Chuvas hasteiam velhas fragilidades do campo e da cidade

SOCIEDADE
  • Infra-estruturas de retenção de água praticamente inexistentes
  • Movimentos solidários buscam abrandar a dor das famílias afectadas
  • 740 hectares de terras agrícolas foram inundados, afectando o fornecimento de alimentos
  • Os danos materiais incluem 7.365 casas, 15 centros de saúde e 15 escolas

Famílias em prantos, casas inundadas, infra-estruturas destruídas, aldeias isoladas e grandes movimentos solidários é parte do rescaldo das intensas chuvas que se fazem sentir mais a sul do País. O Evidências fez-se ao campo, no último domingo, e o drama das famílias é palpável. Na cidade de Maputo, as chuvas expuseram de forma escancarada e fria as fragilidades da cidade capital, bem como as irregularidades no ordenamento territorial. Com o cair das chuvas, as infra-estruturas ruíram, sistemas de esgotos ficaram à mostra, casas foram invadidas pelas águas, famílias ficaram desalojadas e ficaram sem o abastecimento da água da rede pública. Dados oficiais indicam que cerca de 36.770 indivíduos foram afectados, dos quais cerca de 20.000 estão na cidade de Maputo. Os danos materiais incluem 7.365 casas, 15 centros de saúde e 15 escolas.

Renato Cau e Milagrosa Manhique

Quem dera dizer que é a primeira e última vez que isto acontece, mas o histórico doutras chuvas não mente, pois estes problemas são bem conhecidos pelas autoridades governamentais que nada fazem para minimizar ou resolver estes problemas. A cada ano, já é sabido que pontes e casas vão desabar e que o Executivo terá de pedir financiamento para socorrer às vítimas das enxurradas.

Com o início das chuvas na madrugada de quarta-feira, 08 de Fevereiro, muitas famílias foram pegas de surpresa quando ainda descansavam, pois o que esperavam que seria uma chuva comum, deixou as suas casas completamente inundadas e, nalguns casos, sem chance mínima de salvar os bens como roupas, electrodomésticos e até documentos pessoais.

A título de exemplo, encontramos no bairro de Maxaquene C, a casa da família da pequena Carla Mabunda de 17 anos de idade que mora com a sua mãe, desde que nasceu.

Encontramo-la a lavar a roupa junto da sua mãe em um ambiente desolador, triste e completamente inundando pelas águas das chuvas que se fizeram sentir. Ao aproximarmos, a sua mãe não quis prestar qualquer declaração, porque se dizia cansada de receber pessoas que vêem ver o estado da sua casa, mas que no final não resolvem nada, então delegou a sua filha para a representar.

De acordo com Carla, foram pegas de surpresa quando dormiam, e não esperavam que a chuva seria tanta a ponto de colocar a sua casa naquele estado. Embora viva na casa há 17 anos, a menina Carla diz nunca se habituar ao estrago que as chuvas fazem sempre que caem.

O agravante é que, para além da mãe, morra com mais dois irmãos de 5 e 9 anos e mais duas primas que quase se afogaram nas águas dentro de casa. A solução para afastar os pequenos do perigo foi pedir abrigo na casa vizinha pelo menos para as crianças mais pequenas.

“Hoje, eu tenho 17 anos e sempre que chove já sei que vou ter que dormir em casa dos vizinhos, aqui em casa somos uma família de seis pessoas e para podermos dormir nos dividimos; dois dormem em casa de um vizinho. Eu e minha mãe dormimos aqui na casa de outra vizinha”, dizia Carla com os olhos tristes e voz trémula.

A menina conta que ainda que os vizinhos saibam do estado em que a sua casa se encontra não tem sido fácil conseguir um lugar para passar a noite porque “alguns vizinhos dizem não ter mais espaço para dormirmos e temos que pedir noutras casas para dormir”.

Adiante disse, num tom de agonia, que as águas das chuvas molharam o seu pequeno colchão, as suas roupas e dos seus irmãos, seus livros da escola e toda comida que havia para comer por pelo menos uma semana.

“Assim já estamos a começar nova vida”

À semelhança da família Mabunda, outras famílias nas proximidades partilham da mesma dor e preocupação tal como é a família do Ricardino Octávio Rui de 32 anos de idade, residente em Maxaquene há 14 anos, que viu a sua casa sendo engolida pelas águas enquanto dormia com a sua esposa e dois filhos.

Ricardino já sabia que a chuva se aproximava tanto e tratou de remendar algumas chapas que poderiam dar problema quando a chuva caísse. Mas o que não imaginava era a força da chuva que se avizinhava.

Ele conta que foi tudo uma grande surpresa para si e sua família, pois quando acordaram já estavam completamente cercados pela água, não só no quarto, como também na sala e no quintal. E conta: “quando acordei eram 3 ou 4 horas de madrugada e vi que o quarto estava cheio de água, a cama estava molhada e não tinha como descer sem molhar. Corri logo para carregar os meus filhos, porque um deles só tem 3 anos e estava a chorar. Dali, foi só tentar salvar o que dava para salvar” disse o dono da casa.

Pouco tempo depois amanheceu e Ricardino viu com clareza o tamanho do estrago que havia acontecido na sua casa e nas casas vizinhas. Conta que na sala a água era tanta que chegava a altura da sua cintura, o que fez com que quase tudo que tinha molhasse ou caísse na água incluindo a televisão que acabara de adquirir na esperança deste ano ter energia eléctrica na sua casa.

