O CC da ruptura era mesmo para ser um teatro

EDITORIAL

É perigoso lutar contra a verdade. É que a verdade não luta para aparecer e é indiferente ao braço de ferro movido pela mentira e ignora os seus xingamentos. Lenta, nua, crua e carregada de surpresas. Tem consequências drásticas que desfazem no milésimo segundo o que foi preciso uma vida para construir.

 

Desde a sua ascensão à secretário-geral, apesar de criticada, a estratégia de candidaturas únicas foi a fórmula eleita por Roque Silva, que em meio a contestação conseguiu passar os seus, isolar os veteranos, montar o partido à sua medida e controlar todos os centros do poder. Toda a pedra estava onde devia exactamente estar, enquanto crescia no indivíduo a prepotência, a arrogância e a convicção de que tem tudo sobre o controlo, subestimando até os inimigos internos, só porque eram velhos amigos.

 

Alguém alimentou essa personalidade, que na última hora veio a ser desconstruída pelo próprio, que na hora de ver falhadas suas pretensões, naquilo que foi aplicação de fórmula de candidaturas únicas para benefício próprio, reconheceu o erro de se “querer” e, astuto, desistiu do processo, optando por uma saída menos humilhante. E quando todos estavam ainda a debater sua reacção, eis que surge novo debate nas redes sociais, que apontam para existência de camisetas com foto de Roque Silva, num cenário que sugere que o homem tinha avançado com tudo e contra todos, como quem vai atrás da galinha com sal nas mãos.

 

Na camiseta, a palavra voto vem repetida duas vezes e a palavra Frelimo não está completa, para além da qualidade da foto que não oferece seriedade, o que de imediato nos leva para duas saídas: uma foto manipulada, como se viu com a capa do Dossier & Factos ou camisetas feitas às pressas.

 

Em ambas possibilidades, o vazio de uma informação oficial vai ampliando a “especulação” e abre espaço para as várias interpretações que penalizam o partido e enxovalha o já sofrido Roque Silva, que sequer é dado tempo de curar as feridas do seu último grande combate que durou exaustivos três dias, sem que ninguém aceitasse o querer.

 

Seria o mínimo que o partido se pronunciasse, ou qualquer entidade envolvida no assunto, mas, pelo contrário, prevalece a máxima de que quem nada diz, consente. Uma hipótese que não podemos ignorar é que Roque Silva estava convicto de que a vez era dele. E que movido por essa convicção, aparentemente não muito sustentada pela racionalidade, tudo seria possível.

 

Embora seja óbvio que Roque Silva não é o dono de toda culpa. Neste momento, configura como o símbolo ou aquele que aceitou ser o objecto de conspiração para assalto do partido, centralizando todos processos de eleição interna, facto que aumentou a convicção de que podia fazer e desfazer. Basta olhar para trás para lembrar que no decurso do congresso, a nível central, não há qualquer nome que entrou no Comité Central sem ter passado pelo escrutínio dos chefes. E a nível das províncias, o poder foi partilhado pelos secretários provinciais que deixaram escapar os indesejados que passaram a ser ameaças insignificantes para algumas manobras dos Chefes.

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