Em Magude, mulheres abandonam as consultas pré-natais e parto por medo de serem violentadas

SAÚDE SOCIEDADE
  • Quando o parto caseiro volta a ser o “mais seguro”
  •  Direcção Distrital da Saúde reconhece existência de casos de violência, mas….
  •  Psicólogo Nilton Chiziane defende psicoterapia para as vítimas superarem o trauma

Entrar numa maternidade e sair com bebé nas mãos, nos dias que correm, virou um acto de sorte, e apesar das denúncias e relatos constantes persistem casos de violência obstétrica nos hospitais nacionais, que muitas vezes culminam em perda de bebé durante o parto, em morte materna ou em complicações de saúde na mulher pós-parto devido a negligência. No distrito de Magude, na província de Maputo, várias mulheres, por medo de serem violentadas pelas parteiras e outro pessoal médico hospitalar, optam pelos partos caseiros, o que preocupa a sociedade civil e o Governo.

Duarte Sitoe

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a violência contra a mulher apresenta índices alarmantes em Moçambique e no mundo, uma vez que mais de 70% das mulheres já sofreu ou sofre algum tipo de violência nalgum momento da sua vida.

A nível nacional, a violência obstétrica faz parte dos tipos de violência baseadas no género, sendo que afecta mulheres e raparigas, contribuindo sobremaneira para a mortalidade materno-infantil nas maternidades.

Visando engajar as utentes dos serviços obstétricos, seus parceiros, profissionais de saúde, sociedade civil e as entidades de Saúde, Justiça e Protecção social, com vista a garantir o empoderamento em matérias de prevenção e combate de violência baseada no género, violência obstétrica, direitos sexuais e reprodutivos, assim como diretrizes internacionais em obstetrícia, entre outras acções, a Saber Nascer, organização que promove a humanização obstétrica, uniu-se, em Novembro do ano passado, com várias organizações da Sociedade Civil para lançaram Campanha Nacional de Prevenção e Combate à Violência Obstétrica, denominada Humaniza Moz, no entanto, volvidos mais de seis meses, parece que nada mudou.

Na cidade e província de Maputo, há relatos de casos de violência obstétrica que já seguiram para as instâncias judiciais, mas o grosso das vítimas acabou desistindo devido à morosidade que estes processos levam nos tribunais. Só para se ter uma ideia, só na Cidade de Maputo, mais de 50 queixas de casos de violência obstétrica deram entrada no Gabinete do Provedor da Justiça no primeiro trimestre do ano em curso.

Do distrito de Magude, norte da província de Maputo, chegam relatos aterradores de mulheres e raparigas que sofreram maus tratos na maternidade do hospital local, o que faz crescer o número de mulheres que abandonaram as consultas pré-natais, parto e pós-parto, e optaram por partos caseiros devido aos traumas que carregam de experiências anteriores.

No passado, com a ausência dos hospitais, o parto domiciliar era muito comum, mas depois da Guerra Civil assistiu-se a uma expansão dos serviços de saúde, entretanto, mesmo com a disponibilidade dos centros de saúde ao nível do distrito de Magude, a qualidade de atendimento deixa muito a desejar.

Anselmo Manave, técnico de Medicina Geral ao nível do distrito de Magude, reconheceu que, apesar do esforço do Governo, através do Ministério da Saúde, para humanizar os serviços de Saúde de Zumbo ao Índico e do Rovuma ao Maputo, ainda persistem casos de violência naquela localidade.

Quem não tem dinheiro, parteiras mandam esperar até o bebé “sair por onde entrou”

Joana Cossa, que reside actualmente no Posto Administrativo de Motaze, não guarda boas recordações do Hospital Distrital de Magude. Aos 17 anos de idade, Cossa viu o sonho de ser mãe pela primeira vez transformar-se em “sol de pouca dura”. Sem conseguir segurar as lágrimas nos olhos, a sobrevivente contou que, por não ter dinheiro para pagar o “refresco” às enfermeiras, foi abandonada à sua própria sorte.

“O que passei não desejo a nenhuma outra pessoa, nem mesmo a enfermeira que frustrou o meu sonho de ser mãe. Éramos cinco mulheres naquela sala e três delas tinham dinheiro e receberam tratamento especial, e nós que não tínhamos nada fomos abandonadas. Gritei até perder a voz, clamando o socorro, e as enfermeiras limitavam-se em dizer que estava a fazer barulho e que o bebé ia sair de onde entrou. Infelizmente, depois de longas horas de sofrimento, o meu filho nasceu morto, mas acho que se tivesse sido ajudada isso não teria acontecido”, desabafa a vítima.

