Percurso Sinuoso de Inclusão Financeira: um olhar sobre Educação Financeira (Parte V)

OPINIÃO
  • Sobre o Relatório da ENIF (2020) do BM

Por: Teodósio Camilo

Estar financeiramente educado permite a compreensão dos termos-chave de gestão financeira. As receitas, ou seja, income referem-se ao valor das entradas, recebimentos do que se ganha, seja por uma actividade de negócio ou do seu vencimento. O que se coloca em causa é como é que um determinado indivíduo produz os seus rendimentos, tanto que não precisam de ter um negócio para adoptar um pensamento ou disciplina financeira. Quem está no mercado precisa compreender o que faz para ganhar dinheiro, o valor que agrega aos clientes, pois as pessoas não são pagas pelo esforço que empreendem nas suas actividades, mas precisamente pelo valor que agregam ao consumidor. Não é essencialmente a qualidade do produto que convence um cliente a realizar uma compra, mas a utilidade do produto, de forma a responder os requisitos do cliente.

As despesas, ou seja, expenses referem-se aos gastos da aquisição de produtos ou serviços que um indivíduo realiza. Nesta esfera, é necessário uma compreensão clara sobre como gasta o seu dinheiro, algumas despesas são correntes, ou seja, custos fixos, e outras não são. Para tal, a aplicação de uma lista de necessidades correntes pode ser uma alternativa que conduz à gestão eficaz das suas despesas fixas. A Educação Financeira e a experiência financeira desenvolveram formas de solucionar problemas relacionados com a administração financeira.

Alguns analistas consideram que a maneira mais eficaz de gestão financeira é a aplicação de percentagens sobre as receitas. Por exemplo: de 100% dos ganhos pode-se repartir 50% e direccionar aos custos fixos; 30% para aplicar nas dívidas e poupanças e 20% caberiam ao entretenimento ou coisas que o indivíduo gosta de fazer. Todavia, em cada uma das áreas deve-se produzir uma lista das necessidades, de modo a repartir o montante direccionado.

Os activos ou assets referem-se a todo o tipo de bens, pode ser em dinheiro, propriedades como imóveis que possuem valor comercial. A aquisição de activos pode ser viabilizada através de fundos poupados. Nesta percepção, a poupança deve se tornar um hábito na vida das pessoas, não obstante o montante que se pode aplicar. O factor-chave é não esperar que haja um valor que sobre para poupar, mas, sim deve-se poupar para que haja excedente. Este montante pode ser aplicado na aquisição de activos que podem, por sua vez, tornar-se fonte de rendimento ou mesmo para antever as oscilações do mercado.

Poupar para adquirir activos permite evitar problemas financeiros, é pertinente criar um plano financeiro diversificado de todos activos, que necessita comprar dentro de um período e metas bem explícitas. Nestas metas, estabeleça a hierarquia do que deve ser adquirido em primeiro plano e, em seguida, os restantes. O mesmo esboço deve conter a forma de utilização dos rendimentos que o primeiro activo vai gerar, estes ganhos devem servir para a multiplicação de activos, de tal forma que os activos por si se aumentem.

O Calcanhar de Aquiles, ou seja, fragilidade ou o ponto fraco de muitas pessoas que chegam a tornar-se altamente endividadas, está relacionado com o passivo ou liabilities. Passivo refere-se a dívidas que têm valor temporal, do dinheiro que pode não estar a seu favor. Muitas pessoas não crescem por consumir mais do que produzem ou ganham. Além disto, a maioria da população moçambicana, mesmo os escolarizados, consome adiantado e o que recebem somente serve para pagar dívidas, alguns padecem de síndrome de ostentação, levam uma vida de aparência, pois todos os activos que aparentemente têm não os pertencem.

Não se está a afirmar que os empréstimos não sejam benéficos. Um empréstimo pode ser mau se for direccionado à aquisição de coisas fúteis, bens que não têm grande valor financeiro, não geram rendimento. Noutra vertente, pode ser benéfico quando o valor for canalizado à compra de activos, geração de um negócio sustentável, ou seja, susceptível de reembolsar e multiplicar o montante emprestado. Isto quer dizer que o empréstimo é benéfico quando aplicado de forma sustentável. A ideia essencial é limitar, sempre que for possível, o passivo, não usar de forma exagerada. Use cartão recarregável, alimentado pelo seu cartão de débito, no sentido de estabelecer um limite mensal das despesas.

Portanto, a planificação do orçamento familiar, no âmbito da Educação Financeira, considera que as famílias financeiramente educadas são capazes de organizar um orçamento mensal, diferenciar desejo e necessidade, economizar nas contas de água, luz e telefone; escapar das armadilhas do consumismo, identificar a melhor forma de investimento, conciliar qualidade de vida e economia, e elaborar uma planilha de confronto de despesas e receitas.

Assim, a Educação Financeira, de acordo com Berverly e Burkhalter (2005), busca a informação e orientação para desenvolver valores e competências necessárias à formação do conhecimento sobre finanças, aproveitar as oportunidades e avaliar os riscos envolvidos, de forma que tanto o indivíduo comum, quanto a sociedade possam fazer escolhas bem informadas e financeiramente conscientes.

Saúde Financeira: o equilíbrio financeiro.

Além de poupar para resolver questões financeiras presentes, o mais interessante sobre aprender a poupar é preparar-se para o futuro e conquistar o equilíbrio financeiro. A Educação Financeira melhora o padrão de vida. Através de um orçamento bem elaborado, permite saldar dívidas e evitar contrair empréstimos insustentáveis, ter uma reserva de emergência, aprender a investir, de forma a providenciar uma boa qualidade de vida no presente e no futuro (Nigro, 2018).

As reflexões trazidas por diferentes autores, em especial Perpétuo (2019) e Nigro (2018), entendem como saúde financeira a fase em que o indivíduo consegue o equilíbrio do seu bolso e das contas, o que concorre para a saúde física e psicológica. Quando um indivíduo consegue planificar as suas finanças, diminui ou mesmo exclui os efeitos colaterais da falta de dinheiro para arcar com as despesas e ainda satisfazer os seus desejos.

Com a saúde financeira, o indivíduo respira com leveza a respeito de seus aspectos económicos, além de conseguir cumprir com os seus compromissos, torna-se apto a enfrentar eventuais imprevistos através de uma reserva de emergência. Muitos gastam mais do que ganham devido à falta de conhecimento e disciplina financeira. A maioria das pessoas nem sequer se preocupa em gastar menos do que ganham, muito menos quando o assunto é poupar.