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Montagem do Raio X do Hospital Geral da Machava paralisada há um ano por falta de pagamento

O Hospital Geral da Machava é referência a nível nacional no que respeita ao tratamento das doenças respiratórias, com destaque para a Tuberculose. Sucede, porém, que há mais de um ano que esta unidade sanitária não tem Espessômetro, ou seja, equipamento que serve para tirar radiografias, que são como fotografias da parte interna do corpo (Raio X). A ausência do equipamento de Raio X deve-se a paralisação dos trabalhos de montagem de um novo Raio X, devido a falta de pagamento aos técnicos encarregues pela instalação da máquina. A situação faz com que doentes, alguns dos quais graves, deambulem à procura de outras unidades sanitárias para fazer aquele exame. Enquanto a direcção do Hospital Geral da Machava preferiu se fechar em copas, a Direcção Provincial de Saúde de Maputo nega a falta da máquina para o Raio X, justificando que o exame tem sido feito para os pacientes internos, sendo que os médicos têm acesso ao mesmo através de dispositivos móveis.

Duarte Sitoe

Evidências apurou que o drama dos doentes padecendo de tuberculose, pneumonia e outras doenças respiratórias começa em finais de 2021, quando a antiga máquina do Raio X ficou avariada, tendo sido entregue aos técnicos afectos ao Hospital Geral de Mavalane para a sua reparação.

Os técnicos daquela unidade sanitária conseguiram reparar a máquina, mas a mesma nunca mais voltou às origens porque o Hospital Geral da Machava já tinha recebido uma máquina de última geração, ou seja, a antiga máquina foi literalmente doada.

No entanto, a máquina de última geração, que foi comprada para servir, além do Hospital Geral da Machava, aos demais hospitais da província de Maputo, não chegou de funcionar porque o Governo não honrou o compromisso com os técnicos que estavam a fazer a montagem e manutenção, tendo os mesmos paralisado as actividades há cerca de um ano e o Governo se mostra incapaz de pagar pelo serviço.

De 2022 a esta parte, a máquina de Raio X da Machava, considerada de última geração, ainda não está operacional e encontra-se num estado de completo abandono, com alguns dos componentes, como baterias, em risco de ficarem obsoletos antes mesmo de entrarem em funcionamento, o que pode acarretar um grande prejuízo para o Estado.

Um técnico confidenciou ao Evidências que caso não se faça a montagem em tempo útil, parte dos componentes podem se tornar inutilizáveis, obrigando com que o Governo tenha que repor as partes danificadas.

“Paralisamos os trabalhos para pressionarmos o governo a pagar o que nos deve”

Longe dos discursos políticos polidos, a situação do sector da saúde não é das melhores. Para além da falta de medicamentos, insumos diversos e equipamentos de protecção para os profissionais de saúde, o sector que falhou a promessa feita na Assembleia da República de montar TACs e Ressonâncias magnéticas em todo o país parece não ter sequer dinheiro para pagar os técnicos.

Raul Ernesto fazia parte da equipa que era responsável pela manutenção da máquina que hoje se encontra guardada em peças no Hospital Geral da Machava, confessou que se viram obrigados a paralisar as actividades porque o Governo se eximiu das suas responsabilidades.

“As pessoas olham para a reparação de máquinas como um trabalho fácil. Trabalhamos, mas até hoje não vimos a cor do dinheiro. Preferimos paralisar as actividades, como forma de pressionar o Governo a pagar o que nos deve, mas, debalde, até hoje continua em silêncio.  Conseguimos recuperar a máquina que estava avariada no Hospital Geral de Mavalane, mas aquela que está no Hospital Geral da Machava exige um trabalho complexo”, relata, escancarando a falta de comprometimento dos gestores do sector.

Mas mais do que os prejuízos financeiros que tem estado a somar pelo facto da máquina estar a se tornar obsoleta antes mesmo de entrar em funcionamento, o Governo arrisca-se a perder preciosas vidas humanas por falta de condições para um rápido diagnóstico pormenorizado. A situação deixa agastados os utentes e, sobretudo, os médicos afectos a aquela unidade de referência no tratamento das doenças respiratórias no país e na África Austral.

Ao Evidências, um médico afecto ao Hospital Geral da Machava, que preferiu se identificar pelo nome de Edgar, reconheceu que a ausência da máquina de Raio X condiciona os trabalhos dos profissionais de saúde, admitindo que com a máquina operacional teria o trabalho facilitado.

“Como médico, gostaria de ter todos os instrumentos necessários para executar o meu trabalho. Infelizmente, não estão reunidas todas as condições para o desenvolvimento normal das nossas actividades, mas não podemos deitar a toalha ao chão. Temos que ir à luta com as armas que temos. Já reclamamos várias vezes, mas nada foi feito. A nossa profissão não se difere com a dos militares. Fizemos um juramento e mesmo com as adversidades temos que cumpri-lo”, sublinhou.

