O que atrai os nossos jovens, lá fora, que não tenha aqui em casa?

OPINIÃO

Felisberto S. Botão

A ordem mundial actual, moldada pelo ocidente, está manipulada para roubar de África e afastar os seus filhos do mérito do seu contributo para a civilização, economia global, e a ciência, e ainda bloquear o seu acesso aos seus próprios recursos naturais e da prosperidade. Isso é possível através do bullying, das narrativas e propagandas, conduzidas pelo povo ocidental, que de acordo com prof. James Small, “é guiado pelo comportamento anti-humanista e anti-natureza, que se tornou numa cultura de roubo, de guerra e de matança, que dura desde os tempos dos Vikings, Gregos e Romanos, e perdura até os dias de hoje. Ainda de acordo com o prof. James Small, “os ocidentais não constroem nada, preferem roubar e conquistar de outros povos, com assassinatos e violência, o que podiam obter com um acordo e aperto de mãos”.

Quando pensamos nos judeus, da história bíblica, do deus zeus, da história grega, dos cowboys, da história americana, constatamos que o ocidental não tem dificuldades em assumir a identidade alheia, assumindo a história de outro povo, fazendo-a passar de sua própria história. Colher mérito alheio parece uma forma de conquista para eles, o que não é de fácil compreensão para o africano.

Uma grande preocupação que me tira o sono é o futuro que a nossa terra está a construir, quando olho para os jovens e adolescentes, que são o garante do futuro, e vejo todos eles, engolidos pela narrativa e propaganda ocidental, completamente desconectados da terra, no que conversam, no que assistem, no que vestem, no que lhes entretêm, no que empreendem e no que sonham. A nossa realidade está a confundir-se com a realidade europeia, o que prolonga os nossos problemas.

Pela forma como a sociedade tem construído a nação, e as prioridades que tem adoptado durante décadas, o fazer de contas, a aparência e o imediatismo têm sido valores cultivados a nível generalizado, e se tornam princípios orientadores na postura de uma boa parte dos moçambicanos, na sociedade, no casamento, no emprego e na política, desviando-nos de valores e visão do amanhã, de nação e de família, da integridade e respeito à individualidade, a diversidade e a coisa de terceiros, principalmente a coisa pública.

Questionei os meus filhos e alguns outros adolescentes, “o que os atrai de fora, que os faz não preferir à coisa local”, partindo do princípio que a nossa sociedade precisa saber que não pode ter líderes melhores, sem uma sociedade melhor, que parte primeiro da identidade. Os jovens e adolescentes são os líderes do amanhã. Os nossos líderes, corporativos, espirituais (incluídos, e principalmente os curandeiros) e políticos, saem das nossas casas, e transportam os nossos valores e mentalidade, para os seus mandatos.

A minha filha de 17 anos, Shanazy Botão, usando o exemplo da mídia, no lugar de simples ideias, ela escreveu uma reflexão completa, própria da sua geração, mas com um olhar crítico e consciente. Não tive como extrair as ideias, porque só podia estragar, decidi repassar o texto completo para a apreciação dos leitores, de tanto profundo e surpreendente ser o texto, que passo a rescrever logo a seguir:

A internet tomou conta da nossa geração, seja através das redes sociais, dos videogames, ou dos sites de “streaming”. Seja qual for o caso, a maioria dos adolescentes de hoje em dia passa seu tempo de forma mórbida online, ou a imitar comportamentos que vêem online.

Em Moçambique, as crianças seguem os passos dos jovens americanos, brasileiros ou portugueses que vêem em plataformas como TikTok, YouTube e Instagram; elas não têm personalidade própria, nem a capacidade ou energia para criar uma.

Apesar de estarmos lentamente a perder a nossa conexão com nosso país através dessa negação mental da própria nacionalidade, gostaria de focar em como é que a mídia deles (ocidente) nos atrai. Como é que suas narrativas, especialmente sua expertise cinematográfica, nos levam a nos entregar por completo a eles?

Primeiramente, se você for a perguntar a qualquer Moçambicano por sugestões de filmes ou dramas, é provável que eles citem um filme americano ou europeu, seja algo que viram em um canal de TV, cinema ou site de “streaming”. Com os atores seria a mesma coisa, quero dizer, você sequer consegue nomear algum ator Moçambicano?

