Tabus e fraca disponibilidade de informação contribui para abandono de contraceptivos

SOCIEDADE
  • Principal causa de aumento de índices de gravidez precoce
  • Acompanha o drama de adolescentes que viraram mães por falta de informação

A redução do prazer sexual, corrimento vaginal, aumento ou perda de peso, esterilidade, são alguns medos que fazem com que algumas raparigas e mulheres não adiram aos métodos contraceptivos no país. Especialistas dizem que estes tabus, aliados ao início precoce da vida sexual, estão causando os elevados índices de gravidezes precoces, havendo, em algumas regiões, unidades sanitárias em que 80% dos partos são de adolescentes.

Neila Sitoe

Um inquérito de 2015 refere que, em Moçambique, apenas 25,3% das mulheres em idade fértil, na faixa entre os 15 e os 49 anos, usam métodos contraceptivos, em comparação com taxas acima de 70% usados nos países mais ricos.

Isso acontece num contexto em que cerca de 439.453 mulheres, dos 20-24 anos, no país, tiveram o primeiro filho antes dos 18 anos de idade, e, dessas, 85.251 eram menores de 15 anos, de acordo com o relatório do UNICEF feito em 2011, e entre as principais causas da gravidez precoce consta a falta de informação, mitos e tabus sobre o uso de contraceptivos e a falta de diálogo entre pais e filhos sobre sexualidade.

As causas socioculturais na fraca adesão ao planeamento familiar manifestam-se, por exemplo, no facto de muitas famílias continuarem a associar o número de filhos à riqueza, na crença de que ter filhos consolida os laços conjugais, e no facto de haver mulheres que ainda acreditam no mito de que o uso de contraceptivos pode prejudicar a reprodução.

Naira Campos (nome fictício), de 16 anos de idade, residente no bairro de Chamanculo, está no oitavo mês de gestação. Diz que quando iniciou a vida sexual viu nos métodos contraceptivos uma forma de se prevenir da gravidez, mas depois começou a ter problemas de saúde e optou por desistir.

“Coloquei implante no início do ano passado, nos primeiros meses estava tudo bem, mas depois comecei a ter tonturas e dores de cabeça constantes, tinha vómitos e sentia-me sempre cansada. Perguntei a algumas amigas e colegas da escola e disseram que podia ser pelo método que estava a usar. Fui tirar o implante e os sintomas pararam”, afirmou.

Fraca disponibilização de informação nos centros de saúde

Naira continuava a ter uma vida sexual activa e decidiu experimentar outro método, mas, segundo ela, este trouxe-lhe mais problemas e não teve informação adequada por parte do pessoal médico hospitalar.

“Decidi colocar o DIU, que me trouxe corrimento vaginal e estava sempre com hemorragias, e optei também por tirar e não usar mais nenhum método. Foi então que em Outubro descobri que estava grávida, fiquei muito triste, aconselharam-me a fazer aborto, mas como vês, optei em manter a gravidez. Tenho consciência que a minha vida não será mais a mesma, mas tudo farei para que meu bebé venha ao mundo com saúde”, disse.

Tal como Naira, a equipa do Evidências encontrou Eunice Santos (nome fictício), de 15 anos de idade, residente no bairro de Chamanculo, mãe de um bebé de dois meses, que afirma ter iniciado a vida sexual quando tinha 13 anos, mas nunca quis usar métodos contraceptivos porque ouviu que fazem mal para a saúde.

“Na escola e no bairro sempre aparecem brigadas que vem falar de métodos contraceptivos, mas nunca me interessei em ouvir nem em usar porque minhas amigas disseram-me que são prejudiciais à saúde, que eu poderia nunca ter filhos, podia ficar ‘aguada’ ou perder muito cedo a vontade de ter relações sexuais”, relata.

Confusa e sem coragem de abordar o assunto com os pais ou alguém da família mais experiente, a adolescente decidiu colocar o contraceptivo de lado e passou a manter relações sexuais desprotegidas com o seu parceiro.

