Nyusi levou seu filho na visita oficial aos Emirados Árabes Unidos e apresentou-o a altas individualidades

DESTAQUE POLÍTICA
  • Estado colocado ao serviço dos negócios da Família Presidencial
  • Jacinto Nyusi foi apresentado ao presidente dos EAU e outros homens de negócios
  • A tese é de que Jacinto Nyusi vive em Abu Dhabi, curiosamente sede da Sun Flower 
  • Sun Flower é a empresa que, segundo Jean Boustani, recebeu dinheiro de Nyusi
  • É o mesmo filho que comprou uma casa na África do Sul e vendeu antes do julgamento

À margem da sua última visita oficial aos Emirados Árabes Unidos (EAU), o Presidente da República, Filipe Nyusi, se fez acompanhar em actos oficiais pelo seu filho mais velho, Jacinto Ferrão Filipe Nyusi, 29 anos de idade, tendo o apresentado ao príncipe herdeiro de Abu Dhabi e presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed Al Nahyan, e outras individualidades projectadas na arena política e económica, naquilo que é interpretado como um flagrante caso de tráfico de influências, tendo em vista alargar o império empresarial da família presidencial que tem estado a florescer de forma vertiginosa desde que Filipe Nyusi chegou ao poder. Desde que foi despoletado o flagrante conflito de interesses, grupos de choque têm esgrimindo argumentos para tentar fazer acreditar que os encontros foram coincidência, pois Jacinto Nyusi, que curiosamente casou no Dubai, vive naquele país, que é coincidentemente onde, segundo a acusação feita em Nova York e em Londres por Jean Boustani, foram transferidos pouco mais de 1 milhão de dólares a favor de Filipe Nyusi, no âmbito dos subornos do escândalo das dívidas ocultas.

Evidências

Numa altura em que a família Nyusi tem estado a marcar uma grande presença no ramo empresarial, tendo alargado de forma vertiginosa o seu império em oito anos, a ninhada presidencial parece imparável nos negócios a saldo de um claro tráfico de influência.

O exemplo flagrante mais recente de tráfico de influências vem dos Emirados Árabes Unidos, onde Filipe Nyusi levou o seu filho para agendas oficiais e de negócios, aproveitando-se da sua posição para apresentá-lo a altas individualidades políticas e económicas daquele país rico em petróleo e um dos gigantes económicos a nível global.

Entre as individualidades a quem Jacinto Nyusi foi apresentado pelo pai, à margem de uma recepção oficial, está Mohammed bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi e presidente em exercício dos Emirados Árabes Unidos.

Um pequeno vídeo sobre a visita de Filipe Nyusi aos Emirados Árabes Unidos não deixa espaço para dúvidas. Nas imagens, é possível ver Filipe Nyusi a apresentar o seu filho, que na ocasião conversa com o príncipe herdeiro.

Não se sabe ao certo qual é o teor da conversa, contudo, pelos semblantes, parece que Jacinto Nyusi está a ser “exposto” ao mundo de “negócios das arábias”, naquela que era a primeira visita oficial do seu pai aos EAU. Trata-se de uma prática, de resto, bastante comum entre as lideranças africanas.

A visita em que Filipe Nyusi se fez acompanhar pelo seu filho tinha também em vista divulgar as potencialidades económicas do país, com vista a atrair investimento dos Emirados Árabes Unidos, um conglomerado que engloba alguns dos maiores homens de negócios do mundo. 

Basicamente, em missões dessas, gente politicamente exposta e com informações privilegiadas, como Jacinto Nyusi, aproveita esses fóruns para atrair investidores para negócios em que comparticipam somente com influência ou “apelidos”.

A ascensão empresarial da família presidencial

Desde que assumiu o poder, Filipe Nyusi tem estado a “expor” os seus filhos e familiares a várias oportunidades de negócios dentro e fora do país, havendo, inclusive casos flagrantes de negócios com entidades do Estado. 

Dois relatórios do Centro de Integridade Pública revelam como a família presidencial (filhos e irmãos) tem estado a beneficiar-se do poder para alargar o seu império empresarial. O primeiro, lançado em 2020, revelou que, em cinco anos no poder, a família Nyusi tornou-se detentora de acções em 14 registos empresariais entre os anos 2004 a 2019.

Segundo um relatório publicado pelo Centro de Integridade Pública (CIP) de Moçambique, Nyusi e os seus filhos tinham cinco registos empresariais em Janeiro de 2015. No final do primeiro mandato, o número de empresas com participação dos integrantes da família do Presidente chegou a 14, ou seja, quase triplicou.

Depois de 2015, as nove empresas ligadas à família procuram estabelecer-se em sectores estratégicos, como os recursos minerais, energia e agricultura. Algumas têm o objecto social amplo e desconexo, como a Motil, de Florindo Nyusi, filho do chefe de Estado moçambicano, que actua nos ramos de pesca e segurança. Esta empresa chamou a atenção dos pesquisadores do CIP por ter cedido a concessão de pesca à chinesa Nanjing Runyang Fishing Corporation.

De todas as empresas da família Nyusi, a mais flagrante é a Luxoflex, pertencente à discreta Cláudia Nyusi, que tem estado a fazer negócios milionários com o Estado. A empresa especializada em mobiliário para escritório ganhou dois concursos de fornecimento de carteiras escolares produzidas no âmbito da operação Tronco, liderada por Celso Correia.

Já o menino das arábias tinha até 2020 um único registo empresarial no país. Trata-se da The Gafe Limitada, pertencente a Jacinto Ferrão Filipe Nyusi, registada no BR nº 70, III Série, Suplemento, de 2 de Setembro de 2013 – pág. 2776-(50). 

