IV Carta ao meu amigo Frelimo

OPINIÃO

Alexandre Chiure

Caríssimo amigo

Antes de tudo, queiras aceitar as minhas felicitações por, finalmente, teres eleito o candidato às eleições presidenciais de 9 de Outubro. Já estavas a ser tema de conversa. Todo o mundo questionava, com razão, a tua demora na indicação do sucessor de Filipe Nyusi com tantos quadros disponíveis. Mas qual era o problema mesmo?

Olha, amigo, sei que o candidato seleccionado não era a peça preferida pelo presidente do partido. Toda a gente percebeu isso. Imagino que este esteja, de alguma forma, desconfortável com a situação, apesar de parecer que está feliz com o desfecho.

Deu para ver que o eleito não passava de fauna acompanhante como os outros dois, numa lista dos concorrentes liderada pelo secretário-geral do partido. A ideia era que todos desistissem e deixassem o caminho aberto para Roque Silva.

Desta vez, o esquema não funcionou e deu no que deu. Estou a mentir meu amigo? Não. Ficou claro desde o início que a aposta do presidente da Frelimo era ele, o homem que não mede as palavras quando se trata de proteger o seu chefe ou de defender as cores partidárias.

Só que Silva decepcionou o seu presidente. Perdeu, no sufrágio, de uma forma humilhante e vergonhosa perante os seus subordinados,  dai a sua demissão do cargo e o abandono da Comissão Política. É que os resultados da votação mostraram claramente que ele não era querido dentro do partido e quando é assim perde toda a legitimidade de continuar a dirigir a Frelimo.

A vitória de Daniel Tchapo tem, por isso, um sabor especial. É que não é todos os dias que um membro raso derrota o seu secretário-geral, figura número dois na hierarquia partidária, numa eleição interna, sobretudo quando se trata de um partido como a Frelimo, com mais de 60 anos de existência. Significa que há problemas sérios.

Já agora, meu amigo Frelimo, como é possível que um secretário-geral reeleito há dois anos pela I sessão ordinária do Comité Central, com uma vitória retumbante, a seguir ao 12ͦ congresso da Frelimo realizado em Setembro de 2022, seja hoje banalizado? O que é que mudou?

Até que dá para imaginar. Alguns dos seus pecados são públicos. A arrogância que lhe caracteriza, a humilhação a pessoas à sua volta, discursos indecentes, imposição de candidatos em desrespeito às vontades das bases e do sistema coreano de candidato único. O facto de que os membros têm que ser queridos para se quererem, o que quer dizer que não se podem candidatar, de livre e espontânea vontade para os diferentes órgãos sociais do partido. Têm que ser indicados por este.

Com este seu modo de fazer as coisas, criou muitas inimizades. Fez muitas vítimas, entre quadros do partido a vários níveis e ofendeu os moçambicanos com alguns dos seus discursos inadequados. Pessoas assim terminam isolados e mal vistos, como é o caso vertente. Ele sai pela porta pequena e o seu presidente também.

Amigo, desculpa, mas, bem vistas as coisas, foi bom que a figura preferida não conseguiu eleger-se candidato às presidenciais. A Frelimo podia perder muitos votos, pois ele não tem uma boa popularidade. Todo o mundo estava com medo de ser governado por Roque Silva tendo em conta o seu histórico. Eu também.

Aliás, a queda dele começou a ser festejada a partir da sala onde decorreu a I sessão extraordinária do Comité Central, entre os camaradas, e continuou cá fora. Os beijos, os abraços, os cânticos e as danças não tinham a ver, propriamente, com a eleição de Tchapo, mas, sobretudo, com a sua derrota humilhante.

Significa que ao longo destes anos, o número dois do partido só era suportado e respeitado, mas não querido pelos membros e simpatizantes da Frelimo e pelo público em geral, que reagiu com satisfação à sua demissão do cardo de SG.

Caro amigo Frelimo

O país parou, durante os três dias da I sessão extraordinária do Comité Central, para saber quem seria o teu candidato às presidenciais. É que, desta vez, exageraste muito, meu amigo. Até parecia que fosses um daqueles pequenos partidos políticos. Demoraste a apresentá-lo e acabaste por fazer a escolha em cima do joelho.

Em algum momento fiquei muito preocupado. Sabes porque? É que começaram a circular listas bizarras de potenciais pré-candidatos onde figuravam nomes de anciãos, que já deram tudo que tinham a dar, em detrimento dos mais novos, e de indivíduos de reconhecida incompetência. Banalizou-se por completo o cargo de Presidente da República, o que significava que qualquer pessoa podia acordar e dizer que quer ser concorrer para a Ponta Vermelha.

Caríssimo, por razões óbvias, o teu conclave atraiu a atenção de dezenas de jornalistas que aceitaram ao teu convite.  O que me preocupou foi que os convidou e, depois, correu com eles ao ponto de não permitir que ficassem sequer no quintal. Isso causou estranheza. Nunca uma situação igual aconteceu.

O pior é que os deixaste sem a possibilidade de poderem ter acesso à informação oficial sobre o que se passava na sala, recorrendo, vezes sem conta, a fontes alternativas para manter informados os 30 milhões de moçambicanos. Da próxima vez faça algo diferente e melhor. Destaca alguém para servir de porta-voz do encontro.

Como se isso não bastasse, mandaste colocar um equipamento tecnológico para bloquear das comunicações via telemóvel e internet. Suponho que era para evitar que os membros do CC tivessem o contacto com o mundo exterior. Só que, por tabela, todo o mundo ficou afectado: jornalistas e a vizinhança da Escola Central do partido. Era muito difícil falar ao telefone ou navegar na internet.

Digas o que quiseres dizer, mas não ficou bem, para além de que não evitaste nada. Duma ou doutra forma a informação vazava, ainda que sem muita fluidez, através das redes sociais. Alguns membros do CC que saiam para se esticar revelavam o calor das discussões.

Caríssimo amigo Frelimo

Depois da realização desta I sessão extraordinária do CC, o que é que se pode dizer da Frelimo? Que saiu coesa e reforçada como se diz ou simplesmente dividida? Ao que me parece os camaradas foram à reunião divididos e saíram de lá mais divididos ainda. A propósito, o presidente honorário, Armando Guebuza, pediu para não estragarem o partido.  (X)

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