Comité Central “matou o raivoso cão tinhoso” usando seus próprios dentes

DESTAQUE POLÍTICA
  • “Chefes” foi golpeados dentro da sua própria estratégia
  • Estratégia de Nyusi era de colocar “bonecos” para depois desistirem e Roque Silva avançar sozinho
  • Era para Daniel Chapo retirar candidatura tal como fez Damião José, mas “traiu” Nyusi e R. Silva
  • Quando membros do CC viram que Nyusi não queria recuar, convenceram Chapo a não renunciar
  • A carta de renúncia sob pressão já estava escrita e no intervalo foi preciso escoltá-lo até para ir 

Foi um parto difícil e à cisariana, com contornos de um verdadeiro drama das telenovelas mexicanas. Daniel Chapo, que entrou na Escola Central do Partido Frelimo como improvável, foi introduzido na short list ao lado de Damião José como “bonecos”, mas acabou sendo eleito candidato do Partido Frelimo. Na estratégia de Nyusi, Chapo era apenas fauna acompanhante com missão de à boca das urnas retirar a candidatura e deixar caminho aberto para Roque Silva, que devia avançar como candidato único, seguindo a saga à moda Coreia do Norte introduzida há alguns anos, mas o tiro saiu pela culatra. Daniel Chapo foi convencido pelos membros do Comité Central, com apoio de Joaquim Chissano e Armando Guebuza, a não retirar a candidatura, o que levou Nyusi e Roque Silva ao desespero. Após a goleada na primeira volta, inventou-se um longo intervalo, no qual Chapo foi pressionado e ameaçado a renunciar, inclusive já tinha a carta escrita, os membros do Comité Central fizeram um cordão de segurança para evitar que ele cedesse. Foi aí que caiu a ficha de Roque Silva, que para evitar uma humilhação ainda maior decidiu colocar o lugar de secretário-geral à disposição e desistir de ir à segunda-volta, abrindo espaço para que Daniel Chapo fosse eleito com 94% dos votos.

Foi um Comité Central impróprio para cardíacos, em que os nervos e a resiliência dos camaradas foram testados até o limite, mas no fim valeu a paciência e a experiência dos mais velhos, em coordenação com a juventude, que já no último suspiro conseguiram baralhar a estratégia que estava montada para colocar Roque Silva no poder. No fim, acabou saindo do Comité Central um cidadão comum, rejeitado e abandonado por quase todos.

Nos bastidores, o Evidências apurou os contornos do plano que os membros do Comité Central usaram para frustrar estratégia maquiavélica que havia sido montada por Filipe Nyusi para conseguir colocar Roque Silva como candidato da Frelimo para as eleições de 09 de Outubro próximo. A estratégia passava por colocar Roque Silva a concorrer com “bonecos”, termo usado pelos membros do CC para se referir aos nomes de Damião José e Daniel Chapo, que entraram na lista imposta pela Comissão Política desde o primeiro dia, com a orientação clara de uma vez chegado o momento de votação retirarem a candidatura. Damião José cumpriu, mas Daniel Chapo decidiu não aceitar ser mero boneco.

Foi por isso que durante os primeiros dois dias de uma sessão que, em princípio, devia ter durado algumas horas, Filipe Nyusi e seu grupo fincavam pé e não abriam espaço para qualquer negociação para a inclusão de qualquer nome proposto pelo Comité Central. Só no Sábado à noite, após uma ameaça de moção de censura, é que aceitou abrir espaço para mais dois nomes.

No entanto, ignorou todos os cinco nomes referenciados pelo Comité Central, nomeadamente José Pacheco, Aires Ali, Basílio Monteiro, Luísa Diogo e Eduardo Mulembwe, tendo a Comissão Política sido completamente dividida e num processo descrito como tendo o dedo ditador do próprio Presidente, imposto os nomes de Francisco Mucanheia e Esperança Bias (cunhada de Nyusi), esta última, que é membro da CP, sairia humilhada com apenas 3 votos.