O sonho de ser mãe não esmoreceu, mesmo com os traumas da primeira gravidez, Joana Cossa voltou a engravidar, mas desta vez preferiu ficar longe dos hospitais. À nossa equipa de reportagem, Cossa reconheceu os riscos que enfrentava em não frequentar as consultas pré-natais, mas considera que foi a melhor decisão que tomou.

Para além de ter boicotado as consultas pré-natais, Joana Cossa, agora com 22 anos de idade, optou pelo parto caseiro por medo do que passou no passado, o que pode espelhar o trauma de muitas vítimas de violência obstétrica.

“Sabia que estava a correr riscos em não ir ao hospital, mas minha mãe disse que no passado os partos eram feitos em casa e eram mais seguros. Não fiz nenhuma consulta e mesmo com isso o meu filho nasceu saudável. Não sou a única que opta por essa via, as mulheres já estão cansadas de serem violentadas pelas enfermeiras e preferem ter o parto em casa. Dói carregar um filho no ventre durante nove meses para depois nascer morto porque as enfermeiras não quiseram te ajudar, os 500 meticais que elas exigem não compram uma vida”, sublinhou.

Quem também viu-se obrigada a abandonar as consultas pré-natais devido ao comportamento das profissionais de saúde foi Anabela Matusse, de 43 anos de idade. Mãe de cinco filhos e residente no Posto Administrativo de Mahel, Matusse gerou quatro filhos sem nenhuma intervenção hospitalar, mas no quinto decidiu fazer diferente.

Logo no início da gravidez, procurou os serviços pré-natais, contudo, para a sua infelicidade, foi recebida com insultos. A vítima contou ao Evidências que foi humilhada pelas enfermeiras do posto de saúde local.

“Quando cheguei, perguntaram-me se não tinha vergonha de engravidar nesta idade e que tinha que estar a cuidar dos meus netos. Aquilo me doeu porque era recorrente sempre que fosse ao hospital. Nenhuma pessoa aceita ser humilhada e se falassem apenas na minha presença podia até engolir, mas falavam na presença de todos. Acabei abandonando as consultas e fiquei em casa”, disse Matusse.

Inconformada com a humilhação, a vítima teve que voltar aos costumes antigos quando chegou a hora do parto.

“Tenho sete irmãos e nenhum deles nasceu no hospital. Sabia que se fosse ao hospital seria maltratada pelas enfermeiras, por isso, acabei dando parto em casa. Mesmo com as frequentes denúncias, os nossos serviços de saúde continuam uma lástima. Pedimos a quem de direito para acabar com a violência nos hospitais. As mulheres grávidas estão a ser maltratadas porque não têm onde queixar”.

Relatos assustadores que acabaram afastando outras mulheres

Moçambique faz parte do rol de 193 Estados-membros das Nações Unidas, adoptou, em Setembro de 2015, os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável a serem alcançados até 2030.

No quinto dos 17 objectivos, Moçambique e os demais países comprometem-se a “alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e meninas”, preconizando, entre outros, “acabar com todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas em toda parte, e eliminar todas as formas de violência contra todas as mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas, incluindo o tráfico e exploração sexual e de outros tipos”.

Mesmo com a adopção daquele importante instrumento das Nações Unidas, os índices de violência contra a mulher e a rapariga continuam assustadores em Moçambique. Enquanto aguardam o comprimento dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, as mulheres procuram outros caminhos para escapar da violência obstétrica nos hospitais.

Julieta António e Cacilda Machava olhavam para o hospital como um local de onde teriam soluções quando chegasse a hora do parto, mas os relatos assustadores de casos de violência contra mulheres que viram o sonho de ser mãe transformar-se em filme de terror acabou contribuindo para que preterissem dos serviços de saúde.

Com os nervos à flor da pele, as duas mulheres que partilham a mesma historia de vida apontam o dedo ao Ministério da Saúde pelo elevado índice de violência contra as mulheres e raparigas nos hospitais.

