Persiste dilema de mulheres em posições de liderança que não tomam decisões sem aval dos homens

SOCIEDADE
  • Analistas apontam falhas na preparação da mulher

Moçambique vem registando um avanço a nível do seu quadro legal, ao mesmo tempo que as mulheres vêm ocupando espaços cada vez mais relevantes na vida social. No entanto, ainda persistem desafios, pois as mulheres ainda enfrentam discriminação e dificuldades na sua vida familiar, profissional e social. Vitória Langa, socióloga e directora executiva do Fundo Nacional de Investigação, acredita que as mulheres precisam ser preparadas para que estejam nos lugares de destaque na esfera política e cívica no país e poderem participar de forma activa nos processos de tomada de decisão.  

Neila Sitoe

De acordo com Victória Langa, que dirige uma das mais prestigiadas instituições no que a investigação científica diz respeito, o país já ultrapassou a fase de discussão de igualdade de género nos processos de tomada de decisão, porque tem estado a implementar políticas públicas desenhadas e vários instrumentos que o país ratificou com vista a alcançar a igualdade de género.

“A igualdade de género é notória na política, mas é preciso que a mulher que esteja nestes processos esteja preparada para poder tomar decisões sem necessariamente ficar à espera que alguém a diga para o fazer”, afirmou.

Para Langa, a mulher deve ser capaz e dinâmica, por isso considera que a preparação não deve ser limitada apenas para as mulheres que possuem graus académicos, mas para todas as mulheres, incluindo as mulheres das zonas rurais que por diversos factores são excluídas de vários domínios nesses processos, apesar de manifestarem interesse a partir da base comunitária. 

“Temos que lutar para que as mulheres tenham conhecimento para dominar a ciência, a técnica e estarem a promover a inovação, porque por mais que dominem a ciência e a técnica sem inovarem estaríamos num contexto em que Moçambique ficaria para a história, visto que o mundo se inova a cada dia, logo devemos também querer inovar, e uma forma de inovar é preparar todas as mulheres sem exclusão das zonas para uma sociedade mais equilibrada e justa”, defendeu Langa.

Por seu turno, Lelita Folege, activista social e politóloga, a mulher moçambicana deu um pulo satisfatório nos processos de tomada de decisão, mas ainda tem grandes desafios.

“As mulheres participam com consciência nos processos de tomada de decisão, mas é preciso potencializar a participação delas, e esta participação deve estar patente nas filosofias de abordagem de diversos factores no país, porque elas também são condutoras do desenvolvimento e influenciadoras, sem querer excluir o homem, mas precisam ser preparadas”, defende.

O desafio ainda é influenciar na tomada de decisão

Folege entende que mais do que exercer altos cargos, as mulheres devem ser capazes de influenciar na tomada de decisão nos cargos que exercem sem terem que se subordinar a um homem que hierarquicamente está abaixo delas, só pelo facto deste ser homem.

“Elas precisam tomar decisões quando detém o poder, mas não é o que temos verificado, porque por mais que estejam em posição de autoridade, muitas das vezes esperam pela aprovação do homem para poder exercê-la, e o mais caricato é que, por vezes, o tal homem até é inferior hierárquico delas”, sublinha.

O sociólogo Agnaldo Oficiano também partilha da mesma opinião.

“Acompanhamos casos, por exemplo, de mulheres que ocupam cargos de liderança onde elas têm o poder para tomar decisões, mas não o fazem sem que tenham o consentimento de alguém, que muitas das vezes é um homem, e essa questão alastra-se para as coisas mais ínfimas do quotidiano da própria mulher, onde ela até pode trabalhar seja no sector formal ou informal, mas quando chega o momento de gerir o seu dinheiro, espera o aval da figura masculina, por mais que não seja o marido, podendo ser um irmão ou até o filho”, lamentou.

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