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Dirigentes proibidos de lamentar

Alexandre Chiure

Há figuras que, pelos cargos que exercem, estão proibidas de usar o pódio, em qualquer que seja o lugar ou momento, para fazer lamentações. Se eles, poderosos que são, com faca e queijo nas mãos, lamentam, o que será do cidadão?

É que um João ou Pedro pode e está no direito de resmungar, criticar ou lamentar, como cidadão, quando achar que os seus direitos estão a ser postas em causa pelo regime do dia.

Pode revoltar-se contra quando a Assembleia da República aprova o estatuto do funcionário da casa que introduz subsídios polémicos, com um impacto orçamental de 100 milhões de meticais, numa altura imprópria.

Inadequado porque, em primeiro lugar, o salário mínimo do estivador não é revisto há dois anos alegadamente porque não há dinheiro para o efeito. Segundo, porque milhares de pessoas que fugiram da guerra em Palma debatem-se com a falta de abrigo e alimentos.

O cidadão comum, cheio de tristezas e alvo, vezes sem conta, de injustiças, lamenta que tenha que sofrer, com o seu dinheiro, enfrentando longas filas, para pagar o imposto da sua empresa e o Estado, num total comodismo, não parece preocupado em buscar soluções tecnológicas para tornar o processo não sofrido.

Lamenta que professores a quem a sociedade confia a educação dos filhos nas escolas sejam, nas horas vagas, chefes de quadrilhas de assaltantes, como aconteceu recentemente em Ribawe, província de Nampula.

O cidadão comum, aquele que se debate com o que será da sua vida amanhã, dele e da sua família, lamenta que agentes da polícia a quem deposita a sua confiança em termos de segurança. Que deviam garantir a integridade do cidadão, envolva-se em roubos, assaltos e assassinatos.

Lamenta que tenha que se levantar todos os dias as 4:00 horas da manha para ganhar 7:30 horas no serviço e chegar à casa as 22:00 horas devido ao crónico problema da falta de transporte. Alguns operadores do sector, quando entendem, fazem chantagem, paralisam os seus carros e complicam cada vez mais a situação.

Outros transportadores embarcam no velho problema de encurtamento de rotas que não acaba porque alguns agentes da polícia camarária, ao invés de o combater, fomenta-lo ao aceitarem refresco para deixar passar irregularidades.

O cidadão comum, aquele que é enganado no período eleitoral com promessas de melhores condições de vida cada vez distantes de si, seduzido e abandonado à sua sorte, lamenta que tenha que contratar um professor extra para dar explicação ao seu educando como se o trabalhado dos seus professores da escola não fosse suficiente.

No passado, esta figura de explicador não existia. Ninguém tinha a necessidade de procurar explicador. Tudo começava e terminava na escola.. Os alunos tiravam todas as suas dúvidas na sala de aula junto do professor e as coisas corriam muito bem. Hoje, os encarregados de educação são obrigados a ter que contratar os serviços deste mesmo educador, já na qualidade de explicador, o que é incrível.

Ao cidadão não faltam motivos para lamentações, mas não é o que se espera de um dirigente como o Presidente da República, Ministros, comandante Geral da Polícia e outros a quem cabe a responsabilidade de tomar decisões para corrigir certas práticas e comportamentos, combater criminalidade e outros males na sociedade.

A Procuradora Geral da República é uma dessas figuras que são proibidas de lamentar. Tem que deixar de usar o pódio, em qualquer que seja o lugar, incluindo do parlamento, para dirigir-se ao público do mesmo jeito que qualquer cidadão faz.

Numa das suas idas à Assembleia da República queixou-se de jovens que se enriquecem sem histórico. Quem são esses jovens? Porque é que até agora não foram presos? Estas são algumas das perguntas que a PGR não respondeu na sua intervenção como se fosse parte da população que busca consolação na lamentação.

Ainda na AR queixou-se do envolvimento de alguns agentes da PRM, sobretudo do SERNIC, magistrados e outros no negócio dos raptos. Cantou a mesma cantiga na semana passada na abertura do ano judicial. E disse mais. Que políticos estão implicados no tráfico de drogas. Falou destas matérias com conhecimento de causa e tudo terminou assim.

É que se Beatriz Buchili tivesse se comportado como procuradora, as cosas teriam sido outras. Teríamos tido uma Buchili a anunciar investigação para desmantelar redes de criminosos, dentro da polícia, que protagonizam raptos. Agentes que alugam armas AKM 47 aos raptores, elas que são exclusivas para as forças de defesa e segurança, para a prática de crimes. Teríamos tido uma Buchili a dar a conhecer ao público algumas detenções de polícias, magistrados ou políticos envolvidos na criminalidade. Estaríamos a falar de processos que estão na fase de instrução e outros à caminho dos tribunais para o julgamento e responsabilização dos autores.

Infelizmente, assuntos sérios como o branqueamento de capitais enriquecimentos ilícitos, drogas, raptos, corrupção e outros morrem em simples discursos da praxe porque quem devia usar on poder que tem, os instrumentos ao seu dispor não faz o seu papel como deve ser. Fica a lamentar como se de cidadão comum se tratasse. Com este andar das coisas não chegaremos a lado nenhum.

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