“Por tudo o que ouvia das amigas preferi não usar mais nenhum método contraceptivo e mantinha relações sexuais com meu namorado. No ano passado fiquei grávida, minha avó obrigou-me a manter a gravidez e viver com o pai do meu filho, situação que podia ter sido evitada se eu tivesse feito planeamento, em vez de dar ouvidos às pessoas, porque logo que dei parto as enfermeiras deram-me pílulas para não voltar a engravidar sem que eu queira e não sinto nada de estranho”, lamentou.  

“80% dos partos na unidade sanitária onde estou são de mães adolescentes”

Gertrudes Joaquim, técnica de saúde, traz a nú uma realidade que para muitos passa despercebida. Trabalha numa unidade sanitária onde 80% dos partos são de mães adolescentes, o que faz soar os alarmes num país composto maioritariamente por adolescentes e jovens.

Conhecedora desta triste realidade, Gertrudes defende a massificação do uso de contraceptivos, sobretudo nos adolescentes e jovens, para prevenir a gravidez indesejada, permitindo que a rapariga escolha quando e como ter filhos, contribuindo assim para que ela tenha autonomia e planeie a vida.

Em relação ao medo e tabus relacionados com o uso destes, explica que alguns contraceptivos têm efeitos colaterais, que variam de organismo para organismo, havendo, por isso, a necessidade das pessoas estarem atentas aos sinais e reportarem para que se encontre um outro método alternativo.

“A falta de informação sobre os métodos contraceptivos, os mitos e tabus associados ao seu uso é que fazem com que as raparigas não adiram a estes métodos e engravidem precocemente. Na unidade sanitária onde estou, 80% dos partos são de mães adolescentes, por isso há uma necessidade de se trabalhar nessa questão, porque apesar dos métodos contraceptivos terem efeitos colaterais, estes variam de acordo com o organismo de cada pessoa, e é necessário que, antes de iniciar o uso, as raparigas consultem especialistas na matéria para que se façam exames e se saiba qual método é adequado para o organismo delas”, afirmou.

A técnica explica que muitas das raparigas ou mulheres sofrem efeitos colaterais porque usam o método que elas acham adequado ou por vezes o disponível nas unidades sanitárias sem ter o cuidado de consultar inicialmente um especialista.

“Se a paciente estiver com algum efeito colateral após o uso de um certo método, que muitas vezes evidencia-se por enjoos, vómitos, dores de cabeça, vertigens e em casos mais graves hemorragias, esta deve procurar uma unidade sanitária para poder ter acompanhamento e se a situação persistir deve-se mudar de método”, explicou.

Diálogo entre pais e filhos

Alertando aos pais para estarem atentos aos sinais das raparigas e rapazes, a especialista defende que o uso de métodos contraceptivos deve ser imediato, assim que os adolescentes iniciarem a sua vida sexual.

“Assim que a rapariga inicia a vida sexual deve também iniciar o uso de métodos contraceptivos para evitar que esta tenha uma gravidez precoce. Os métodos são muito eficientes, apesar de não serem totalmente seguros, por isso aconselhamos que usem o preservativo que tem dupla protecção, protege da gravidez e das ITS’s. É importante também que os pais conversem com os filhos sobre a sexualidade logo na tenra idade, para que estas não tenham seu futuro comprometido devido a gravidez precoce, resultante da falta de informação, sendo que o Governo oferece vários métodos contraceptivos”, apelou.

Mas os problemas que dificultam a massificação do uso de contraceptivos não param por aí. A rede sanitária ainda é deficitária e está longe de cobrir a população como o desejável. Há até hoje quem tenha de andar quatro a cinco horas para chegar a um posto de saúde.

A cobertura dos serviços de saúde primários aumentou desde 2000. Todavia, a cobertura geográfica das infra-estruturas de saúde de base ainda é muito baixa. A qualidade da prestação dos serviços ainda está aquém do esperado devido a questões relacionadas com todos os outros pilares – financiamento insuficiente, recursos humanos inadequados, lacunas em governação (planificação, gestão), falta de produtos essenciais e limitados.

Fazem parte dos métodos contraceptivos modernos a pílula, dispositivo intra-uterino (DIU), anticonceptivo injetável, implantes, métodos vaginais, preservativo masculino e feminino, laqueação tubária, vasectomia e dos métodos tradicionais a abstinência sexual e coito interrompido e métodos folclóricos (medicamentos e rituais tradicionais com plantas, manuseio da placenta e outros).

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