Não importa a idade dessa pessoa, a resposta mais provável é ‘não‘. Mas por que isso? Pessoalmente, eu acreditaria que é apenas o que nos é alimentado. Nossos canais de TV, nossos “reels” do Instagram, nossas páginas de TikTok “for you” e recomendações do YouTube, todos eles centralizam em filmes e criações lá de fora, e os sugerem para si de tal maneira que você vai desejar assisti-los. Independentemente de ter algo semelhante em seu país ou não, você fica completamente cego em relação a isso, especialmente as gerações mais jovens que estão lentamente a perder-se na narrativa ocidental, que passa a ser o padrão de referência.

Como você poderia possivelmente saber o que está dentro de casa, se cresceu a vagar do lado de fora no jardim, a espiar pelas cercas para as ruas?

Além disso, nós, como sociedade, fomos condicionados a acreditar que não há qualidade em nossos cinemas, seja por boca-a-boca, ou ao comparar um filme americano em ultra HD 4k com efeitos visuais avançados, com um filme de um produtor local feito com um orçamento mínimo, porque ninguém está disposto a financiá-los.

Consideramos o trabalho de nossos próprios camaradas sem valor, e nos dedicamos a explorar o que nos é alimentado de fora, e consumimos felizes sem uma única reflexão; não questionamos, apenas comemos sem ver o que está acontecendo na cozinha.

Não estou necessariamente dizendo que isso seja uma coisa má, é apenas um pensamento a ser considerado. Se você gosta do que é deles e não gosta do que é seu, para onde você planeia ir com sua vida?

Qual é o significado da sua vida se você recusa o que é seu, e é recusado pelo que você cobiça, que é dos outros? Um ponto de reflexão sobre em que nos tornamos.

Além disso, no meu próprio caso, a qualidade da narrativa, os efeitos visuais (se houver algum em uso), a qualidade do roteiro, a ambientação, a mensagem ou história contada em geral, a atuação e até mesmo o elenco são importantes para um filme ou série ser de alta qualidade. Claro que existem alguns filmes que me levariam a assisti-los apesar da falta de qualidade, somente pela história contada.

Houve vários casos em que eu encontrava um filme local, mas não o assistia porque o enredo era muito usado ou superficial demais, às vezes a história era boa, mas a atuação era muito rígida, e é genuinamente insuportável acompanhar o enredo quando as pessoas que o entregam estão a fazer um trabalho péssimo.

A ideia aqui é que não devemos nos concentrar tanto na qualidade dos filmes consumidos/produzidos em nossa sociedade, mas sim na origem deles.

Se assim for, nossos artistas podem seguir o lema: se não puder vencê-los, junte-se a eles, e desta forma, copiar as boas práticas para o produto local.

Somente então eles conseguirão olhar para o que interessa às pessoas e usar isso para direcionar sua atenção de volta para casa. Talvez então, quando voltarem para dentro, perceberão quantas mais histórias podem ser contadas através da narrativa Moçambicana, em comparação com a dos ocidentais.

Talvez assim possamos ensinar nosso povo a se dedicar ao que é deles, ao que os representa e apoia. Ao que realmente os afecta, porque chegamos a um ponto em que as pessoas estão perdidas no que é e no que não é assunto delas, e através da mídia podemos mudar essa mentalidade nossa.

A mensagem que desejo que você tire deste texto é que não há nada de errado em espiar pela cerca para ver o que está nas ruas, mas, uma vez que você terminar de observar e voltar para dentro, você deve encontrar uma maneira de fazer as pessoas ao seu redor olharem e observarem como você faz algo semelhante, melhor ou diferente, mas tão emocionante quanto a do estrangeiro.

Não permaneça nas cercas, sempre volte para dentro, e eventualmente você nem pensará nas cercas novamente. Você não precisará mais espiar do lado de fora, porque pessoas suficientes terão seguido o exemplo, a ponto de seu quintal ser tão floreado que não valerá a pena se preocupar com o que está no quintal dos vizinhos.

Embora possa não ser tão fácil quanto parece, tudo tem que começar em algum lugar, nós temos que começar em algum lugar.

Por: Shanazy Botão

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