A lista dos cinco começou por ser rejeitada, mas no fim prevaleceu a “ditadura” da liderança, e já no fim do dia foi-se à votação, com Roque Silva como candidato e o resto apenas de fauna acompanhante.

A estratégia silenciosa e o voto de vingança que fizeram a diferença

Quando cá fora transparecia que Filipe Nyusi e o seu grupo haviam conseguido impor a sua lista e vencido os membros do Comité Central pelo cansaço, na realidade, as coisas eram outras. Os membros do CC ainda tinham um coelho na cartola, um golpe duro retirado da própria estratégia de Nyusi.

Agindo no silêncio e de forma calculada, quando os membros do Comité Central, apoiados por alguns candidatos como Basílio Monteiro e José Pacheco, em coordenação com os antigos Presidentes da Frelimo e da República, Joaquim Chissano e Armando Guebuza, entre outros membros seniores do partido, se aperceberam da resistência de Filipe Nyusi em abrir espaço para a inclusão de mais candidatos fora do seu círculo de influência, decidiram, então, “matar o cão tinhoso” com os seus próprios dentes.

É aqui onde entra de Caifadine Manasse, Mety Gondola, Licínio Mauaie, entre outros jovens formados nas canteras da OJM, quando ainda era mesmo OJM, que decidiram abordar ainda na sexta-feira à noite Daniel Chapo para montar-se o plano “B”, para que caso nenhum dos tantos candidatos que vinham do Comité Central passasse, não retirasse a sua candidatura como estava predestinado. É que qualquer ascensão de Roque Silva era morte certa deste grupo, que inclui Caifadine Manasse.

A Daniel Chapo foi prometido apoio, logística, caso fosse necessário, e suporte de quase todos os gabinetes eleitorais cujos candidatos, alguns dos quais de peso, se sentiram marginalizados pela Comissão Política. Tudo foi feito no secretismo e até ao início da votação, na tarde de Domingo (05), Filipe Nyusi, Roque Silva e o seu grupo estavam convencidos de que Daniel Chapo iria retirar a candidatura.

Mau grado, quando iniciou a votação, ficaram atónitos quando o jovem Chapo se manteve na corrida. Apenas Damião José é que aceitou fazer em pleno o papel de “boneco” ao qual havia sido mandatado. Retirou a candidatura e ainda ficou a olhar para Daniel Chapo na esperança de que este também seguiria a estratégia, abrindo espaço para Roque Silva, mas não aconteceu. Assim, a lista final ficou composta por quatro candidatos, nomeadamente Roque Silva, Esperança Bias, Francisco Mucanheia e Daniel Chapo.

Tal como prometido, o apoio dos membros do Comité Central foi canalizado na sua máxima força e em jeito de vingança a Daniel Chapo, que obteve 103 votos, batendo com uma margem muito grande a Roque Silva, que obteve 77 votos, enquanto Francisco Mucanheia obteve 47 e Esperança Bias teve uns humilhantes três votos. Estava confirmada a qualquerização de um secretário-geral e de uma presidente da Assembleia da República.

Não obstante a “traição” de Chapo, Roque Silva e Nyusi tiveram ainda que engolir a seco um contratempo imposto pela popularidade de Francisco Mucanheia, que também provou que de “boneco” não tem nada e obteve uma margem significativa em perseguição ao secretário-geral.

Cordão do CC evitou que Chapo desistisse no intervalo sob pressão

Confirmada a derrota de Roque Silva para aquele que devia ser apenas fauna acompanhante, Filipe Nyusi, que sempre que se sentisse encurralado ou contrariado nos três dias da sessão extraordinária accionava um intervalo para espairecer e repensar na estratégia, convidou os membros do CC para um longo intervalo.

