Sobre a morte do Azagaia e o “aproveitamento político”

OPINIÃO

Luca Bussotti

Existem, na esfera pública moçambicana, vozes que apontam para um “aproveitamento político” por parte das oposições da morte do rapper Azagaia. As argumentações destacam que algum partido da oposição – mas convinha dizer alguns expoentes de partidos da oposição, como Venâncio Mondlane ou Manuel de Araújo – teria tirado proveito da morte do Azagaia, usando-a para fins políticos e eleitorais.

Ora, o conceito de “aproveitamento político” é bastante vago e ambíguo, carecendo de melhor definição. De qualquer forma, para o jeito de como ele foi usado nesta circunstância, ele remete a algo de negativo, quase que se tratasse de um comportamento, se não ilícito, pelo menos eticamente não correcto.

Entretanto, quem o formulou não considerou outro conceito que, provavelmente, está a cair em desuso neste momento político tão difícil que o país está a atravessar. Refiro-me ao conceito de “campo político”. O campo político é um terreno em que os diferentes actores políticos fazem suas escolhas, calculam seus riscos e procuram as suas oportunidades. A morte de Azagaia não foi a morte de um artista qualquer: foi o falecimento do maior músico Moçambicano contemporâneo, que fazia da justiça social e do comprometimento a sua missão última. A música representava o instrumento mediante o qual ele procurava transmitir os seus ideais, ela era um meio, non um fim. E um meio, seja dito sem reservas, de manifestação política.

A morte do Azagaia, portanto, foi um evento político, além de que o desaparecimento físico de um jovem activista, pai de família e artista renomado. As suas mensagens estavam lá, no “campo político” já há muito tempo. A sua morte as eternizou, como eternizou a sua figura.

O grande capital político representado por Azagaia  podia e pode ser usado para fins políticos uma vez que suas palavras, mensagens, denúncias sempre tiveram um conteúdo político.

A Frelimo, ou alguns dos seus expoentes, podiam ter feito isso, tanto mais que uma importante fonte de inspiração do Azagaia era o próprio Samora Machel. O facto de que o “povo” tenha de estar no poder é típico de lideranças populistas, populares e carismáticas, entre as quais Samora Machel foi, em Moçambique, o exemplo mais evidente. A Frelimo, porém, viu a morte de Azagaia como um risco, que estava ameaçando um sistema politico bloqueado, institucionalizado e protagonizado por partidos com funções há muito tempo pre-definidas e com pouca vontade de ir além delas. Um risco ainda mais acentuado depois de muitos jovens seguidores do cantor ter pegado no seu legado político, organizando grupos e eventos fora do controlo não apenas do governo, mas também dos maiores partidos da oposição.

A conclusão é de que o “aproveitamento político “ do Azagaia meteu a nu os pilares deste sistema político bloqueado e alérgico a perspectivas de mudanças. A pergunta que um observador minimamente atento se deve colocar não é porque grupos de jovens insatisfeitos da situação actual ou políticos sui generis como Venâncio Mondlane ou Manuel de Araújo tiraram “aproveitamento político “ da morte do Azagaia. O ponto é exactamente o oposto: porque os partidos da oposição, a Renamo em primeiro lugar, não fizeram isso, deixando que, faltando poucos meses às eleições autarquicas, o capital político do Azagaia fosse monopolizado por jovens ainda não organizados, ou por individualidades não necessariamente expressão daqueles partidos, embora sendo seus membros?

Se o debate sobre o “aproveitamento político” do Azagaia tem algum sentido, este não deve ser procurado naquilo que alguns fizeram, mas sim naquilo que outros (Renamo em primeiro lugar) não fizeram e, pelos vistos, não vão querer fazer. O que deixa muitas dúvidas sobre a efectiva existência de uma dialética política entre os partidos com assentos parlamentares na actual fase do país.

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