Utentes agastados com a situação

Madalena Herculano, familiar de um doente internado no Hospital Geral da Machava, contou o drama que os utentes vivem naquela unidade sanitária devido à ausência da máquina para fazer o Raio X. Ao Evidências, a fonte contou que os doentes são obrigados a fazer os exames em outros hospitais para posteriormente trazer os resultados.

“O nosso sistema de saúde está um caos. Não se justifica o que está a acontecer no Hospital Geral da Machava. Vim aqui com o meu irmão que apresenta sintomas de tuberculose, mas, infelizmente, recebemos a informação de que ele só podia fazer o exame de Raio-X noutro hospital e trazer os resultados. Confesso que fiquei escandalizado porque sabia que aquele não era o procedimento correcto. Quando meu pai teve esta doença fez todos os exames aqui. O Governo deve repensar seriamente no nosso sistema de saúde porque as pessoas estão a sofrer com esta situação”, contou Herculano.

Para além de transtornos de ter de se movimentar com um doente de um lado para o outro, Herculano viu-se prejudicado financeiramente, pois viu-se obrigado a ir a uma clínica privada para fazer o exame de Raio X.

“Recomendaram que tínhamos que ir ao Hospital Central de Maputo ou ao Hospital Geral de Mavalane, mas nesses hospitais há sempre enchentes, por isso optamos por uma clínica privada, porque o médico queria os exames com carácter de urgência. Fomos obrigados a pagar por um serviço que normalmente é grátis no Sistema Nacional de Saúde por falta de vontade dos nossos governantes. É uma vergonha o que está a acontecer no Hospital Geral da Machava. É a nossa referência no que respeita ao tratamento da tuberculose, mas não dispõe de material para os médicos fazerem o seu trabalho. Pedimos a quem de direito para resolver essa situação”, desabafou.

Mateus Langa, de 38 anos de idade, esteve internado no Hospital Geral da Machava durante três meses. Durante o período em que esteve internado naquela unidade sanitária fazia exames de Raio X no Hospital Central de Maputo ou no Hospital Geral de Mavalane.

Actualmente, Langa tem feito consultas de rotina naquela unidade sanitária localizada na Cidade da Matola, província de Maputo, mas quando é lhe solicitado raio-x desloca-se a outras unidades sanitárias, porque o ministério dirigido por Armindo Tiago não tem dinheiro para pagamento dos serviços de montagem e manutenção do equipamento.

“Tem sido um autêntico martírio fazer consultas no Hospital Geral da Machava. Quando fui internado pela primeira vez, tudo era tratado aqui. Agora, as coisas mudaram, os utentes devem fazer os exames em outras unidades sanitárias. O sofrimento não se resume apenas para as pessoas que estão internadas. As pessoas que fazem consultas de rotina também são afectadas, sobremaneira, por esta situação. Não se justifica que o Hospital Geral de Mavalane tenha máquina de Raio X e o da Machava não. Como um hospital de referência no tratamento de tuberculose, o Hospital Geral da Machava tinha que estar equipado com todos os materiais”, sustenta.

Leona Mate olhava para o Hospital Geral da Machava como uma referência, uma vez que quando foi internada não precisou de ir a outras unidades sanitárias para fazer exames. No entanto, quando teve uma recaída viu-se obrigada a reformular a sua opinião.

“A minha primeira passagem pelo Hospital Geral da Machava foi um mar de rosas. Quando fui internada pela primeira vez não precisei de sair do hospital para fazer exames, mas agora as coisas mudaram. A máquina de Raio X já não funciona e os doentes são obrigados a recorrer a outros hospitais para fazer o exame. Como utentes, temos que acatar com as recomendações dos médicos, mas é triste o que está a acontecer no Hospital Geral da Machava”, descreve.

Direcção Provincial de Saúde não sabe que o Raio X ainda não foi montado

Na sua versão dos factos, a médica chefe provincial de Maputo, Celestina da Conceição, referiu que o Hospital Geral da Machava dispõe do aparelho usado para fazer o exame de Raio X, dando a entender que, afinal, a Direcção Provincial da Saúde sequer sabe que a máquina não foi montada.

“Temos problemas de impressoras e o Hospital Geral da Machava não é excepção. Estamos a fazer com que o médico tenha acesso ao Raio X através do dispositivo móvel. Os doentes que estão internados fazem Raio X e isso pode-se provar. Os médicos têm um grupo de WhatsApp onde se partilham os exames, e está a se trabalhar assim mesmo. Se for uma parte do corpo que não pode fazer com aquele raio-x vamos a outros hospitais e estamos a controlar os nossos doentes. Não temos falta de raio-x no Hospital Geral da Machava, o que não temos é a impressora”, explicou.

De referir que a direcção do Hospital Geral da Machava preferiu se fechar em copas quando foi solicitada pelo Evidências, através de cartas de pedido de informação e chamadas telefônicas, para prestar esclarecimentos sobre as razões da paralisação da montagem da máquina de Raio X naquela unidade sanitária.

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