Brasil: as danças já iniciaram

OPINIÃO

Luca Bussotti

Com a formalização da pré-candidatura de Inácio Lula da Silva ao Planalto, a campanha eleitoral no Brasil, de fato, já iniciou. Diante de uma multidão enorme, em São Paulo, o antigo presidente brasileiro lançou a sua candidatura às presidenciais deste ano, juntamente com Geraldo Alckmin, antigo governador do Estado de São Paulo. Lula e Alckmin pertencem a forças políticas diferentes: Lula é do Partido dos Trabalhadores (PT), que nos últimos anos saiu-se quase que esmagado das competições eleitorais em que participou, principalmente quando concorreu sozinho, quer a nível municipal, quer estadual. Alckmin é do Partido Socialista Brasileiro (PSB), já foi adversário de Lula, e sobretudo representa um eleitorado importante em São Paulo, o Estado que, tradicionalmente, com Minas Gerais e Rio Grande do Sul, determina boa parte dos êxitos finais da corrida eleitoral nacional.

A opção de desafiar Bolsonaro, em São Paulo, o actual presidente que vai se recandidatar à sucessão de si próprio faz parte de uma estratégia longamente pensada e planificada. As últimas sondagens dão os dois principais candidatos à presidência (o terceiro é o actual governador do Estado de São Paulo, Dória) em impacto técnico em São Paulo, onde Bolsonaro já deu várias provas de força. A mais recente fo, em meados de Abril, uma “motociata” (usando uma palavra brasileira) com quase 4000 motas presentes.

A corrida para o Planalto é incerta, embora as sondagens atribuam a Lula vantagem. Segundo os dados actuais, parece garantida uma segunda volta entre Bolsonaro e Lula, com este último em vantagem relativamente folgada para este segundo turno eleitoral, mas sem maioria absoluta para ganhar à primeira.

O confronto não é apenas entre dois indivíduos, ou até entre duas linhas políticas: é entre dois modelos completamente diferentes de interpretar o mundo, as relações sociais, os fundamentos da sociedade e as categorias do político. Bolsonaro já demonstrou quais são os seus ideais e planos para o Brasil: acima de tudo, ele foi (com Trump) o maior negacionista do planeta. De forma imprudente e, segundo muitos, culpadamente, andou a defender ideias desmentidas pelo próprio Ministério da Saúde do Brasil acerca da eficácia da Hidroxicloroquina como medicinal para o tratamento da Covid-19; atrasou na compra das vacinas numa altura em que Brasil registava 4000-5000 mortos por dia por causa desta virose, entrando em choque com quase todos os governadores dos Estados brasileiros. E terá de responder a imensos processos sobretudo com relação a esta questão, levantados por parte de cidadãos comuns que perderam seus familiares supostamente devido à sua negligência como Chefe de Estado, assim como de organizações de vítimas da Covid-19. Por outra, Bolsonaro entrou em choque com vários quadrantes da sociedade brasileira, desde os operadores da saúde pública até os académicos, principalmente quando ele resolveu nomear como reitores quem não se tinha posicionado na primeira posição nas eleições internas a cada ateneu. A nível económico, Bolsonaro procurou privatizar várias sociedades públicas, enaltecendo o facto de Brasil ter registado um crescimento económico, em 2021, de 4,6%, com os investimentos a aumentar de 17,2%. Crescimento que, porém, foi inferior ao de países da região como Argentina e Colômbia, sem influenciar positivamente, antes pelo contrário, o enorme fosso que existe no Brasil entre ricos e pobres. Em 2022, aumentou os salários dos militares, que foram inseridos na vida política do país, indigitados para cobrir cargos institucionais importantes. Até hoje esta camada representa um dos bastiões eleitorais do actual presidente, ao passo que as suas políticas discriminatórias contra a população negra e os quilombolas deixaram muitas dúvidas nos evangélicos, que em 2019 foram decisivos para a sua eleição. A própria corrupção, que Bolsonaro entendeu combater desde a sua campanha eleitoral passada, aumentou, no Brasil, durante a sua presidência, sinal de que os instrumentos para estanca-la não foram muito eficazes.

Lula sai de uma fase muito conturbada da sua existência: 580 dias de prisão, acusações de corrupção, e depois a sua ilibação quer no Brasil quer por parte da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, acusando o juiz Moro – que alavancou a investigação conhecida como Lava Jato – de parcialidade e de ter levado a cabo um processo sem as garantias constitucionais para o arguido. Lula e os seus colaboradores, tais como Gilberto Carvalho, admitiram a gravidade dos esquemas corruptivos em que muitos membros do PT caíram durante a governação de Lula (e Dilma); entretanto, diante deste novo cenário, Lula poderá autorrepresentar-se de vítima, conseguindo dividendos políticos de uma situação que parecia desesperada para ele assim como para a esquerda brasileira. Nos seus discursos, Lula está procurando demonstrar pacatez e sentido das instituições, diferentemente da agressividade e do clima de confronto que Bolsonaro pretende instaurar na corrida eleitoral. Mais uma vez, Lula pisca o olho aos afro-descendentes e certamente que voltará a ter uma política externa mais próxima à África. Provavelmente fortalecido pelos erros cumpridos durante a sua experiência anterior, tais como a expansão da corrupção no continente africano de empresas como a Odebrecht ou a participação em programas como o ProSavana, nefastos e que provocaram a oposição de movimentos sociais próximos ao PT, como o Movimentos sem Terra e similares em África e Moçambique (UNAC, ADECRU, etc.), se Lula for eleito irá posicionar o Itamaraty de forma mais madura e consciente mesmo no que diz respeito ao contexto africano. Um Brasil de novo engajado na cooperação Sul-Sul será uma das opções mais prováveis em caso de retorno de Lula ao Planalto.

Em suma, as danças já iniciaram, e a expectativa é que tudo corra de forma regular, sem interferências – sobretudo por parte dos militares – nos processos eleitorais, segundo quanto afirmou o próprio presidente do Tribunal Federal Eleitoral, Fachin, que vai adoptar tolerância zero neste sentido.