Continuam baixos os níveis de retenção de mulheres em programas de alfabetização

SOCIEDADE
  • Entre a vergonha e a proibição de parceiros

Em Moçambique, mais da metade da população adulta é analfabeta e as mulheres são as que mais contribuem para esta taxa. Com vista a reverter este cenário, o governo e as organizações da sociedade civil adoptam várias estratégias para promoção da educação de adultos, contudo a sua retenção nos programas de alfabetização é muito baixa devido a vários factores como a vergonha, o medo de estigma e por vezes a proibição dos próprios parceiros, com medo de serem traídos.

Neila Sitoe

Dados recentemente publicados pelo Instituto Nacional de Estatística mostram que a taxa média de analfabetismo entre a população adulta do país situa-se à volta de 53.6%, sendo mais elevada nas zonas rurais (65.7%) do que urbanas (30.3%), e mais saliente nas mulheres (68%) do que nos homens (36.7%). Entre os jovens, a situação é alarmante, com taxas de 37.9% para a faixa etária de 15 a 19 anos (48% entre as jovens mulheres) e 50.7% para a faixa etária de 20 a 29 anos de idade (61.1% entre as jovens mulheres).

Isso acontece numa altura em que o sistema formal de ensino não consegue absorver todas as crianças em idade escolar, deixando de fora cerca de 50% das crianças, de acordo com o Movimento Educação para Todos (MEPT), o que constitui uma fonte permanente de crescimento da população analfabeta no país.

Como se tal não bastasse, a taxa de abandono da rapariga na escola continua alta devido a vários factores socioeconómicos e até políticos.

Para Clotilde Noa, gestora do programa Prioridade de Educação e Direitos das Mulheres da Actionaid Moçambique, os dados estatísticos podem significar que, apesar das iniciativas para a equidade de género no sector da educação, mais e mais raparigas não ingressam ou abandonam a escola, aumentando o grupo de mulheres analfabetas ao longo dos anos.

“As questões de alfabetização em Moçambique continuam um desafio e a paridade de género neste sector ainda continua longe de ser alcançada, por isso as taxas de analfabetismo entre as mulheres continuam elevadas e para reverter este cenário é importante assegurar que os programas de alfabetização contribuam para o aumento das habilidades que satisfaçam as necessidades imediatas dos participantes com vista a gerir as suas expectativas e retê-los até ao fim dos programas”, afirmou. 

Foi para satisfazer as necessidades imediatas dos participantes e poder contribuir para a redução de do número de mulheres analfabetas no país que a Actionaid Moçambique introduziu o curso de alfabetização de adultos, com foco para mulheres das comunidades rurais, de diferentes estados civis (solteiras, casadas e em união de factos), sem escolaridade básica e que se dedicam fundamentalmente a agricultura de subsistência em menor escala, de rendimento, a pesca, corte e venda de lenha, de carvão ou pequenos negócios.

“Os cursos de alfabetização resultam da abordagem do Reflect que consiste no empoderamento comunitário a partir de uma perspectiva de problematizar as relações de poder e de percepção social da realidade local”, explicou a gestora.

“Já era adulta e tinha vergonha de frequentar uma escola”

Marta Bernardo, residente na comunidade de Mussekessene, no distrito de Mocuba, na província da Zambézia, faz parte de um dos círculos do Reflect da sua comunidade, já com 46 anos de idade, sentiu a necessidade de saber ler e escrever, para que não continuasse dependente dos seus familiares para gerir seus lucros vindos da agricultura de subsistência e pudesse se comunicar com seus clientes.

“Sou a terceira e última filha dos meus pais e todos não tivemos acesso à educação, visto que meus pais simplesmente preocupavam-se em nos levar para a machamba e nos ensinar tarefas domésticas. Ao longo do tempo, fui crescendo e senti a necessidade de aprender a ler e escrever, mas como já era adulta tinha vergonha de frequentar uma escola, e por muito tempo consegui esconder que não sabia ler e nem escrever”, revelou.

Marta conta que a dada altura já era difícil esconder que era analfabeta, mas a vergonha, o estigma e o medo a impediam de alcançar o seu sonho. Certo dia, um facilitador convidou-a para fazer para dos círculos do Respect.

“Quando cheguei ao círculo, vi que várias mulheres que eu conhecia e que acreditava que sabiam ler e escrever também participavam do curso de alfabetização, facilmente me abri e aos poucos fui aprendendo”, disse.

Parceiros contribuem para desistência da mulher à alfabetização

Contrariamente a Marta, há mulheres que até iniciam o curso de alfabetização, mas as adversidades da vida e demais factores fazem com que estas não concluam os ciclos de aprendizagem, reduzindo assim os esforços do governo e das organizações da sociedade civil na promoção do bem-estar social e na redução da pobreza.

É o caso de Ester Marcos (nome fictício), de 38 anos de idade, residente no distrito da Manhiça, na província de Maputo, que participou durante duas semanas em quatro sessões, mas infelizmente o seu esposo a proibiu de continuar com as sessões, alegando que esta não participava das sessões, mas aproveitava-se do momento para ter momentos de lazer com as amigas.

“Decidi participar dos círculos porque enfrento dificuldades para ler um simples nome, preciso da ajuda de terceiros para lerem mensagens que vão entrando no meu celular e responderem. Por vezes, meus filhos ensinam-me algumas coisas, já que meu marido me proibiu de frequentar os círculos, mas não chega a ser muito proveitoso, visto que eles também ainda estão no ensino primário básico, e o que mais me incomoda é saber que tem um lugar onde posso aprender facilmente, mas sou proibida de frequentar”, lamentou.

Quando questionada sobre a necessidade de negociar com o seu esposo para que este o deixe terminar o ciclo respondeu “tentei por várias vezes fazer com que ele me deixasse frequentar os círculos, mas sempre que toco no assunto brigamos e ele diz que eu devia ter aprendido a ler e escrever quando criança, mas infelizmente, segundo meus pais, no bairro onde cresci não tinha uma escola próxima e como eu era a única filha deles temiam que algo me acontecesse no caminho”, desabafou.