Renamo: a pequena loja dos horrores

OPINIÃO

Luca Bussotti

A pequena loja dos horrores é o título de um filme realizado em 1986 por Frak Oz, com roteiro de Howard Ashman. O filme conta a história de uma pequena e desgraçada loja de flores de Nova Iorque, cujo dono, o Sr. Mushnick, está quase na falência. O moço que trabalha com ele, o insignificante Seymour, descobre uma planta estranha que a colega Audrey, de que ele é apaixonado, lhe aconselha de expor. A planta, denominada Audrey II, atrai a atenção dos clientes, que assim voltam à loja. Entretanto, a planta inicia a dar sinais inequívocos de que a sua morte está próxima. Quando Seymour se corta um dedo e o sangue cai em parte por cima da planta, ele reinicia a florescer. Afinal, tratava-se de uma planta carnívora, que se alimenta de sangue humano…A planta come até o dono da loja, e pretende cada vez mais carne. No fim, Audrey II se revela como um extraterrestre que tenciona conquistar a terra, mas Seymour consegue matá-la, terminando esta horrível aventura.

Nesta história cinematográfica tem muito da Renamo dos últimos tempos: uma Renamo que andava estagnada, sem muita energia para competir de par a par com a Frelimo nas várias eleições de Moçambique (ver as gerais de 2019), e sem perspectivas de grandes sucessos eleitorais, mas sim de uma tranquila existência, estilo a loja do Sr. Mushnick, como segundo partido do país, até uma morte paulatina, mas segura e incontornável.

Vários factos têm reanimado esta criatura doente: acima de tudo, a desgovernação da Frelimo ao longo dos últimos anos. Nem precisa, aqui, citar casos evidentes de insucessos das políticas públicas governamentais. Desde a gestão do terrorismo em Cabo Delgado até a crise financeira gravíssima do Estado, com salários da função pública constantemente adiados, desde o caso-LAM até a recente marcha atrás do governo com relação aos custos dos actos notariais propostos pelo Ministério da Justiça, numa ostentação de diletantismo digno de melhor causa. Em segundo lugar, o fortalecimento, dentro da Renamo, de figuras políticas de grande envergadura, tais como Venâncio Mondlane ou Manuel de Araújo (só para citar dois entre os nomes mais conhecidos hoje), que pareciam ter encontrado com a “velha guarda” representada por Momade e os seus colaboradores um modus vivendi razoável. E finalmente, terceiro elemento, a morte do Azagaia e a formação do movimento “Povo no Poder” que nas últimas eleições autárquicas resolveu apoiar as supra mencionadas figuras, juntamente com outras, pertencentes aos partidos da oposição.

Tais figuras, Venâncio Mondlane em primeiro lugar, podem ser consideradas como a planta que deu nova energia a um partido velho, na sua classe dirigente, nas suas ideias (quando comunicadas), nas suas práticas partidárias internas. Entretanto, Venâncio Mondlane, Manuel de Araújo e outros não representam certamente monstros, assim como Audrey II. Pelo contrário, eles incarnam aquela energia nova de que a Renamo precisava e vai continuar a precisar. Porém, há um aspecto em comum entre tais figuras e a planta carnívora: as duas querem se substituir aos “donos” da loja. Mas a diferença está justamente aqui: se o Sr. Mushnick era, efectivamente, o dono que foi comido pela planta chupa-sangue, Ossufo Momade não é o dono da Renamo, embora a sua postura indique o contrário. Consequentemente, Mondlane – ou outros membros daquele partido – tem todo o direito de reclamar o seu espaço, dentro dos estatutos vigentes. E eis outro, grande problema: o primeiro a desrespeitar os estatutos é o próprio presidente. Se seu mandato tem duração de 5 anos, e se dentro do dia 17 de janeiro deste ano um congresso devia ser convocado, não faz nenhum sentido de Momade se manter na presidência, nomeando e desnomeando delegados de cidades e províncias por meio da secretária geral, sem nunca anunciar a data do próximo congresso.

A iniciativa de Mondlane se dirigir ao Tribunal da cidade de Maputo representa uma inovação na política moçambicana. Dificilmente, no passado, ou até nunca, dirigentes políticos deste nível se atreveram a fazer este passo que, pelo contrário, é relativamente comum em vários países europeus. Chamar em causa o tribunal tem vários significados: acima de tudo, a objectiva incapacidade de a Renamo resolver seus problemas mediante uma discussão interna; em segundo lugar, remeter nas mãos da justiça (largamente controlada pela Frelimo) o destino do partido; e finalmente, do ponto de vista político, certificar que a unidade da Renamo já terminou.

O último aspecto que será preciso compreender é o seguinte: com base nas disposições do Tribunal – que espera-se possa deliberar com base no direito, e não nas conveniências políticas do partido de maioria – se poderá ver se será Venâncio Mondlane a comer Momade, ou Momade a comer Mondlane. O que parece certo é que a convivência entre os dois, a menos de improváveis acordos em cima da hora, já não será possível. Conclusão: ou veremos uma Renamo liderada (depois de um congresso) por Venâncio Mondlane, ou uma Renamo com a actual liderança, e um partido novo, fundado por Mondlane e apoiado pelos jovens do Povo no Poder e outros cidadãos que irão apostar sua confiança em Mondlane e na sua nova formação política.

Como dizia um antigo estadista italiano, Giulio Andreotti, “o poder gasta (quem não o tem)”: é assim que a Renamo está hoje, sem poder e agastada por lutas intestinas que estão a levar à sua destruição.

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