MDM: um movimento disruptivo

OPINIÃO

Por: Dionildo Tamele

O Movimento Democráticode Moçambique (MDM), dentro de dias, vai realizar o seu esperado congresso, levando em sua agenda duas linhas precípuas de orientação, a primeira é de encontrar o novo líder que possa desafiar e fazer face ao sistema bipartidário instalado na política moçambicana, desde as primeira eleições gerais de 1994 e as autárquicas de 1998. Esta situação da bipolarização, demonstra que o país, por causa do seu percurso histórico, padece de uma insuficiência sinérgica de alternativas conflitantes que pudessem melindrar o quadro edificado, o que fez com que as duas grandes alternativas na política moçambicana fossem a Frelimo e a Renamo. Outra perspectiva não menos importante está associada à eleição do novo líder que deve militar face às adversidades que a nossa oposição enfrenta desde os tempos idos, não esquecendo que esta formação precisa de reconstituir-se no seio da política moçambicana e dentro dos seus membros.

Desde o seu surgimento, este movimento foi visto como uma alternativa no campo político moçambicano, ao que parece ainda não passou desta condição, faz-se necessário galopar de movimento e ascender para uma categoria mais substancial a de partido, não são os congressos que fazem os partidos, mas estes dentro de um espírito conciliar se fazem partido, os concílios muitas das vezes fazem verbo e ecoam a mensagem definitória que determinados movimentos querem fazer passar a uma nação ou povo, ao que consta, o MDM até então tem alardeado, mas não conseguiu expor-se ideologicamente, sendo um reflexo estético e poético daquilo que se chamou dadaísmo no século transitório. Mas é preciso levar em conta que o cenário que caracteriza a atividade política desde o período em que Moçambique se transformou no lugar de debate, a maneira de convivência tornou-se extra social, na medida em que inseridos na sociedade os indivíduos não se reconheciam como membros da mesma, querendo se valer apenas dos benefícios da mesma, criando, deste modo, um contrato no qual as pessoas rubricam, com os partidos políticos, interesses alheios ao poder político, o que fagocita a politiquice.

O presente ensaio pretende compreender o papel desta força política na consolidação da democracia não obstante a mudança da liderança e o seu impacto, em primeira instância, para os membros e depois para a sociedade, por se entender que qualquer organização, seja ela política, religiosa mesmo aquelas que não tem fins lucrativos, deve ter como prioridade influenciar o funcionamento do tecido social.

A formação desta organização política equipara-se a maneira como outras forças políticas foram sendo formadas, tais como a Frelimo e a Renamo, no sentido que o processo da formação foi feito, através da lógica do conflito interno nas organizações supra citados, que depois transformou-se em clivagem, sob ponto de vista da aparição na esfera pública. Com efeito, a fundação do Movimento Democrático de Moçambique é produto de não entendimento no seio do partido Renamo. E hoje faz-se necessário a substituição do então fundador do Movimento Democrático, por imperativos circunstantes.

Todavia, não estando satisfeito com atitude do líder da Renamo, pensado que tinha um capital político para fazer face a esta empreitada, o então fundador do Movimento Democrático desafia toda a estrutura política da Beira e ultrapassando as barreiras do partido Frelimo e da Renamo, indo as eleições como candidato independente e tendo saído vitorioso, enquanto que a Frelimo ganhou assembleia municipal, questionou a valência do bipartidarismo. Foi diante destas diversidades, na sua governação enquanto independente, que fez com que se fundasse a sua organização política. O ano de 2009 é de relevo para a política, no sentido em que muitos não acreditavam que este partido político pudesse de certa forma fazer coisa de suma importância, tendo em conta as experiências anteriores, onde algumas organizações políticas teriam falhado. Esta organização política surpreendeu não só os moçambicanos bem como a comunidade internacional. É de conhecimento de todos os moçambicanos que na sua primeira empreitada este movimento ultrapassou a barreira dos 5% que antes não tinha sido ultrapassado senão pela Renamo e Frelimo na história política moçambicana.

Um outro aspecto deste partido que é de relevo e inesgotável na situação política do país é a maneira como os partidos políticos foram emergindo, desde a própria Renamo, porque não mencionar a Frelimo, o facto de ambos surgirem do norte e do centro do país. Sendo que os seus membros são antigos membros da Renamo, tendo se dispersado ao longo do tempo por vários motivos, que muitas vezes são arrolados nos dois grandes partidos, questões como tribalismo, regionalismo, culturais, não esquecendo a linhagem familiar que está latente no tecido social moçambicano.

