“Estamos aqui para salvar o mundo”

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão

(Para os Jornalistas Nelson Mucandze e Reginaldo Tchambule, com um abraço Fraterno e de Amizade)

Explico-me desde já: ao ler o título da crónica, qualquer leitor poderá pensar que se trata de uma frase de parede retirada de Maio de 68, de uma síntese de um texto de Karl Marx, de uma sincera ironia de George Bernard Shaw ou ainda de uma profecia surrealista lançada para o coração da burguesia.

Nada disso. Estão lá as aspas porque a frase tem a ver comigo na lufa-lufa diária da Juventude. Foi-me dito, olhos nos olhos, para me fazer acreditar que o Mundo é feito de transformação, que o que está mal está mesmo mal e que cada Geração traz consigo a obrigação de se comprometer com a Igualdade, a Justiça e a Fraternidade. É um sonho antigo, circula insistente, assinado, ou anónimo em livros, folhetins e panfletos.

Quem me disse a frase já não está vivo, mas evoco, aqui e agora, a sua memória com imensa saudade. Chamava-se Machado da Graçae partiu de repente, no meio da esperança inacabada e com sonhos à espera de serem realizados, abrindo-me, ao longo do nosso convívio profissional e familiar, algumas portas socráticas e poéticas. Foi um conhecimento de vários anos, muito significativo relativamente a outros que me calharam. Retive aqui a frase, e, para hoje, porque ainda acredito que a Utopia só morre quando a deixamos morrer.

Mas, ao fim e ao cabo, que quer isto dizer? Assumo a revolução das palavras? Nada disso. Apenas vale como chamada de atenção.

Parto da premissa que o leitor tenha perdido alguns sonhos pelo caminho. Não sei quantos. É inevitável.

Assentemos nisto. Terá também, possivelmente, e por outro lado, apreendido em cartilhas que não foram as minhas. Isto separa-nos um pouco. Existe ainda a circunstância de que o leitor desta crónica é variado: tanto pode ter quarenta, cinquenta ou sessenta anos como trinta ou quarenta. E aprendizagens próprias. Mas acredito também no seguinte: em qualquer caso, seja ele qual for, a frase (ou outra como esta) não lhe será desconhecida e reconhece nela um significado profundo.

Mesmo o leitor mais pragmático (como agora se diz) que me esteja a ler, diz que sim com a cabeça, embora admita que o coração lhe possa estar um pouco fechado. É o sinal dos tempos, da sua característica deslizante. Vamos todos nele e todos o fizemos.

Onde quer o escriba chegar? — perguntará, naturalmente, o leitor variado. Explico-me então: quando encontrei, em mim próprio, a arte pessoal e pobre de escrever, fui fixado pela generosidade obrigatória de qualquer juventude minimamente consciente. Não era só eu que estava em causa no que escrevia; estavam todos.

Esta noção do colectivo, julga-se (e acho que o ponto de vista não está certo) incompatível com a individualidade. Até creio no seguinte: a individualidade exigente é um compromisso com a Colectividade. Tenho a convicção de que não existe uma sem a outra. Porque sem nós, sem esse compromisso, não partimos para os outros, não dialogamos; não aprofundamos, não fazemos as contas à vida até ao fim do seu percurso — do nosso percurso. Nem corrigimos os erros.

Volto à frase: é o chamado chavão de jornal, colocado quase à néon na mesa de trabalho. Se és jornalista, ou se quiseres ser, não te poupes. É uma grande obrigação Social. Lembra-te dos pobres, dos humilhados, dos esquecidos. Não te sirvas, serve.

Estas frases circulavam surdas em grupos de combate ou de afirmação — enquanto eu, fixado no papel, dobrado sobre a mesa de trabalho, tentava conciliar o que, muitas vezes, não era conciliável, chamava a mim a ética que me queria fugir, confundia-me, recuperava, à procura da chamada do dever que me daria o rumo certo, entre Totalitarismos de várias cores e democracia esquivas, hábeis e sinuosas, que sempre “abundaram” entre nós. Escrevi assim: livre, perturbado, chamado à pedra por mim próprio, quixotesco e teimoso.

“Estamos aqui para salvar o Mundo”. Afinal a frase de velho e tenaz jornalista, sempre risonho e encorajante, que ficou no lugar vazio da sua sombra — ou talvez não —, que é uma frase retórica e inconclusiva, assumidamente ingénua, quase dogmática — ou talvez não —, que resume o irresumível, continua, apesar de tudo, a ser tão necessária como sempre.

E retira também a sua força da vontade leviana de rir que pode dar a muita gente. O que, bem vistas as coisas, o estado de tudo, não tem importância. A frase sobrevive, insiste, vai ficando para além de nós, é alimento do espírito.

Outros voltarão a dizê-la (essa frase e outras), para que o possível possa ser provável, para haver futuro nos passos que damos. Tão simples como isso. É profissão de Fé, mesmo que seja mais teórica do que prática, para todas as profissões e todas as fés. Para não ficarmos todos mais sozinhos, cada vez mais incrédulos e egoístas.