“Quem não vive para servir, não serve para viver”

POLÍTICA
  • Dino Foi revela os segredos por detrás de um dos maiores filantropos do país

Joana e Maria são senhoras de 64 anos, cada uma com a sua própria história de sofrimento, embora recebam as pessoas sempre com um sorriso no rosto. À primeira vista, são duas pessoas que um dia decidiram deixar de se queixar e levar uma vida dedicada ao próximo, mas a realidade é que ambas encontraram na Fundação Tzu Chi Moçambique a esperança e o conforto que as faltava. E esta história tem um nome em comum: Dino Foi, líder da fundação, que assumiu o servir ao próximo como lema de vida, destacando-se como um dos maiores filantropos de Moçambique.

 

Num País que, regra geral, exclui os idosos, aqui elas realizam tarefas diárias e apoiam pessoas mais carenciadas e desmontam a teoria de que é preciso ter muito para ajudar o próximo. O Evidências conversou com Dino Foi, na Fundação que lidera (Fundação de Caridade Tzu Chi Moçambique) para perceber os desafios enfrentados pelos voluntários, que foram os primeiros a chegar com apoio real para as vítimas do Idai, do Kenneth e também da insurgência em Cabo Delgado, a par de organizações internacionais.

“Não há segredos. As senhoras que vemos aqui ajudam as outras a levantarem-se, deitarem-se, na higiene pessoal”, refere quando tenta explicar que “na verdade, devolvemos aos nossos voluntários o sentido que quem não vive para servir, não serve para viver”.

No momento, a Escola Secundária Geral da Mafambisse saiu do papel e exibe-se imponente como resultado de muito trabalho. “Até agora era uma utopia, seja por questões económicas ou pela busca dos empreiteiros certos”, explica. A estrutura da escola está praticamente terminada, mas concluir o projecto reveste-se de desafios.

 O projecto, financiado com fundos da fundação é uma escola avaliada em 12.6 milhões de dólares, com 58 salas, três pisos, laboratórios de informática, biologia, física e química. A ideia, diz, “é emancipar as pessoas independentemente do lugar onde estejam, uma vez que “o nosso papel é servir para melhorar a autonomia pessoal” e “contribuir melhor as competências do dia-a-dia dos moçambicanos”. “Quem me ia dizer que ia poder ver uma escola desta dimensão aqui”, declara Sheila Chambal, a Chefe de Operações da Fundação Tzu Chi. Mas a ESG Mafambisse é “apenas” o começo das superescolas, ainda este ano começa a construção da ESG Nhamatanda com 48 salas e, ESG Esturro (Beira) com 44 salas de aulas.

Passados estes anos, garante que não se arrepende da decisão que tomou e espera continuar nesta aventura dedicada ao próximo sozinho. Na verdade, a ESG Mafambisse faz parte das 23 escolas e 3,000 casas previstas para província de Sofala, num projecto actualmente avaliado em 108 milhões de dólares, no âmbito do projecto de reconstrução Pós Ciclone Idai, inteiramente financiado pela Fundação. “Podíamos fazer mais, mas o ordenamento tributário não ajuda. Não temos nenhuma isenção e nem se quer podemos reaver o IVA!”, desabafa com alguma frustração e continua, “no actual estágio, se pudéssemos reaver o IVA, seriam mais 17 milhões de dólares dedicados aos mais desfavorecidos”.

“Quando começamos o trabalho, em 2013, no bairro da Maxaquene, poucos entendiam a importância de cuidar do próximo. Nós fomos em frente porque entendemos que ninguém deve dormir sem comer”, refere. Não foi fácil porque há um histórico de fundações que tiraram partido das pessoas, principalmente para fins de protagonismo. Nesse sentido, o trabalho dos voluntários, que sempre teve continuidade, foi desmontando a desconfiança e criou uma linha de solidariedade que se estende de Maputo a Cabo Delgado.

“Percebi que posso fazer muitas coisas que pensei, com apoio de todos. Foi uma mudança radical na minha vida porque nestes anos tomei decisões que colocaram de lado os objectivos da minha família”, orgulha-se Foi. A obra que será finalizada em Setembro de 2023, após um ano e meio de trabalhos, embora o objectivo de Dino seja conseguir novos financiamentos para estender este sonho pelo país. Não surpreendentemente, é um projecto que conseguiu mais do que atender às marcadas expectativas de promover a autonomia e gerar novos recursos para pessoas carenciadas.

No processo de assistência devido às cheias que assolam Maputo, a Fundação que ele lidera assiste 21230 famílias, com uma cesta básica constituída por 10 quilos de arroz, 12,5 de farinha, 2 de açúcar, 5 de amendoim, 5 de feijão, 2 litros de óleo e duas barras de sabão e, 15108 famílias com kits de sementes mais equipamento agrícola.

O outro lado: Cônsul honorário do Cazaquistão

Nessa conversa também abordamos o seu papel como cônsul do Cazaquistão em Moçambique, país que em 2022 sofreu uma violenta tentativa de golpe Estado e que se encontra a aprofundar suas relações com a África, incluindo Moçambique.

O país do qual é cônsul, nas suas palavras, “já se recuperou das feridas” da tentativa de golpe de Estado em Janeiro de 2022, pois o Executivo trabalhou em “mudanças políticas e sócio-económicas”.

“Existem muitas coisas que nós, como país, podemos aproveitar na relação com os outros”, defende, antes de reforçar que aquele país da Ásia Central é um “forte apoiante de uma economia verde global”, razão pela qual pretende ajudar África no domínio das energias alternativas.

Neste ponto, Dino encontra sinergias entre as suas acções altruístas e a sua posição como Cônsul, pois pretende levar essa experiência das energias renováveis para todos projectos da fundação no que diz respeito à construção de casas resilientes.

“Acreditamos que a estabilidade política e a coexistência pacífica entre as nações facilitam o desenvolvimento. Em outras palavras, a base do desenvolvimento é a estabilidade, um ambiente pacífico”, acrescentou.

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