Um informe produzido a partir de bases erradas para imprimir uma falsa realidade

EDITORIAL

Filipe Nyusi dirigiu-se, na última quarta-feira, à Nação para apresentar o seu penúltimo informe anual sobre o Estado da Nação, que, em suma, como ele mesmo trata, é um balanço que descreve com nenhuma profundidade o real estágio do país. É o nono informe anual e o próximo é o último. Em todos eles, se há algo em comum são as dúvidas que pairam no fim das três horas de leitura, sobre assuntos e acontecimentos que marcaram a vida dos moçambicanos, mas que não foram dignas de serem tratados no retrato presidencial. O povo e o Presidente têm percepções diferentes sobre o mesmo objecto.

 

É também comum o anúncio de realizações que não refletem a realidade, configurando mentirinhas que não se sabe se são deliberadas ou o Presidente também está a ser vítima. Acto comum a nível sectorial, que se agrava por ser normalizado num informe presidencial.

 

Antes de mais é preciso anotar que o País tem vindo a se destacar na produção de relatórios falsos em diversos sectores, por estes não reflectirem a realidade ou entrar em confronto com outras publicações. No caso do informe, consta dos casos mais gritantes, no rol das realizações, a conclusão da estrada Malema – Cuamba, uma mentira grave para uma estrada que ainda está longe de terminar. Basta seguir do troço Lúrio à Cuamba para se ter a dimensão da integridade do Chefe do Governo.

 

Há dias, um cenário quase idêntico vimos em Gaza, quando assistimos à inauguração do Hospital Distrital de Bilene, no quadro de Um Distrito, Um Hospital, onde viemos a saber que os equipamentos apresentados, afinal, foram emprestados num outro hospital local, e bastou terminar a inauguração para ser devolvido. Isso também é fraude.

 

No Informe do Presidente, não é apenas a fraude deliberada ou não que escandaliza, é também a ausência da visão, ou lembra em seu informe anual de assuntos que marcaram a vida real do País. Os acontecimentos verificados no processo eleitoral não deviam ser reduzidos à uma afirmação de normalização de ilícitos eleitorais, sob argumento de que “nenhuma democracia é perfeita”. Mereciam uma postura do Chefe de Estado, o tratamento a este nível e não uma desdramatização e normalização por parte do Presidente do Partido Frelimo. Ali Moçambique estava perante a um Chefe de Estado e não a um presidente da Frelimo. Este é um exemplo, os assuntos são vários.

 

Há mais lacunas, problemas de superficialidade, ruptura com os demais informes, que fazem referência de acontecimento de vulto, passível de continuidade, mas que no informe a seguir não encontra qualquer referência, o que ilustra, claro, uma falta de foco e uma gestão de improvisos. A EN1 era a pouco o centro, era a pobreza que usávamos para sensibilizar parceiros a ajudar para sua reconstrução, a menos de um ano do fim do mandato não sabemos em que pé estamos.

 

Em 2024 encerra o ciclo de Nyusi e não se mostra capaz de recorrer o momento de informe para retratar de forma estruturada e aprofundada a sua governação, seguiremos manipulando números, projectos e a falar de um Moçambique que só existe aos olhos do Executivo.

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