O mais recente relatório do CIP dá conta de como Cosme Jacinto Nyusi, irmão do Presidente da República, tem estado a se firmar como empresário do sector mineiro desde 2017 a esta parte. Quando o irmão assumiu o cargo Cosme Nyusi não tinha sequer um registo empresarial em seu nome, mas agora detém cinco empresas que exploram desde ouro a pedras preciosas em várias províncias do país. 

Jacinto Nyusi vive no mesmo país onde Nyusi “recebeu” dinheiro das dívidas ocultas?

Logo depois que o vídeo que mostra o momento em que Jacinto Nyusi era apresentado pelo seu pai ao presidente dos EAU, os grupos de choque que se dedicam a defendê-lo começaram a fazer circular a ideia de que o filho do Presidente da República vive naquele país e que, por isso, o encontro foi ocasional.

Vivendo nos Emirados Árabes ou não, a verdade é que Jacinto Nyusi foi levado para a agenda oficial do pai, o que, por si só, concorre para tráfico de influência, tendo em conta que este tem interesses empresariais.

Esta é a primeira vez que se assume que Jacinto Nyusi, que há cerca de um mês participou do XII Congresso, onde foi eleito membro do Comité Central, vive nos Emirados Árabes Unidos. Há cerca de um ano, concretamente em Junho de 2021, o também filho mais velho do Presidente da República casou-se numa cerimónia requintada de luxos no Dubai.

Se realmente for verdade que Jacinto Nyusi vive à farta nos Emirados Árabes Unidos, vem ao de cima uma outra estranha coincidência, relacionado com um suposto património ligado ao caso das dívidas ocultas.

É que, segundo a revelação feita por Jean Boustani durante a sua defesa no tribunal federal de Nova York e, mais recentemente na defesa do Grupo Privinvest na Suprema Corte de Londres, foram transferidos pouco mais de 1 milhão de dólares a favor de Filipe Nyusi, no âmbito dos subornos do escândalo das dívidas ocultas.

Na sua defesa, no âmbito de um outro processo que corre termos na Suprema Corte de Londres, na Inglaterra, movido pela PGR contra o Grupo Privinvest, Iskandar Safa, dono daquele conglomerado empresarial, deu detalhes de como terá pago quantias substanciais, tanto directa quanto indirectamente, para o Presidente Nyusi, após a sua eleição como candidato para as eleições presidenciais de 2014, usando uma empresa de fachada de Abu Dhabi. 

O estadista moçambicano terá recebido subornos na ordem de um milhão de dólares para a sua campanha de 2014 e outros um milhões terão sido pagos em bens ocultados. O arguido António Carlos do Rosário, segundo a defesa de Iskandar Safa, foi quem terá dito a Boustani que o Presidente Nyusi desejava receber fundos da Privinvest para a sua campanha.

“Rosário indicou ao Sr. Boustani que o presidente Nyusi desejava receber recursos do Privinvest para sua campanha, separado dos fundos que estão sendo contribuídos directamente para FRELIMO (USD 10 milhões)”, refere Safa.

A Privinvest fez o referido pagamento a 10 de Abril de 2014, através da Logistics Offshore para uma conta em nome da Sunflower International Corp FZE na Emirates NBD. A Privinvest alega ainda que adquiriu uma viatura de marca Toyota Land Cruiser, por 728,6614.42 rands, para uso pessoal de Filipe Nyusi na campanha eleitoral que o conduziu à Presidência da República em 2014.

“Por volta de Julho de 2014, o presidente Nyusi solicitou a aquisição de um veículo de campanha. O Presidente Nyusi especificamente solicitou o seu carro por e-mails, de 21 e 24 de Agosto 2014 que a obra de arte específica fosse fornecida. O veículo (um Toyota Land Cruiser, com modificações adequadas e arte) foi adquirido mediante pagamento datado de 11 de Julho de 2014 pela Proindicus para a Spring Trade 206 CC, uma empresa sul-africana, no valor de 7. 286 614,42 ZAR”, prossegue Safa, referindo que “Em uma reunião com Jean Boustani, no Aeroporto Paris-Le-Bourget, a 01 de Agosto, o Presidente Nyusi solicitou mais contribuições de campanha e / ou assistência da Privinvest. Esta reunião ocorreu no contexto do périplo do candidato pela Europa (Londres, Paris, Berlim e Lisboa)”. Os desenvolvimentos deste processo serão conhecidos.

A casa da África do Sul ao “empresário” de 21 anos

O mesmo António Carlos de Rosário, que falava em nome de Filipe Nyusi, segundo a Privinvest, terá comprado uma vivenda localizada num bairro da elite, em Cape Town, na África do Sul, para Jacinto Ferrão Filipe Nyusi, em Julho de 2014, coincidentemente  no mesmo período (Entre Abril e Agosto de 2014) em que a Privinvest diz ter aberto os cordões à bolsa para pagar subornos àquele que viria a ser o quarto Presidente do país.

A aquisição da referida mansão, localizada num bairro nobre da África do Sul, foi confirmada por uma investigação do Centro de Integridade Pública (CIP), que na altura apresentou, inclusive, alguns documentos assinados em nome de Jacinto Nyusi. 

O filho mais velho do Presidente Nyusi, que antes do seu pai se tornar candidato a Chefe do Estado não tinha nenhum património registado em seu nome, terá desembolsado três milhões e novecentos mil rands para a compra do imóvel numa viúva de nome Helene Pam-Mark. 

Como que a confirmar a natureza ilícita do dinheiro, quando iniciaram as investigações do caso, o filho de Nyusi livrou-se daquele activo, ainda segundo o CIP, que adianta que foi vendido a quatro milhões e quinhentos rands, a 10 de Outubro de 2017, meses depois da divulgação do relatório da Kroll.

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