Os cultores da ciência política e sociologia política em Moçambique têm arrolado hipóteses tais como: que com a morte do fundador desta organização política, a organização não terá capacidade de se erguer porque ele era único com a capacidade de tal proeza.  Mas é preciso tomar em consideração que são apenas hipóteses e que podem falhar na prática.

As eleições internas do dia quatro de Dezembro próximo contam com três candidatos que estão na corrida para estas eleições, dois deles são beirenses e um sulista. Na lógica popular não há nenhuma possibilidade para o candidato sulista sair vitorioso nas próximas eleições, pelo facto de ser sulista e estando a concorrer com os nativos desta organização política.

O debate que tem se levantado aponta que o provável vencedor pode ser da Beira em detrimento de único candidato sulista, o mais importante é encontrar-se uma pessoa que possa ser capaz de resolver os problemas que afligem este movimento, e não deixar com que o partido possa cair no esquecimento para que não se volte a situação da bipolarização do sistema partidário nacional, que já está muito viciado.

Esta é uma denotação moçambicana de que não são os candidatos que vencem, mas os sistemas partidários que até certo ponto são uma forma de corrupção política, pois até onde se pode conceber o móbil das intenções políticas é impulsionar a democracia e não contrariar esta ideia bem fundada, contudo, por causa da situação híbrida existente que é uma mistura de um processo eleitoral que é feito desde que começou o processo em 1994 e 1998, tanto das eleições gerais, tal como as autárquicas, mas encontram-se ainda algumas nuances de não abertura e consequentes restrições das liberdades de expressão, manifestações, desvios de fundos, altos níveis de corrupção, as universidades não contribuindo de maneira alguma para que campo político, como diria Bourdieu, para que haja paridade, disto depreende-se que estamos no campo ʺinjustoʺ, onde a lei do mercado e da teoria do mais forte em termos do controlo das instituições pública e privada.

O congresso desta organização política deve-se, na sua maior preocupação, a sua consolidação enquanto partido político, para que possa desconstruir toda teoria que é arrolada pela morte do seu interno fundador que seria a morte da organização, mas mostrar a sua existência no seio dos moçambicanos. O líder da mesma precisa ser capaz de alavancar o partido para outros patamares, primeiro chegar a ser uma organização à escala nacional, e não apenas se limitar ao município da Beira, no sentido em que o espaço geográfico do país é de apenas 11 províncias administrativamente constituídas.

Limitar esta organização política aos centros urbanos não compreende objectivo real das organizações políticas que é o alcance do poder, e este não se pode encontrar nas zonas urbanas, ainda por cima num país como o nosso, que está mais cheios de zonas periféricas e rurais, onde as pessoas não sabem ler e nem escrever.

A nova liderança deste partido político vai ter diversos desafios, desde a transformação do mesmo numa organização política com ambições de conquista do poder partindo do local, para em seguida ir ao poder e incrementar o número de deputados no parlamento. Outrossim, o próximo presidente se poder ler e se inspirar na história lendária de Sun Tzu, que foi um general chinês que viveu no século IV a.C e que, no comando do exército real de Wu, acumulou inúmeras vitórias, derrotando exércitos inimigos e capturando seus comandantes. Foi um profundo conhecedor das manobras militares e escreveu A Arte da Guerra, ensinando estratégias de combate e táticas de guerra.

Esta é uma das histórias mais repetidas sobre Sun Tzu, descreve o modo pelo qual ele empregava as “concubinas” para demonstrar no palácio, ao rei, exemplos de manobras de combate e deslocamentos de tropas.

Vencer antes de lutar era uma das táticas ensinadas por Sun Tzu. No livro, ele destaca que, na Guerra, a melhor política, geralmente, é capturar um Estado intacto; arruiná-lo denota atitude inferior.

Capturar o exército inimigo ou pegar um batalhão, uma companhia ou um esquadrão de cinco homens intactos é melhor que destruí-los. Vencer cem vezes em cem batalhas não é o auge da habilidade, mas sim subjugar o inimigo sem precisar lutar.

Em A Arte da Guerra, Sun Tzu mostra suas estratégias, de forma bem contextualizada e dinâmica, dando ao leitor um conhecimento mais amplo sobre como vencer as batalhas do cotidiano, que se manifestam de diversas formas, de maneira clara e transparente.

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