“Percorremos grandes distâncias para chegar ao hospital e depois somos insultadas. São coisas que tem afastado as mulheres das consultas e dos partos. Devido aos relatos de violência e roubo de bebés nos hospitais achei melhor ficar em casa, dói carregar um filho durante nove meses e depois não o ter porque as enfermeiras não quiseram te ajudar por não ter dinheiro”, lamentou Cacilda Machava.

Secundando, Julieta António diz não ver a razão de uma mulher maltratar outra, numa alusão a parteiras e enfermeiras que cuidam mal das parturientes e exigem dinheiro em troca.

“As enfermeiras deviam proteger as mulheres grávidas, mas tem sido ao contrário. Sou mãe de quatro filhos e nos dois primeiros fui bem atendida porque dispunha de valores para pagar as enfermeiras. O Ministério da Saúde deve abandonar os discursos e trabalhar seriamente para acabar com a violência nos hospitais”, desabafa.

“Nenhuma enfermeira sai de casa com o objectivo de dar chapadas a mulheres grávidas”

Contactada pelo Evidências, sobre a prevalência de casos de violência obstétrica ao nível daquela localidade, a Direcção Distrital da Saúde, Mulher e Acção Social de Magude reconheceu a existência de casos de violência contra mulheres e raparigas nas consultas pré-natais e parto, mas avançou que no grosso das vezes as enfermeiras lutam para salvar a vida da mãe e do bebé.

“Não posso negar que há casos de violência obstétrica no distrito de Magude, mas antes de tudo deve-se olhar para os constrangimentos que as enfermeiras enfrentam no decorrer do parto. Ao meu ver, não há nenhuma enfermeira que sai de casa com o objectivo de violentar mulheres grávidas com recursos a chapadas. Há coisas que acontecem durante o parto que só quem já esteve lá pode entender. As enfermeiras lutam para salvar a vida do bebé assim como da mãe e por vezes acabam se excedendo”, declarou Joana Reis, na qualidade de representante da Direcção Distrital da Saúde, Mulher e Acção Social de Magude.

Prosseguindo, Reis apontou que há mulheres que dificultam o trabalho de parto e, por via disso, colocam em risco a vida do próprio bebé.

“Quando a mulher entra no trabalho do parto enfrenta muitas dores. No entanto, há mulheres que dificultam sobremaneira o trabalho do parto e acabam levando chapadas das enfermeiras, mas este procedimento não é o correcto. As enfermeiras agem assim porque algumas mães acabam matando bebés devido ao seu comportamento. Já assistimos casos em que foram os próprios familiares a ficarem enfurecidos por perceberem que a gestante não está a colaborar para o sucesso do parto e acabam também lhe dando chapadas. São coisas que acontecem, não podemos negar, mas reafirmo que nenhuma enfermeira sai de casa com o objectivo de dar chapadas a mulheres grávidas”, defende-se.

Com o intuito de mitigar as recorrentes queixas de violência obstétrica ao nível do Distrito de Magude, Joana Reis aposta no parto humanizado, ou seja, a mulher que entra em serviço de parto deve se fazer acompanhar por um familiar.

“Para amenizar os casos de violência obstétrica temos apostado no parto humanizado. Convidamos familiares a acompanharem o parto e no decorrer do mesmo percebem a árdua missão das enfermeiras, uma vez que no grosso das vezes acabam se irritando porque uma mulher que está a sentir as dores do parto não obedece o que é lhe dito pelas enfermeiras. Por outro lado, instamos as mulheres para denunciarem os casos de violência e as cobranças ilícitas, pois só assim vamos conseguir combater esse fenómeno nos nossos hospitais”, finalizou.

Nilton Chiziane defende tratamento especial para as vítimas

A violência obstétrica é um fenómeno que ocorre durante a gestação, mais especificamente durante o parto. Ela pode ser verbal, física ou sexual. De acordo o psicólogo Nilton Chiziane, o acompanhamento pré-natal é direito de toda gestante e deve ser fornecido pelo Sistema Nacional de Saúde.

Nas entrelinhas, Chiziane observa que todo tipo de violência contra a mulher tem impacto psicológico na saúde física, mental e social, tendo adiantado que a saúde mental da mulher que foi violentada durante o parto fica seriamente comprometida.

Por outro lado, a fonte aponta que as mulheres que foram vítimas de violência obstétrica sofrem com a depressão pós-parto, angústia e medo. Nilton Chiziane observa que, para superarem o trauma, as vítimas devem ser submetidas a um tratamento com psicoterapia.

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