Simulou-se necessidade de compulsar os estatutos e demais regulamentos ordinários para se saber como é que se procedia em casos em que nenhum candidato não atinge maioria absoluta, mas era simplesmente pretexto para ganhar tempo, enquanto iniciava nos corredores um expediente encabeçado por quatro membros da Comissão Política e seus serviçais para ameaçar e forçar Chapo a anunciar desistência de ir a uma segunda volta com Roque Silva.

Alguns corredores dizem que Chapo até já tinha a carta de renúncia em mãos, mas os jovens, apoiados pelos mais velhos como Joaquim Chissano, Armando Guebuza, Teodoro Waty, entre outros, criaram uma espécie de um cordão e impediram que Chapo, que não parava de receber pressão, se retirasse da corrida.

Nos corredores fala-se de pelo menos quatro membros da Comissão Política (três homens e uma mulher) que estavam desesperados em coagir Chapo a se retirar da corrida. No entanto, não conseguiram evitar o pior cenário, pois já com garantias de Chissano e Guebuza, dos candidatos liminarmente rejeitados e marginalizados, que colocaram seus gabinetes ao seu serviço, Chapo decidiu continuar.

Desesperado e com medo de sofrer uma pesada humilhação, quando se retomou à sala, Roque Silva tomou a sua decisão mais inteligente possível e comunicou ao presídio e a toda sala dos Congressos que estava a retirar-se da corrida.

E porque ao “CHEFE” já não restava nem honra, nem glória, depois de ser qualquerizado nas urnas por um simples membro do Comité Central, não teve outra opção senão colocar o cargo de secretário-geral à disposição para se poupar de um penoso e tortuoso processo de destituição que era inevitável. Com a queda como SG, deixou também de ser membro da Comissão Política, ficando somente um soldado raso, devendo ocupar desde já um lugar no Comité Central como membro de honra, reservado a todos que já ocuparam aquele cargo. 

No fim do processo, após Daniel Chapo ser anunciado vencedor da segunda volta em que concorreu sozinho após desistência de Roque Silva, viram-se abraços frios entre Nyusi e o candidato, quando Guebuza e Chissano, quais mestres da táctica, esbanjavam sorrisos na saudação ao candidato.

Toda estratégia de Nyusi visava evitar que Basílio ou Pacheco chegassem ao poder

Toda a estratégia montada por Nyusi e seu grupo visava evitar a todo custo que o Comité Central tivesse a prerrogativa de indicar seus nomes, para evitar que José Pacheco e Basílio Monteiro, apontados como sendo da ala Guebuza, pudessem chegar ao poder. E no fim, o que prevaleceu é mesmo a lista da Comissão Política, “uma conquista” que encontra nos Estatutos o seu o conforto.

O principal medo de Filipe Nyusi é de o seu sucessor ser alguém que lhe possa perseguir a si e aos seus filhos depois de abandonar o poder, tal como ele fez com Armando Guebuza, por isso que resistiu durante todo Comité Central em permitir que seja um outro grupo fora da sua esfera de influência a indicar qualquer que seja o nome.

Só após ameaça de moção aceitou incluir mais dois nomes, e o Comité Central sugeriu cinco nomes, nomeadamente Basílio Monteiro, Eduardo Mulémbwè, José Pacheco, Luísa Diogo e Samora Machel Júnior, mas, estranhamente, a Comissão Política apresentou mais dois daquilo que os membros do Comité Central tratou de apelidar de “bonecos”. 

BI do Candidato

Jornalista e jurista de profissão, Daniel Francisco Chapo, de nome completo, nasceu a 06 de Janeiro de 1977, em Inhaminga, Província de Sofala. É formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane (2000), fez o curso de Conservador e Notariado (2004) e fez o Mestrado em Gestão de Desenvolvimento pela Universidade Católica de Moçambique (2014).

Lembrar que Chapo estreou-se com governante pelas mãos  de Armando Guebuza, que nomeou-o administrador de Nacala, num contexto em que se estava a estabelecer a Zona Franca Industrial e o Corredor de Nacala.

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