganhar foros de modernidade. Hoje em dia, num número de círculos cada vez maior, a inexistência de relação escrita é impensável.

Chega-se mesmo ao ponto de telefonar apenas para perguntar qual o endereço do e-mail, para depois prosseguir com as coisas de outra maneira.A Internet veio levar-nos a escrever uns aos outros, a reganhar o hábito da escrita e da leitura. Voltou a namorar-se com palavras escritas. Mesmo procurar informação voltou a ser um prazer. E porquê? Porque, na Internet, ela é tão abundante, que se torna irresistível. Quando se dizia que a velha comunicação estava a desaparecer, eis que ela se reinventou. A Internet é a reinvenção da palavra escrita.

Uma boa parte daquilo que constitui o grosso do conteúdo de uma qualquer publicação foi possível (é possível) apenas porque agora é fácil encontrar na Internet a informação que nessas publicações, por vias normais, é extremamente difícil de obter. Duas horas de busca na NET resultam em artigos com mais informação, logo, com maior potencial de atracção de público. Com os motores de busca que agora existem, a coisa fica facilitada. Consigo ler artigos de muitas revistas, jornais, ver entrevistas feitas para a televisão, juntar toda informação no mesmo núcleo e trabalhá-la depois.

Não é só a Internet a responsável por isto. O mais comum dos formatos digitais editados, o CD ROM, dá outro valor à escrita. Junta imagens, sons, textos, tudo no mesmo suporte. Não será ainda um formato estabilizado, muito provavelmente é apenas o primeiro patamar para o Futuro. Os aparelhos em que pode ser lido são grandes ou carisíssimos e, de qualquer forma, pouco portáteis.

E, no entanto, já existem máquinas mais acessíveis, capazes de escrever em Word e de ter acesso à Internet. Usam um sistema operativo semelhante ao Windows, o Windows CE, só que menor, de certa forma mais portátil. Os primeiros palmtops — assim se chamam os aparelhos que utilizam este sistema — estão provavelmente para a comunicação do Futuro, como os rádios transistores estiveram para a rádio e para a música, em geral, no início da Década de 60. Alguma coisa vai certamente passar por ali.

Simplesmente, a aposta hoje em dia está em desenvolver aparelhos, sistemas e suportes que sejam baratos, portáteis e possam funcionar em todo o lado. No reputadíssimo Massachussets Of Technology (MIT) há uma equipa de técnicos inovadores que está apostada em acabar com a tinta e o papel impresso.

Estão a desenvolver um aparelho semelhante a um livro de bolso, que seja apenas um leitor. Joe Jacobson é o nome da ideia. Fixem-no, porque, se der certo, ele vai acabar com a indústria do papel. Daqui a seis meses, saberemos se ele arrisca a ficar nos livros com o nome mais destacado do que Gutenberg. Escusam de correr: o MIT já registou a patente faz tempo. A verdade é que o papel continua a ser extraído de árvores, as fábricas de celulose “a ganhar rios de dinheiro”, irritando os ecologistas e perturbando um pouco toda a gente. O processo demora anos incontáveis a ficar maduro e é muito caro. Os sistemas de impressão continuam basicamente inalterados nos seus fundamentos, há quase um século — é um demorado processo mecânico, com folhas a serem puxadas para debaixo de cilindros impressores, onde a tinta faz o seu papel. Antes disso, porém, hoje em dia, tudo é digitalizado: textos, fotografias, documentos, etc., etc..

O problema é que o papel é melhor que o ecrã. O papel é leve, um ecrã é pesado, gasta muita energia, é grande e ainda por cima parte-se com facilidade. O único problema é se alguém conseguir construir um ecrã tão fino e leve como uma folha de papel, infinitamente reutilizável, agradável ao tacto, algo que combine o ser portátil com uma enorme capacidade de armazenagem de dados. Se alguém encadernar umas centenas de folhas deste suporte pode criar um livro electrónico. Não precisa de memória como um computador portátil, apenas de um pequeno CPU, alimentado a pilhas colocadas na lombada. O seu conteúdo pode ser apagado e recarregado instantaneamente. Joe Jacobson conta, numa das suas últimas edições da magnífica revista Wired, que conseguiu que a sua equipa chegasse perto deste “milagre”, utilizando um novo tipo de polímero. Daqui a uns anos, a nossa relação, amigo leitor, poderá continuar a ser a mesma. O meio é que pode mudar. Não é aliciante?