Ibrahim Traoré, Bassirou Faye e a 3ª Revolução Africana _ Parte 3

OPINIÃO

Felisberto S. Botão

O que significa a eleição de Daniel Chapo

No livro Ser Espiritual (2022), eu cito o W. E. B. Du Bois, na sua obra Almas do povo negro (1903), que “o negro vivia dividido por uma dupla consciência: comunal (negra) e nacional (estadunidense)”, que mais tarde ele próprio passou a entender este fato como um reflexo local do verdadeiro dilema universal do negro, emparedado entre a busca de sua especificidade e a integração ao Ocidente.

Este dilema precisa morrer na sociedade africana, no continente e na diáspora, e principalmente naqueles que aspiram ascender a posições de liderança do nosso povo. Muitos de nós ainda luta para preservar as conquistas de “europeu africano”, o que é uma desgraça a ser erradicada.

Quero lembrar o apelo que fizemos, que todos os jovens revolucionários, os que já tomaram o poder, assim como os potencias como são os casos do Venâncio Mondlane, de Moçambique, e Julius Malema, da África do Sul, que se não construírem os seus alicerces fora do sistema vigente, não têm como escapar a manipulação, e depois de 10 anos, vamos perceber que são os colonos de novo a mandar.

O Daniel Chapo é jovem, e enquadra-se neste grupo de revolucionários, mesmo que ele não tenha consciência ainda, e acredite que a sua eleição foi pelo carinho dos camaradas. Os tempos são de revolução, e esta só pode ser comandada por jovens, que não têm compromissos directos com os acordos assinados com o colono, que todos acreditamos que fossem de independência, mas afinal, foram acordos de neocolonialismo.

Gostaria muito de ver uma disputa presidencial entre o Daniel Chapo, Venâncio Mondlane e Albano Carige. Embora, infelizmente, o Carige já está fora de questão, pois a MDM perdeu o momento. Entretanto, a RENAMO ainda está em tempo de corrigir o grande erro de ir contra a revolução. O facto é que, se não se “surfa” na onda da revolução, afoga-se nela. Qual é a escolha da RENAMO?

O povo africano já sofreu tudo o que tinha para sofrer, não vai aguentar mais ver líderes seus servirem os povos distantes da europa, como estamos a assistir hoje. Na sua maioria, o povo não está com a actual liderança africana, e se mantém vivo na esperança do aparecimento de um revolucionário, numa perfeita imagem da frase explorada pelo Paulino Intepo, de Cabo Delgado, no seu artigo “sobreviver hoje, para continuar a lutar amanhã”. Daí que como líderes, não cometam o erro de pensar e acreditar que o silêncio do povo é uma submissão e passividade aos desmandos e atrocidades.

No passado já tivemos a perda do grande e forte pan-africanista, nosso conhecido Nelson Mandela, como o denunciou o Khalid Muhammad, num talk-show em 1994, para justificar a sua posição que, naquela época, os brancos deviam ter sido dados 24h para sair da África do Sul, “…você não pode rejeitar os factos e história de derramamento de sangue na RSA contra os negros… Não concordo com o governo vergonhoso do Nelson Mandela, pois nenhum homem sai da cadeia depois de 27 anos e se torna presidente, a não ser que haja um roteiro e um plano por trás da cena, para remoção de sanções económicas contra os brancos, mas sem um plano real de redistribuição da riqueza. Os Oppenheimer e outros capitalistas sugam o sangue do nosso povo, e não deixarão que hajam mudanças económicas que favoreçam os negros. A presença de brancos na África do Sul resulta de um acto de invasão e agressão de uma nação contra a outra”.

O problema africano é o colonialismo, hoje no formato neocolonial, que não permite que o povo africano se erga por si só, por conta dos sistemas impostos em tudo o que fazemos, até nas pequenas coisas inexpressivas. Hoje está claro para todos africanos que as independências não trouxeram a liberdade que o povo esperava, a soberania é uma falácia, e a democracia apenas serve aos europeus, e a condição de vida do povo piorou em relação ao período de gestão directa do europeu, por conta dos maus acordos de independência que os africanos assinaram.

Na minha opinião, esses maus acordos foram influenciados pela visão do pan-africanismo idealizado pelos negros na diáspora, que a sua abordagem buscava inclusão do africano no modelo europeu e americano, que para os brancos é uma coabitação impossível, dando assim vazão a uma exploração indirecta, sendo os líderes africanos transformados em gestores da coisa europeia em África, depois da eliminação física dos líderes que assinaram os acordos pela África. Não podemos continuar a esconder estes factos.