“Tudo molhou, desde louça, livros da criança que vai a escola, roupa, geleira estava a boiar na água ao lado de televisão. Tudo queimou, nem se dá para mandar arranjar. Graças à Deus que ainda não ligamos energia aqui em casa; não sei o que seria de nós se água chegasse nas tomadas enquanto tem energia”, suspirou Ricardino.

Acrescenta que as únicas coisas que sobraram na sua casa são as roupas e algumas cadeiras plásticas.

“Não sobrou nada, todas as coisas molharam, assim já estamos a começar nova vida. Assim temos que tirar água dentro com baldinho e limpar toda hora para água sair, mas não vai acabar hoje”, dizia o jovem com um olhar de completo desânimo.

O jovem finalizou dizendo, “ouvi que chuva ainda não acabou, se voltar a chover já não vou saber o que fazer”.

Estação de retenção de águas não conseguiu nem atenuar inundações a menos de 200 metros

Curiosamente, o município construiu a cerca de 200 metros da casa do Ricardino uma estação de retenção de águas, mas que tem se mostrado completamente inútil em casos de chuvas intensas ou torrenciais. O que se vê é uma vedação de alta guarnição com o portão enferrujado e deitado abaixo, ao redor completamente inundada e sem uso algum. Será que vale o investimento?

No domingo, 12 de Fevereiro, o presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, Eneas Comiche, visitou algumas zonas mais propensas às inundações e assegurou que já existe um trabalho de monitória que está a ser realizado diariamente, onde os vereadores, os chefes do quarteirão e os secretários do bairro tem estado no terreno a trabalhar, procurando formas de ajudar as famílias afectadas pelas chuvas que se fizeram sentir.

Eneas Comiche avançou igualmente que foram criados três centros de acolhimento para receber as vítimas das inundações em estado crítico nos diferentes bairros da capital, garantindo estar tudo a postos para enfrentar a demanda que possa surgir caso as chuvas piorem.

“Temos centro de acolhimento nos distritos de KaMaxaquene, KaMubukwana e KaTembe. Nós estamos preparados para essa situação”, garantiu Comiche.

Entretanto, o edil diz que o município nestes contextos tem colaborado com os secretários dos bairros e locais dirigentes, mas que tem havido “vista grossa”, visto que, segundo disse, “existe um trabalho que está a ser feito para apoiar as vítimas das inundações, mas essa ajuda nunca chegou a família em Maxaquene”. Curioso ou não, a família da Carla continua na casa dos vizinhos, esperando pelo socorro que nunca chega.

O edil apelou às comunidades a participarem activamente no processo de busca das famílias vítimas de inundações mais afectadas e avançou que “as comunidades devem se sentir envolvidas em todo o processo”, disse.

Para além de diversas famílias terem sido afectadas de diversas formas pelas chuvas, Eneas Comiche referiu que algumas infra-estruturas foram igualmente afectadas, como é o caso de 13 hospitais e escolas que estão neste momento inundadas um pouco por toda Cidade de Maputo. A agricultura não escapou das águas e mais de 128 agricultores perderam as suas culturas.

Segundo o Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD), pelo menos seis pessoas morreram e outras duas ficaram feridas. Cerca de 36.770 indivíduos foram afectados, dos quais cerca de 20.000 estão na cidade de Maputo. Os danos materiais incluem 7.365 casas, 15 centros de saúde e 15 escolas. Até 17.740 hectares de terras agrícolas foram inundadas, afectando o fornecimento de alimentos na área.

De 13 a 14 de Fevereiro, prevê-se chuva fraca a moderada na maior parte de Moçambique, enquanto que chuvas moderadas a fortes localmente são esperadas na província de Manica (centro-oeste de Moçambique).

Com base no pedido do Programa Alimentar Mundial, o Copernicus Emergency Management System foi activado em modo de mapeamento rápido (EMSR650) no dia 9 de Fevereiro para apoiar a resposta de emergência das autoridades nacionais com uma avaliação de danos nas áreas afetadas na província de Maputo.

Cresce o movimento de solidariedade às vítimas das cheias

Várias forças vivas da sociedade mobilizaram-se para canalizar ajuda de modo a abrandar a dor das vítimas. É uma iniciativa que mereceu o apoio da Comunidade Mahometana, na mensagem assinada pelo seu presidente Salim Omar, lê-se que “neste momento triste doloroso que assola as vítimas, membros da Comunidade Mahometana oram pelos parecidos e pelos sem tecto, rogando a Allah SWA que dê o conforto necessários aos sobreviventes e seus familiares”.

A Comunidade Mahometana apela a todos os moçambicanos do Rovuma ao Maputo, para que apoiem as organizações e voluntários já divulgados, com as respectivas contas bancárias, como forma de demonstrar a solidariedade humana, apanágio da cultura do nosso povo.

Através das Comissões criadas pelas Associações Islâmicas e Não Islâmicas, anotou, temos acompanhado o trabalho no terreno e disponibilizamos qualquer apoio necessário para que as populações vítimas desta tragédia possam receber o socorro necessário.

“Já foram dadas informações a entidade que estão no terreno, a nossa disponibilidade para receber na Escola e nas instalações da Comunidade Mahometana quaisquer apoios que pretendem fazer chegar ao destino”.

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