O saudoso Edson da Luz, conhecido como Azagaia, já dizia sobre nós “Sou dono da terra sem nunca ter mandado nela, com os amigos quero paz, com os irmãos faço guerra, por isso, sou explorado na minha própria terra, eu sou o único rico que vive na miséria, vivo da pena que sentem de mim, vivo da miséria”.

Há um padrão presente em toda África, que devemos sempre ter em mente, que é o desligamento entre a liderança política e o povo, e entre eles sempre está o branco a preencher o vazio. Devo lembrar que o branco não tem obrigação nenhuma de cuidar da nossa gente, porque ele tem muita gente necessitada na europa, que precisa da sua criatividade e diligência para trazer caça para casa. E enquanto nós não delimitarmos a nossa área de caça, e impor respeito, ele virá caçar. É a lei da natureza e da sobrevivência.

O branco faz bullying com o nosso líder, que o impede de produzir políticas favoráveis para o seu povo, e por mistura de medo e vergonha, o nosso líder não fala com o seu povo sobre isso. E vai tentando criar alternativas para minimizar o sofrimento do seu povo, acção que é entendida pelo povo como falta de vontade política, de integridade e desrespeito ao seu semelhante. Entretanto, o branco vem ao povo fragilizado e desesperado, e oferece ajuda, e muitas vezes de forma directa, alegando corrupção do líder africano. E o povo pensa, “afinal porquê lutamos pela independência, se o branco é que cuida de nós?

A paralisação espiritual é uma arma poderosa que o líder africano não acredita que pode vir do branco, da mesma forma que não acredita que o branco sente inveja da sua alegria, da sua fisionomia, das suas mulheres, da sua fertilidade e da sua riqueza, e se deixa vitimar, afetando e perturbando a sua função cognitiva e emocional.   

É hora de as massas tomarem posse e ajudar seus governantes. A pressão social deve crescer sobre os governantes africanos para despertá-los, de forma contínua e com diferentes mecanismos, e em casos extremos, recorrer-se a força como foram os casos de Guiné, Mali, Burkina Faso e Níger. Esse movimento deve ser a nível continental, da juventude, especialmente os influenciadores das páginas sociais, de académicos, de líderes religiosos, da sociedade civil, mas com o cuidado de não trazer brancos como assessores.

Não temos problemas em desenvolver relação de amizade, comercial e outras com a europa e américa, só não queremos continuar com esta relação de servidão e paternalismo.

Esta postura é notória na reunião trilateral China-França-UE, esta 2af, 06 de maio, onde Emmanuel Mácron coloca foco no “Level play field” nas relações comerciais, o que ele mesmo não considera nas suas relações explorativas com África. Por outro lado, a Úrsula von der Leyen diz que europa não vai hesitar em proteger seu mercado e suas empresas se a China não atender às suas preocupações, todos na perspectiva de persuadir o Xi Jinping a abrandar o seu ritmo de desenvolvimento, o que é um absurdo.

Entretanto dizem para nós abrirmos o mercado, e a coisa do conteúdo local, só se dar preferência a fornecedores locais “se” o custo, qualidade e pontualidade na entrega de seus bens e/ou serviços forem iguais em qualidade, ao concorrente internacional, o que naturalmente não nos ajudou a construir capacidade local. O que nos impede a nós de protegermos o nosso mercado e as nossas empresas, e exigirmos de todos os nossos parceiros, uma relação num “level play fiel”?

Vamos aprender com a Rússia e China, no lugar de rastejar perante o “status quo”, navegar nas dependências que o ocidente tem em nós, nos seus pilares de sustentação, como os recursos energéticos e o mercado, e maximizar o nosso controle sobre estes factores, o que melhora a nossa posição negocial.

O povo não precisa mais de líderes da Frelimo, da Renamo ou do MDM, o povo anda a procura de líderes de Moçambicanos, líderes do povo africano, com visão integrada de África e do seu povo a nível global.

Vamos deixar de lado as intrigas partidárias e defesa de agendas de grupos de interesse, e ajudar o Daniel Chapo a cumprir o seu destino de revolucionário para todo o povo moçambicano nesta 3a revolução africana? O mesmo digo, e é válido com relação ao Venâncio Mondlane.

O seu comentário e contribuição serão bem-vindos. Obrigado pelo seu suporte ao movimento SER ESPIRITUAL  https://web.facebook.com/serespiritual.mz/

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